Inaugurada em 1873, a ponte vem passando por problemas estruturais desde 2011
Por Yan Tavares
Inaugurada em 5 de abril de 1873, Ponte Barcelos Martins sofreu grave avaria dias antes de completar 153 anos (Fotos: Acervo do Museu Histórico de Campos/André Santo
Você sabia que a Ponte Barcelos Martins foi uma virada de chave na história de Campos dos Goytacazes? Pois é, hoje interditada por conta do desnivelamento em um de seus vãos, ela protagoniza um momento marcante e histórico da cidade. Foi a primeira ponte ligando uma margem à outra do Rio Paraíba do Sul, fazendo, assim, a conexão entre a cidade de Campos e Guarus.
A inauguração aconteceu em 5 de abril de 1873, segundo análise da historiadora Rafaela Machado, diretora do Arquivo Público de Campos. Ela relembra ainda que o patrimônio público foi chamado inicialmente de “Ponte de Pau” ou “Ponte Municipal”, até receber, mais tarde, o nome atual. Rafaela conta ainda em sua análise que foram quase 40 anos de luta até a cidade ganhar uma ponte ligando Guarus ao outro lado da margem do município.
“A construção de uma ponte sobre o Rio Paraíba era discutida pela Câmara Municipal desde pelo menos 1835, ocasião da elevação de Campos à condição de cidade. Para isso, em 1838 foi constituída a firma Companhia da Ponte do Rio Paraíba, tendo sido acordado com a Câmara Municipal no ano de 1945 sua construção que, no entanto, não ocorreu. Em 1857 o deputado da Assembleia Provincial, Dr. Caldas Viana, apresentou projeto autorizando a contratação de uma ponte de cantaria sobre o Rio Paraíba a José Juliot, a qual ficaria como propriedade perpétua do concessionário. No entanto, assim como o projeto anterior, nada foi feito para a devida construção”, relata
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Em 2018|No dia 28 de fevereiro, pilares sofreram avarias e, desde então, ponte passou por diversas vistorias (Fotos: Rodrigo Silveira/Secom/Divulgação)
Historiadora|Rafaela MachadoApós projetos frustrados entre 1835 e 1837, surge então um protagonista nesta história, no ano de 1866: o Barão da Lagoa Dourada. “Em 1866, quando era presidente da Câmara Municipal, o então Comendador José Martins Pinheiro, depois Barão da Lagoa Dourada, o projeto de construção de uma ponte sobre o Rio Paraíba ganhou novo fôlego. Foi ele o responsável por dar os devidos encaminhamentos junto ao Presidente da Província, apresentando uma representação assinada por numerosos campistas em que se pedia a execução da Lei Provincial n. 1.309, de 1865. A Lei autorizava o Governo Provincial a contratar a empresa Dutton & Chandler”, comenta Rafaela Machado. E acrescenta, resgatando que foram mais quatro anos até o início das obras:“O deputado Conselheiro Tomaz Coelho de Almeida conseguiu a autorização da contratação pelo valor de 396 contos e, finalmente, a empresa Dutton & Chandler foi contratada no ano de 1869. O orçamento elevou-se, por fim, a 500 contos, valor pago pelo Governo Provincial. As obras foram iniciadas em julho de 1870, ficando a referida ponte pronta em 1872. No entanto, a inauguração só ocorreu no dia 5 de abril de 1873”, dizComo era antesA chegada da Ponte Barcelos Martins foi uma “virada de chave” não por acaso. Também como consta em análise da historiadora campista Rafaela Machado, antes da obra ser inaugurada, a passagem de um lado ao outro do Rio Paraíba era feita por embarcações, como as chamadas pranchas, canoas e a famosa barca-pêndula.


Há 153 anos|Estrutura foi inaugurada em abril de 1873 e foi a primeira ponte de Campos sobre o Rio Paraíba (Fotos: Acervo João Pimentel)
Pedágio, você sabia?
Um dos relatos históricos que chama atenção sobre a história de Campos dá conta de que a primeira ponte instalada sobre o Rio Paraíba do Sul já teve cobrança de pedágio. “Depois de construída, a ponte foi arrendada a Thomaz Dutton, um dos sócios da empresa. Nos seus primeiros anos, havia pagamento de pedágio para travessia da ponte e para a cobrança, a ponte possuía portões em suas extremidades, sendo a cobrança realizada por guardas que ficavam em suas cabeceiras”, relata Rafaela Machado.
Por que Barcelos Martins?
E o nome, por que Barcelos Martins? Em sua primeira versão, a ponte tinha o seu piso em madeira. Diante do cenário de constantes acidentes, o então prefeito Barcellos Martins foi o responsável por mudar a situação.
“Nomeada oficialmente de Ponte Municipal, era também conhecida como ‘Ponte de Ferro’, devido a sua estrutura metálica, mas também como ‘Ponte de Pau’, já que o piso, ou seja, o chão, era todo em madeira, o que causava constantes acidentes, principalmente pela falta de manutenção. Barcelos Martins, quando prefeito, foi o responsável por trocar o piso da ponte, substituindo em 1958 a madeira por cimento, dando fim aos acidentes. Em sua homenagem, em 1964 passou a ser chamada de Ponte Barcelos Martins”, conta Rafaela Machado.
