Desde maio, a falta de chuva compromete grande parte da safra 2022/2023 em Campos
Coagro/Sapucaia (Foto: Agência Berenger/Ilustração)
A safra de cana 2022-2023, que começou com perspectiva de produção recorde de açúcar e etanol, já preocupa as usinas e produtores rurais do Norte Fluminense. O motivo é a estiagem, que já compromete não apenas a produção deste ano, mas também gera incertezas para a safra do ano que vem. O quadro atual preocupa. A última chuva veio em maio, e em pequena quantidade. Já são três meses de terra seca.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o acumulado de chuva em Campos entre janeiro e julho deste ano foi de 342 milímetros – 165,7 milímetros a menos do que a média histórica. O índice é menor até que o registrado na última grande seca que a região sofreu, em 2014, quando o índice pluviométrico entre janeiro e julho foi de 445 milímetros.
Plantação da Usina Nova Canabrava (Divulgação)
O engenheiro agrônomo da Usina Nova Canabrava, João Pedro Oliveira Gonçalves observa que a falta de chuva nos meses é mais impactante nos meses de março e abril. É o período em que a cana se desenvolve para a colheita. Quando o tempo não ajuda, a cana não se desenvolve da forma que deveria”, comenta.
João Pedro considera que a expectativa da safra este ano não é das melhores. “Nos últimos 30 anos a normal climatológica, a média histórica de chuvas no período é de cerca de 950 milímetros anuais. Só que as chuvas não só volume. Elas precisam ser bem distribuídas. O período chuvoso em Campos e região compreende de outubro a abril. Normalmente temos um veranico em fevereiro. Tivemos um bom volume de chuvas até o segundo mês. Depois disto, estão bem abaixo da média. Isto é insuficiente para a agricultura de modo geral. A cana tem duas fases de vegetação e maturação. Tivemos redução da moagem devido à seca. O impacto já é sentido pela empresa e seus fornecedores”, explica o engenheiro agrônomo
Asflucan
Tito Inojosa preside a Asflucan
Tito Inojosa é presidente da Associação Fluminense dos Plantadores de Cana (Asflucan). Ele vê com apreensão os meses de estiagem em Campos dos Goytacazes. “A cana plantada em março não nasceu, está toda falhada. Quem plantou em fevereiro, março, perdeu tudo. A cana está morrendo em pé, sem ser cortada. Já tivemos, este ano, uma quebra de safra de 30 a 40%. Mas isso ameaça, também, a produção do ano quem, que ninguém sabe como vai ficar. Os produtores vão plantar o máximo que puderem entre setembro ou outubro para tentar salvar a safra do ano que vem, mas é uma cana que não dá tanto lucro”, diz.
Fertirrigação
Procedimento de irrigação na Nova Canabrava
Uma das soluções encontradas pela Nova Canabrava para amenizar o problema foi a fertirrigação: os 7,5 milhões de litros de vinhaça que sobram diariamente do processo de produção de etanol são bombeados, por meio de uma tubulação própria, às lavouras num raio de até 4,5 km da usina.
Além de manter o solo hidratado, a vinhaça é rica em nutrientes, que ajudam a produtor a diminuir o custo com adubação e correção do solo.
Lei do Semiárido
Uma das esperanças do setor é a aprovação do Projeto de Lei 1.440, que classifica como semiárido o clima dos municípios do Norte e Noroeste Fluminense. Ele prevê a criação de um fundo que poderá beneficiar os produtores de cana, garantindo subsídios para a irrigação – que hoje é inviável financeiramente para os pequenos proprietários de terra. O projeto já foi aprovado na Câmara dos Deputados, mas ainda precisa passar pelo Senado e ir à sanção do presidente da República.
Fredrico Paes (Foto: Carlos Grevi/Arquivo)
O vice-prefeito e presidente da Coagro, Frederico Paes, comentou sobre as questões climáticas em Campos e região. “O clima no Norte Fluminense é bastante complexo. Tivemos recentemente essa classificação para o semiárido. Às vezes temos muita chuva, como tivemos no ano passado, e agora um período terrível de três meses de seca. Se as canas não brotam, é preciso replantar. Isto é muito caro e nem sempre o produtor está preparado para um replantio. Com o reconhecimento de clima semiárido, como já ocorre em algumas regiões de Minas Gerais e Espírito Santo, podemos obter suporte e incentivos, com financiamentos mais baratos para os produtores”, conclui.
Terceira Via/Show Francisco