Incêndios naturais, queimadas criminosas e perda da produção agrícola são alguns dos efeitos do tempo seco e dos ventos fortes
Por Ocinei Trindade
Fogo | Representante do Corpo de Bombeiros informou que tem ocorrido vários focos de incêndio em vegetação
O tempo seco, a falta de chuva e os ventos fortes favorecem a ocorrência de queimadas em diferentes municípios do Norte Fluminense. Incêndios tanto naturais, como o ocorrido em um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na região serrana de Macaé, na última quinta-feira, quanto criminosos, a exemplo dos registrados pela Polícia Civil este mês em São Francisco de Itabapoana, deixam em alerta gestores públicos, ambientalistas e o Corpo de Bombeiros. A estiagem também ameaça a produção de cana-de-açúcar em Campos.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o acumulado de chuva em Campos entre janeiro e julho deste ano foi de 342 milímetros – 165,7 milímetros a menos do que a média histórica. O índice é menor até que o registrado na última grande seca que a região sofreu, em 2014, quando o índice pluviométrico entre janeiro e julho foi de 445 milímetros.
Fogo às margens da RJ-158
Na semana passada, em Campos, o Terceira Via noticiou um flagrante de queimada na localidade Santa Cruz, às margens da RJ-158. Já em São Francisco de Itabapoana, vários focos de incêndio foram identificados e combatidos ao longo da última semana, segundo a secretaria municipal de Meio Ambiente. Duas pessoas foram detidas e levadas para a delegacia de polícia.
A ação criminosa mais recente aconteceu na localidade de Gargaú. As chamas se aproximaram de duas residências. No dia 10, um morador de Pingo D’Água e outro de Praça João Pessoa foram conduzidos à 147ª Delegacia de Polícia Civil e autuados no artigo 60 da lei 9605/1998, que dispõe sobre crimes ambientais. Eles colocaram fogo em um canavial, na área central do município. As chamas quase atingiram a fiação elétrica e um poste. A fumaça chegou à rodovia RJ-232 e prejudicou a visibilidade dos motoristas. No dia 9, atearam fogo em vegetação à margem da rodovia estadual RJ-196, entre Santa Clara e Gargaú. Ninguém foi preso.
Em Macaé, no último dia 18, um foco de incêndio natural se propagou rapidamente pelo Assentamento PDS Osvaldo de Oliveira. Segundo o MST, o fogo foi provocado pelas altas temperaturas e a seca e se espalhou devido aos fortes ventos, destruindo a produção e moradias.
Ambientalista Aristides Soffiati
Vegetação nativa destruída
O agricultor familiar e presidente da Associação Quilombola de Conceição do Imbé, em Campos, Edson Rocha, tem se preocupado com a estiagem e o risco de queimadas. “Estamos aos pés do Parque Estadual do Desengano. Algumas pessoas estão tendo que recorrer aos córregos para lavar roupas porque os poços estão com pouca água e não dão conta de encher as caixas d’água. Com poucas chuvas, rios como o Mocotó e Urubu, também perdem a força para encher a Lagoa de Cima que também está mais seca”, comenta.
Segundo o professor e ambientalista Aristides Soffiati, a maior parte da floresta nativa foi derrubada em Campos e região, o que propicia a ocorrência de incêndios. “O ambiente sem umidade é desfavorável e colabora com a incidência de queimadas espontâneas, mas também criminosas. Isto em relação à vegetação plantada e à vegetação nativa. Tudo indica que há muitos incêndios criminosos em Campos”, diz Soffiati.
O município de Campos tem apenas 8% de cobertura de florestas, segundo dados do Serviço Florestal Brasileiro, de 2019. O geógrafo e professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense, Marcos Pedlowski, diz que a situação no município é particularmente precária, grande parte graças à implantação da monocultura da cana-de-açúcar. “Aqui existem fragmentos do bioma da Mata Atlântica espalhados no território cercados por pastagens e pela monocultura da cana. Com isso, esses fragmentos tendem a se tornar inviáveis no tempo, pois ficam cercados por estes outros tipos de cobertura da terra; e muitas vezes sob pressão das queimadas utilizadas na limpeza dos campos de cana, como é o caso dos incêndios recorrentes no Parque Estadual de Guaxindiba, em São Francisco do Itabapoana”, cita o pesquisador.
“Diariamente, sem exceção, registramos pelo menos uma queimada no município. Às vezes duas e até três. Quando a nossa equipe chega ao local da ocorrência, ninguém sabe informar nada sobre a autoria e a gente acaba não encontrando o responsável”, diz a secretária de SFI, Luciana Soffiati.
Mudanças climáticas
Um representante do Corpo de Bombeiros de Campos informou que tem ocorrido vários focos de incêndio em vegetação. Segundo GBM, o período de seca favorece a ocorrência. “No entanto, a maioria das saídas têm sido originadas por fogo provocado por pessoas, ateando fogo em lixo nos quintais ou nas margens das estradas”, afirma.
Aristides Soffiati considera que é preciso, primeiramente, atentar para a questão planetária. “As mudanças climáticas aquecem e secam o planeta Terra. O desmatamento precisa ser considerado, além de barragens de rios, uso excessivo de águas nas cidades e nas agriculturas no Brasil e no mundo. Tenho a impressão de consumo excessivo. Está tudo muito seco na região. Estive em São Fidélis recentemente e fiquei impressionado com as queimadas. O mesmo ocorre no Noroeste Fluminense”, diz.
O ambientalista analisa ainda a situação da Europa, com diversos países sofrendo com calor intenso e queimadas. “São muitos incêndios por lá. A China, um dos países mais industrializados do mundo, também contribui com queimadas. Arrisco dizer que este problema climático não tem interessado tanto aos políticos e empresários. Não sei se temos como reverter essa situação em tão pouco tempo”, conclui.
Tito Inojosa – Presidente da Asflucan
Seca também preocupa setor produtivo
A estiagem também já compromete a safra da cana-de-açúcar deste ano e gera incertezas para 2023. A última chuva veio em maio, e em pequena quantidade. Já são três meses de terra seca. O engenheiro agrônomo da Usina Nova Canabrava, João Pedro Oliveira Gonçalves observa que a falta de chuva nos meses é mais impactante nos meses de março e abril.
“É o período em que a cana se desenvolve para a colheita. Quando o tempo não ajuda, a cana não se desenvolve da forma que deveria”, comenta.
Tito Inojosa é presidente da Associação Fluminense dos Plantadores de Cana (Asflucan). Ele vê com apreensão os meses de estiagem em Campos. “A cana plantada em março não nasceu, está toda falhada. Quem plantou em fevereiro, março, perdeu tudo. A cana está morrendo em pé, sem ser cortada. Já tivemos, este ano, uma quebra de safra de 30 a 40%”, diz.
A situação ameaça a safra do ano que vem, diz Tito. “Ninguém sabe como vai ficar. Os produtores vão plantar o máximo que puderem entre setembro ou outubro para tentar salvar a safra do ano que vem, mas é uma cana que não dá tanto lucro”, encerra.
Fonte:Terceira Via