Histórico de interdições
Esta não é a primeira vez em que a Ponte Barcelos Martins sofre com problemas estruturais e de segurança. Entre 2011 e 2022, foram pelo menos três interdições e duas restrições de tráfego no período. Em janeiro de 2011, a prefeita Rosinha Garotinho determinou a interdição da ponte. A medida foi tomada após a Defesa Civil Estadual apontar riscos por conta do aumento do volume de água e de vegetação nos pilares. Uma semana depois, a ponte foi liberada, apenas para motos, bicicletas e pedestres.
No ano seguinte, novamente no mês de janeiro, ocorreu outra interdição. A decisão foi motivada pelo receio da restrição a carros ser desrespeitada, depois da barreira existente no local para evitar a passagem de veículos ter sido removida. À época, a Defesa Civil afirmou que a ponte não reunia condições de receber carros, motos, bicicletas, nem pedestres, por conta da correnteza do Rio Paraíba. A régua do rio marcava 10,85m naquela ocasião. A ação de interdição também contou com a presença da prefeita Rosinha, que visitou o local, acompanhada por técnicos da Defesa Civil.
Em 2014, ainda no governo Rosinha Garotinho, a Defesa Civil realizou uma restauração provisória – usando hastes de madeira e colocando fitas sinalizadoras – no guarda-corpo em passagem de pedestres no vão central da ponte Barcelos Martins. Em outubro de 2016, já no final da gestão Rosinha (2º mandato), a Prefeitura anunciou a restrição para motos na ponte, alegando questões de segurança. O espaço então tornou-se exclusivo para ciclistas e pedestres, com exceção para viaturas de emergência.
Em janeiro de 2022, já no primeiro mandato do prefeito Wladimir Garotinho, uma nova cheia de verão no Rio Paraíba gerou a interdição da Ponte Barcelos Martins. Na oportunidade, o rio atingiu a cota de 10,43 metros. Três dias depois, a ponte voltou a ser liberada, após avaliação estrutural da Defesa Civil, redução do nível do rio e diminuição da pressão exercida pela água sobre os pilares.
Em 2024, o Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT) anunciou uma nova restrição de motos à Ponte Barcelos Martins. A finalidade alegada foi garantir mais segurança aos ciclistas. Após manifestação de motociclistas, a medida acabou suspensa.
Quando foi interditada pela última vez, no dia 28 de fevereiro de 2026, a ponte recebia pessoas utilizando motocicletas, bicicletas e pedestres – 30 mil trabalhadores por dia, segundo o prefeito Wladimir.
Panorama atual
Com a ponte interditada desde o dia 28 de fevereiro, por conta um grave dano estrutural, equipes técnicas iniciaram na última semana uma série de avaliações, visando analisar as condições estruturais e avançar no planejamento das intervenções necessárias para sua manutenção.
No último dia 9, técnicos da Secretaria de Estado das Cidades do Rio de Janeiro chegaram ao município para realizar levantamentos topográficos e monitorar possíveis recalques nos pilares da estrutura. No dia 11, uma nova equipe técnica, formada por engenheiros estruturais, fez uma avaliação detalhada dos pilares. “Os trabalhos estão concentrados principalmente no pilar que apresentou recalque, além da análise das ferragens e das condições estruturais”, explica a Prefeitura.
Ainda de acordo com o governo municipal, a previsão é que, na próxima semana, chegue ao município a equipe responsável pelas sondagens da ponte. “Esse procedimento permitirá avaliar as condições do solo e da fundação da estrutura, etapa considerada fundamental para o planejamento da construção de novos pilares de sustentação”, finaliza o município.
O que fazer agora
Para o urbanista Renato Siqueira, a situação em que a ponte chegou simboliza ausência do poder com o patrimônio local:
“A situação atual da ponte é crítica e revela problemas além dos que ocorreram e justificaram a sua interdição. Por exemplo, revela a falta de rotina de avaliação e monitoramento técnico com programa de manutenção preventivo, visto em especial ser dotada de estrutura metálica sujeita a corrosão e a outros agentes”, destaca.
Sobre as perspectivas futuras, ele comenta que não vê a possibilidade de recuperação como complexa, mas que os serviços neste sentido inspiram cuidados:
“Entendo que o evento de agora é muito assemelhado ao anterior, no ano de 2022, com afundamento dos pilares e de trecho do tabuleiro. Logo, após minuciosa e criteriosa vistoria, se confirmada a estabilização, conforme o evento anterior, é possível que o mesmo procedimento de complementos complexas estruturais sobre os pilares que cederam, dê condição para o processo planejando de liberação da ponte, que tem se mostrado um importante equipamento urbano no dia a dia das pessoas”, analisa. E acrescenta:
“Indicaria ainda o estudo para adaptação de elemento funcional na base dos pilares que possam impedir o acúmulo de material nos mesmos, o que em tese foi um importante fator para o abalo e instabilidade dos pilares. Este elemento teria a forma de cunha, tal qual existe em concreto na Ponte Leonel Brizola, porém, a ser executado com elemento metálico, a fim de manter o sistema construtivo da ponte”, complementa.
O especialista sugere ainda uma adaptação momentânea no trânsito da cidade, através da Ponte Leonel Brizola:
“Por praticamente estar no mesmo eixo de deslocamento, a Ponte Leonel Brizola poderia ser adaptada, com segurança, ao trânsito dos meios não motorizados, com o isolamento de meia pista, a pista interna, de cada um dos lados, com afastamento da mureta central e sinalização na demarcação tracejada que divide as duas faixas de rolamento, complementado pela fiscalização da GCM e o IMTT. Nas cabeceiras, de cada lado, há proximidade com ciclofaixas e calçadas, com necessidade de pequeno trecho a ser complementado e integrado”, finaliza.
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