Uso de ansiolíticos e antidepressivos está cada vez mais presente na rotina, inclusive das crianças
POR GABRIELA LESSA
Quadros como depressão, ansiedade e estresse são diagnosticados em todas as faixas etárias. Segundo o médico psiquiatra Cláudio Teixeira, casos de transtorno mental estão começando cada vez mais cedo e, nas últimas décadas, vem se verificando um considerável aumento na população mais jovem. O uso de ansiolíticos (sedativos) e antidepressivos faz parte da rotina de muitas crianças, adolescentes, adultos e idosos, que foram diagnosticados com algum tipo de transtorno mental.
A estudante de jornalismo Amanda Monteiro, tem 27 anos e conta que começou a se automedicar ainda na infância, escondido da família. “Quando era criança aconteceram muitas coisas em minha vida, como a separação dos meus pais, que eu carrego comigo até hoje. Entre os meus 10/12 anos, descobri que um remédio (clonazepam) que a minha mãe tomava poderia me fazer dormir, me fazer ‘flutuar’ e esquecer de tudo. Sempre fui de observar muito as coisas e guardar pra mim. Isso me fazia mal e me causava angústia. Foi quando comecei a tomar o remédio da minha mãe escondido”, conta.
Um idoso, de 62 anos, que preferiu não se identificar, diz que teve acesso aos ansiolíticos já na fase adulta, ao observar exemplos de pessoas próximas que faziam uso. “É um remédio que te acalma, te ajuda a dormir. Chega uma idade em que passamos a ter insônia. Infelizmente, esse é um medicamento que cria dependência e depois você não consegue mais viver sem”, diz.

Já a pequena Isabela Barreto, de 6 anos, foi diagnosticada com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), segundo a sua mãe, Camila Barreto. “Tudo começou em 2018, com a enurese noturna (xixi na cama), que acontecia todos os dias. Fizemos vários exames e tudo constava normal. Isso começou a deixá-la com baixa autoestima, chorava dia e noite e passou a ter vergonha de tudo. Dizia que ninguém a amava, não queria brincar com outras crianças e eu comecei a ver, nitidamente, que minha filha estava com depressão”.
São diferentes realidades, necessidades e histórias. No entanto, segundo o psicólogo Luis Cosmelli, o contexto em que a pessoa está inserida pode estar associado ao transtorno vivido. “Seja familiar, pelo nível socioeconômico, faixa etária, se está trabalhando, se está se sentindo amparado nas suas necessidades básicas, quais são seus sonhos e projetos de vida, as suas relações afetivas e a sua capacidade de resiliência, de resistir às crises internas e externas, diante de uma sociedade em crise. É o desequilíbrio nesse contexto que produz ou agrava os transtornos mentais”, analisa.
O médico psiquiatra Cláudio Teixeira explica que as últimas décadas têm sido marcadas por relevantes mudanças, deixando todos os campos existenciais mais frágeis: “Somos treinados desde a infância a viver com pressa. O mundo, como somos induzidos a acreditar, tornou-se um contêiner sem fundo de coisas a serem consumidas e aproveitadas. O viver, na nossa atual condição sociocultural, é marcado por uma infinita possibilidade de escolhas e pela falta de solidez e durabilidade”.
Realidade de quem enfrenta esses transtornos

Para a Amanda Monteiro, os anos seguintes ao início da automedicação se tornaram mais difíceis, pois ela percebeu que a alegria da rotina era momentânea e o remédio era apenas um paliativo. Aos 19 anos, ela desencadeou uma depressão, resultado de um acúmulo de acontecimentos em sua vida, inclusive a tentativa de suicídio. Foi quando iniciou o tratamento com um psiquiatra, que durou pouco tempo.
“Nesse período, passei cinco meses só querendo o meu quarto, a minha cama e o meu pijama, pois era o que me acalentava. Só queria ficar no escuro e tomar o meu remédio. Hoje, com 27 anos, tenho a sensação de que a minha depressão nunca passou e retornei o tratamento com o psiquiatra. Já tive muitos episódios de crise. Os momentos felizes me trazem medo, porque eu sei que um dia estarei feliz, mas no outro estarei mal. Atualmente tomo cinco remédios controlados, que têm me ajudado bastante e tento seguir a minha vida normal. Eu procuro sorrir e estar perto de pessoas que me fazem bem, para tentar esquecer como eu sou de verdade, porque, aqui dentro, eu sou triste. Mas eu me esforço para estar bem”, desabafa.
A mãe da Isabela Barreto conta que a filha teve melhora na enurese com a terapia, mas desencadeou outros comportamentos. “Ela começou a ter problemas com obediência, impulsividade e agressividade. Foi necessário também avaliação com neuropsiquiatra, que confirmou o diagnóstico de TAG e receitou uma medicação para controle de ansiedade. Minha filha também foi diagnosticada com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), mas não usa medicação para tal. Hoje, vejo como o tratamento a faz bem, pois ela recuperou a autoestima. Ela é outra criança”, relata.
Já a Gerlany Lyrio, de 46 anos, explica que, aos 39 anos, o ansiolítico se tornou necessário em sua rotina, até para ir à rua, pois foi diagnosticada com pânico. Ela acredita que as perdas de pessoas queridas desencadearam a doença. “Para fazer qualquer coisa fora de casa, seja para ir à consulta, para fazer a unha ou ir à farmácia, eu tinha que tomar rivotril. Eu passava muito mal, mas lutava. Eu não tinha pensamentos com desejo de morrer, o que eu tinha era a sensação de que eu estava morrendo e passava muito mal. Após o tratamento com psiquiatra e acompanhamento com psicólogo, me senti muito melhor”, conta.
Aumento de casos durante a pandemia

