Morte de criança escancara a guerra entre facções e os problemas de segurança e infraestrutura enfrentados pelos moradores


Parque São Mateus|Mascas dos tiros onde uma bala perdida matou criança de 5 anos; PM reforçou policiamento na esquina onde crime aconteceu (Fotos: J3News)
“Tem 16 marcas de tiro aqui na parede. E mais uma ali dentro, perto do portão”. A frase foi dita por uma criança, na tarde da última terça-feira (11), no mesmo lugar onde o menino Bernardo Leite de Oliveira, de 5 anos, foi baleado na cabeça, no sábado (8). Ele faleceu horas depois, no Hospital Ferreira Machado. Na calçada, onde está a parede cheia de marcas de tiros, um homem de 30 anos morreu na hora, vítima do mesmo ataque a tiros, no Parque São Mateus, em Guarus. Outras três pessoas ficaram feridas. Entre elas, uma jovem de 18 anos. Até o momento, o que se sabe é que um carro invadiu a Rua Bartolomeu Lisandro e efetuou uma série de disparos. As primeiras informações da polícia apontam para a guerra entre facções criminosas como motivação.
A reportagem do J3News visitou o local para a reportagem especial desta semana. A residência onde os tiros foram disparados fica em frente à creche-escola do bairro. Desde segunda-feira (10), uma viatura da Polícia Militar está instalada na esquina da mesma rua. O que não muda o cenário no bairro, que é de medo, indignação e sentimento de abandono pelas autoridades públicas.
“Sempre fazemos festa de Dia dos Pais para as nossas crianças. Dessa vez, passamos em luto. Fazendo cartazes para protestar pedindo paz. Precisamos que olhem para nós não só quando acontecem tiros aqui”, comentou a moradora Fabiana Nascimento.

Reforço|Após morte de menino, viatura foi deslocada para rua onde crime ocorreu
Filme repetido em Guarus
O cenário de violência e terror no subdistrito de Guarus imposto pela guerra de facções já foi tema de reportagens especiais do J3 em janeiro deste ano e em setembro de 2024. Agora, a situação chega a um bairro diferente. Mas, novamente, o panorama é o mesmo: disputa por território, confrontos violentos, horror e medo. Cria de Guarus, Alexia Ruas destaca que periferia e criminalidade não são sinônimos e cobra um olhar mais atento do Estado à região.
“Precisamos questionar porque determinadas dinâmicas de violência armada e de disputas territoriais estão alcançando bairros onde antes não estavam presentes dessa maneira. Quando essas dinâmicas chegam a um território, elas interferem profundamente na vida cotidiana. Estamos reivindicando o direito de continuar vivendo. O direito de uma criança brincar na rua, de uma família sentar na calçada, de um trabalhador voltar para casa sem medo. Segurança Pública também precisa significar isso: garantir às pessoas o direito de viver, circular e ocupar o seu próprio lugar”, pontua.
Ela chama atenção também para a forma como o Estado encara a situação. “Outro ponto importante é a forma como o Estado chega. A presença mais visível é a policial, enquanto cultura, esporte, lazer, assistência social, oportunidades para a juventude e políticas urbanas permanentes não chegam com a mesma intensidade”, diz. A reportagem também ouviu a socióloga Luciane Silva, professora da UENF e especialista em segurança pública em Campos. Ela chama atenção para as condições que as forças de segurança têm para atuar na cidade.
A morte do pequeno Bernardo colocou em evidência o Parque São Mateus, mas o índice de criminalidade continua assustando em toda a região de Guarus.