De acordo com o psiquiatra Cláudio Teixeira, grande parte dos principais fatores predisponentes ou desencadeantes está relacionada às relevantes mudanças observadas recentemente na sociedade. “A mudança brusca de rotina que a pandemia causou na vida e no trabalho das pessoas trouxe impactos também para a saúde mental. Estudo recente realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e publicado em uma das mais importantes revistas médicas do mundo, demonstrou que quase que dobrou os casos de depressão e de sintomas como crise de ansiedade e estresse agudo, entre os meses de março e abril de 2020. A pandemia de Covid-19 tem se mostrado um evento traumático para muitas pessoas, levando ao aumento exponencial de sentimento de medo e estresse”, explica.
O idoso, de 62 anos, conta que a pandemia intensificou o uso e dependência do ansiolítico. “Antes da pandemia eu só tomava um comprimido e passei a tomar dois. Isso devido à solidão, ao estresse”, compartilha.
Uma pesquisa global liderada pela Universidade Estadual de Ohio (EUA) aponta que o Brasil é líder em índices de ansiedade e depressão na pandemia, quando comparado a outras 10 nações. O estudo entrevistou 13 mil pessoas de países que lidaram de formas diferentes com a crise sanitária, como o Brasil, Bulgária, China, Singapura, Espanha, Estados Unidos, Índia, Irlanda, Macedônia, Malásia e Turquia.
Segundo o levantamento, países que não tiveram uma ação concreta ou centralizada de combate à pandemia, como o Brasil, apresentaram números mais preocupantes. Dos 1.500 brasileiros, maiores de 18 anos, que participaram do estudo, 63% apresentaram relatos de ansiedade e 59% sintomas de depressão. De acordo com pesquisadores, uma das principais causas que levaram a esses quadros foi a privação das atividades de lazer fora do ambiente doméstico, como exercício físico ou encontros com amigos e familiares.
O que fazer durante momento de crise
O psicólogo Luis Cosmelli orienta a procurar ajuda multiprofissional se a pessoa não estiver dando conta de si e não se automedicar, não ficar só. “As doenças se transformam em ‘muletas’ para o não enfrentamento de questões crônicas. E, respeitando todas as diferenças de acesso aos sistemas de saúde, eu evocaria algumas conquistas humanas civilizatórias que têm conseguido ajudar a humanidade a enfrentar esses momentos críticos e transitórios: desligue um pouco o telefone e o acesso às redes sociais e procure os amigos reais, reúna a família e festejem o fato de estarem vivos”, finaliza.
Ansiolíticos x antidepressivos x transtornos mentais
Ansiolíticos e antidepressivos atuam em locais e de maneiras distintas no organismo.
• Os medicamentos da classe dos ansiolíticos, de forma geral, possuem efeito sedativo e/ou hipnótico (induzindo ao sono), mas não tratam os transtornos mentais em si.
• Os antidepressivos atuam na falha da produção de alguns neurotransmissores cerebrais (principalmente serotonina e noroadrenalina) com objetivo de se alcançar a remissão dos sintomas apresentados pelos pacientes com depressão.
• A ansiedade é um distúrbio psiquiátrico, em que há excesso de apreensão e expectativa de alguém em relação a diversos acontecimentos.
• A depressão é uma doença da mente e do corpo, que se caracteriza por afetar o estado de humor da pessoa, deixando-a com um predomínio anormal de tristeza e diminuição de sua energia.
• O pânico é um conjunto de manifestações de ansiedade com início súbito, rico em sintomas físicos e com duração limitada no tempo, com sensação de sufocação, de morte iminente, taquicardia, tonturas, sudorese, tremores, sensação de perda do controle ou de “ficar louco”.
• O estresse é uma reação natural do organismo, que ocorre quando são vivenciadas situações de perigo ou ameaça. Esse mecanismo coloca o indivíduo em estado de alerta ou alarme, provocando alterações físicas e emocionais.