Vítima|O pequeno Bernardo morreu com um tiro na cabeça
Na última semana, a Polícia Militar (PM) apreendeu 14 aparelhos celulares, 7 quilos de drogas e uma moto roubada, em uma residência no bairro Calabouço. Boa parte dos celulares foi encontrada embalada e lacrada, junto de carregadores, chips e fones de ouvido. A principal suspeita é de que o material seria enviado a unidades prisionais da cidade. Nessa mesma semana, um homem de 39 anos foi morto a tiros no Parque Santa Rosa. A vítima foi localizada caída em uma rua, com diversas perfurações pelo corpo. No primeiro dia deste mês, outro homem foi assassinado a tiros. Desta vez, no Parque Novo Mundo.
Em julho, chamou atenção outra ação da PM, que resultou na apreensão de um fuzil calibre 556, com munições e dois carregadores da arma, no Parque Santa Rosa. Também foram apreendidos dois quilos de cocaína e 500 gramas de crack, estimando um prejuízo de R$ 20 mil para o tráfico de drogas. O índice de ações violentas, crimes e homicídios no subdistrito é um fator que tem chamado a atenção.
A reportagem também ouviu a socióloga Luciane Silva, professora da UENF e especialista em segurança pública em Campos. Ela destaca que há uma questão mundial sobre o tema na atualidade:
“Precisamos levar em conta que há uma discussão global sobre o aumento da ação das facções no exterior e expansão dessas organizações criminosas no país. Não teria como Campos ficar de fora. Estamos falando de uma cidade de mais de 500 mil habitantes, com enorme relevância. Com universidades, com a Bacia de Campos, um quadro de incremento desse cenário. Agora, a desigualdade existe em todo o país. Nem por isso, há mancha criminal em todos os lugares que ela está presente. Ter pobreza e precariedades não traduz mecanicamente que você vai ter presença e ação de criminosos fortemente armados. Até porque, o tráfico não vai atuar em regiões onde eles não tem algum ganho”, pontua.
Domínio pelo terror
“Existem duas formas de domínio de território. Uma é a corrupção e a outra é o horror. Quando o horror é praticado de forma desordenada, como foi no caso da morte dessa criança, por exemplo. É preciso entender quem está na cabeça de ações como essa. Porque ninguém anda tão fortemente armado para ações cotidianas”, enfatiza a especialista em segurança, Luciane Silva. Ela também chama atenção para as condições que as forças de segurança têm para atuar na cidade.

Luciane Silva
“Precisamos olhar para a Polícia. As condições de trabalho precisam existir. Mais inteligência, maior efetivo e equipamento. Os policiais precisam ser respeitados e valorizados. Colocar uma viatura, com dois policiais militares no local, é estupidez. Você põe a vida deles em risco. Quando você os coloca ali, armados, em uma área densamente povoada, que eles não conhecem, são expostos. Nas delegacias, são poucos policiais civis para muito trabalho. Sem estrutura. Essas pessoas trabalham sempre no limite”, aponta.
Delegacia de homicídios e pacto social
A reportagem do J3 conversou também na última semana com o delegado titular da 146ª Delegacia de Polícia (Guarus), Márcio Caldas. Ele declarou que vê a criação de uma delegacia de homicídios como essencial para a região:

Delegado Márcio Caldas
“A criação de uma delegacia de homicídios nos ajudaria muito. Hoje, a gente perde muito tempo aqui com casos pequenos. Fizemos um levantamento aqui e temos seis mil inquéritos físicos, mais seis mil digitais. O efetivo não é suficiente para dar conta. Aí casos graves se misturam com tantos outros menores. Em uma delegacia especializada, estaríamos falando de 15 e 20 homens focados somente em inquéritos de homicídios. Seria um braço importante para reduzir o cenário atual”, disse.
Caldas falou ainda sobre como a polícia vem trabalhando, mesmo em meio às dificuldades estruturais. “Fechamos o último trimestre em primeiro lugar em produtividade investigativa, que se refere à quantidade de inquéritos concluídos. Primeiro lugar também em produtividade operacional, que é relacionada ao número de prisões. Tem inquéritos que são demorados mesmo, por conta de todo o processo judicial. Mas tem casos também que esbarramos em outras questões. Por exemplo, no caso dos celulares, 13 dos 14 estão bloqueados. Não temos tecnologia para desbloquear. Aí precisa ir para o Rio. O que pode levar até um ano”, complementa.
O delegado também foi enfático ao destacar que só policiamento não pode solucionar a questão da segurança pública como um todo.
“Não é só Polícia. Enquanto tivermos essa visão, não vamos avançar da forma adequada. É necessário um trabalho muito mais amplo, envolvendo educação, cultura e um olhar para o social. Hoje, há uma glamourização da criminalidade. Até mesmo através de músicas. Eu, por exemplo, gosto de ouvir funk. Mas, não os que fazem apologia a crimes, armas e drogas. Precisamos de um novo pacto social, educacional e cultural. Só reduzir a criminalidade, não basta só a Polícia. Mas, por outro lado, a população pode ficar ciente de que estamos trabalhando muito aqui na delegacia”, concluiu.

Clamor por justiça|Familiares de Bernardo fizeram uma manifestação pedindo solução do caso
Exemplo vizinho para Campos
Quando se olha para o lado, Campos tem um bom exemplo no município de Macaé. Dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ) apontam para uma evolução dos indicadores no município, a partir dos números de 2025. Por exemplo, no indicador de letalidade violenta (homicídios), a cidade registrou queda ao comparar o valor inicial de 147 ocorrências, em 2018, com o total de 23 casos em 2025. A redução absoluta foi de 124 registros, o que representa uma diminuição de 84,4%. No caso do roubo de rua, a queda também foi expressiva. O indicador passou de 1.306 ocorrências em 2016 para 79 em 2025, com redução absoluta de 1.227 casos e percentual de 94%.
Mestre em Desenvolvimento Regional, Ambiente e Políticas Públicas, a cientista social Alexia Ruas destaca o avanço tecnológico e a integração das forças de segurança como pontos importantes para esse cenário positivo e afirma que trocas entre os municípios podem ser um caminho interessante.

Alexia Ruas“Acredito que a criminalidade só pode ter sua redução de forma eficaz quando um conjunto de políticas públicas são adotadas. Para isso, os investimentos para as polícias devem ser, em maior parte, no serviço de inteligência e na construção de integração entre todos os setores de segurança pública. Junto a isso, as políticas de bem estar social são fundamentais. No geral, eu acredito que uma política pública se constrói com pesquisas, com referências, com avaliações das políticas adotadas e, por fim, com diálogo e participação da própria população”, diz. E acrescenta:“Macaé está investindo bastante na tecnologia da polícia e na integração policial. Esses são fatores muito importantes. O que falta para o nosso município se desenvolver é a dissipação da mentalidade que ainda assola nossos políticos, de que Campos pertence a uma elite, como nos tempos de engenho. Além disso, nós vimos recentemente políticos do nosso município em meio a suspeitas de envolvimento com o tráfico. Essa prática também impede avanços significativos de desenvolvimento na segurança pública. Por isso que a integração policial e a autonomia são importantíssimas. Um diálogo entre os dois municípios é interessante. Campos e Macaé têm semelhanças. Ambas são abastecidas pelos royalties e são municípios com bastante capital financeiro. Também são cidades do interior do Rio, o que as tornam, por si só, particulares”, pontua.População aponta para abandono do poder públicoNascida e criada no Parque São Mateus, e amiga da família do menino Bernardo, Fabiana Nascimento esteve à frente de protestos durante a semana, cobrando por uma realidade melhor no bairro.“O Parque São Mateus está esquecido. Não temos mais posto de saúde aqui. A UBS Novo Mundo está lá abandonada, toda quebrada. Escola, só em outros bairros. Só temos a creche. Precisamos de uma área de lazer. Quando a tragédia aconteceu, estávamos brincando na rua. Somos uma comunidade unida. Fazemos festa entre a gente, para as nossas crianças terem algum entretenimento. Precisamos que olhem para nós não só quando acontecem tiros aqui”, completa.Cientista social, Alexia Ruas teve a sua criação no Parque São Mateus. Ela chama atenção para o fato de o bairro não ter histórico de violência. “O São Mateus não era marcado por esse tipo de violência armada. É um bairro periférico, com todos os problemas históricos de acesso a políticas públicas, mas onde as crianças brincavam na rua, as pessoas ficavam nas calçadas, os vizinhos se conheciam. Quando um carro entra em plena luz do dia, pessoas saem atirando e uma criança é morta, não é somente aquele crime que modifica o território. O medo passa a fazer parte da nossa rotina”, comenta.A socióloga Luciane Silva chama atenção para a forma como o tema é tratado e cobra mais atenção do poder público com uma pauta tão relevante. “Para mim, é básico que se precisa de educação, saúde e cultura, além da segurança. Essa é, inclusive, uma discussão que deve aparecer não só em momentos de aumento da criminalidade”, comenta.Posicionamento da PrefeituraA Prefeitura de Campos respondeu, atraés de algumas secretarias, sobre as questões cobradas pela população na reportagem, que se referem à gestão municipal.Em relação à UBS Novo Mundo, a Prefeitura declaroiu que, diante dos atrasos nos repasses referentes ao cofinanciamento estadual da Saúde nos últimos anos, foi necessário interromper temporariamente a obra. O município afirmou que aguarda a regularização dos recursos para que possa dar continuidade aos serviços.A Secretaria de Saúde informou que ainda não há previsão para obras de reforma estrutural na unidade mencionada. A pasta enfatizou que as unidades de referência para a população do bairro Novo Mundo são a UBSF Eldorado e a UBSF Félix Miranda – localizada no Parque Guarus.Sobre a questão de escolas para o bairro, a Secretaria de Obras pontuou que a região foi contemplada recentemente com a nova sede da Escola Municipal Professor Fernando de Andrade, no Parque Guarus. “A unidade foi inaugurada em março deste ano, tem capacidade para aproximadamente 600 alunos e atende estudantes de bairros como Parque São Mateus, Parque Lebret e Parque São José. A escola conta com 11 salas de aula, brinquedoteca, laboratórios, sala de leitura, auditório, parque infantil e quadra coberta, entre outros espaços”, pontuou a nota.A Secretaria de Educação disse que as crianças e adolescentes do bairro em questão são atendidas pelas seguintes unidades: Creche Escola São Mateus, Creche Escola Félix Miranda, Creche Escola Parque Guarus, Escola Municipal Fernando de Andrade e Ciep Wilson Batista. “Não há demanda reprimida para essa região”, destacou a pasta.Na área de lazer, a Prefeitura afirmou vem trabalhando na revitalização de uma das praças do Parque Lebret, com o intuito de contribuir para ampliar os espaços de convivência e lazer disponíveis para os moradores da região.
Batalhão de Guarus funcionaria no CIEP Pedro Álvarez Cabral, na Terra Prometida, mas após 166 dias obras sequer começaram
Batalhão de Guarus, a promessa que não sai do papel
Uma enorme expectativa foi criada no dia 4 de março, quando o então governador Cláudio Castro prometeu que em 90 dias seria entregue o Batalhão de Polícia Militar de Guarus (46°BPM). Ele funcionaria onde fica o CIEP Pedro Álvarez Cabral, na Terra Prometida. O equipamento está desativado e o espaço foi cedido pelo município. Mais de 160 dias se passaram e a obra sequer começou. Tendo como base o prazo de entrega anunciado, já são 76 dias de atraso, sem nenhuma perspectiva de início das obras. Questionado pelo J3, o Governo do Estado não se posicionou.

PM posicionou viatura permanente em local onde ataque a tiros ocorreu
O que diz o Estado
A reportagem cobriu do Governo do Estado, tanto uma resposta sobre o Batalhão de Guarus, quanto sobre a situação da segurança pública na região. Não houve resposta sobre o 46º BPM. Em nota, a Polícia Civil enfatizou que, por meio da 146ª DP (Guarus), atua de forma permanente na região, com investigações qualificadas, ações de inteligência e operações voltadas à identificação e prisão de lideranças criminosas, além do cumprimento de mandados para atacar diretamente as estruturas responsáveis pela violência.
“O combate ao crime organizado permanece como prioridade. Para desarticular esses grupos armados e proteger a população, a instituição investe continuamente em inteligência, tecnologia, capacitação, equipamentos e planejamento operacional, ampliando a segurança de seus agentes e a efetividade das ações. Vale ressaltar que a Polícia Civil atua também em conjunto com a Polícia Militar, responsável pelo policiamento ostensivo, para reprimir as práticas delituosas”, disse a nota.
J3News