MÁRIO SÉRGIO JUNIOR 
Homem preso em Campos / Divulgação-Polícia Civil
A violência contra a mulher em Campos tem feito cada vez mais vítimas e os casos mais recentes reacendem o alerta em relação à situação de vulnerabilidade que muitas delas vivem. Somente nesta semana, a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) informou a investigação sobre duas tentativas de feminicídio: uma mulher que teve 70% do corpo queimado e uma gestante que foi alvo de tiros. Nos dois casos, os namorados das vítimas foram presos. Outro episódio recente que chocou a cidade foi o assassinato da gestante Letycia Peixoto Fonseca, cuja primeira audiência está marcada para 18 de maio.
Na quarta-feira (3), uma mulher deu entrada no Hospital Ferreira Machado com 70% do corpo queimado e segue em estado grave no Centro de Terapia Intensiva (CTI). Suspeito de ter ateado fogo na vítima, o companheiro dela foi preso na tarde dessa sexta-feira (5).
De acordo com a titular da Deam, Madeleine Dykeman, o mandado de prisão foi expedido com base nos depoimentos da irmã e da filha de 6 anos da vítima. A irmã contou, segundo a delegada, que o casal tinha diversas discussões e que o namorado da vítima demonstrava ser muito ciumento e violento, mas que nunca tinha, de fato, agredido a namorada. Ela também relatou que ouviu o grito da vítima, já que mora no mesmo quintal, e se deparou com o namorado com fogo no corpo. Em seguida, encontrou a irmã já queimada e com um cobertor sobre ela. Madeleine informou, ainda, que a filha da vítima contou que a mãe e o namorado discutiram e, em seguida, ele pegou o álcool e uma folha de papel e ateou fogo na mãe dela.
Antes de ser preso, o suspeito publicou nas redes sociais um vídeo em que diz que, na verdade, a namorada ateou fogo nele e que a criança estava na casa, mas não presenciou a discussão e o início das chamas. A delegada, entretanto, afirma que a versão do homem é mentirosa.
— A menina diz que a mãe passou uma faca no pescoço dele durante uma discussão. Ele foi ao banheiro, viu que não estava cortado e depois foi até o armário do quarto para pegar o álcool. Em seguida, foi até o baú da vítima para pegar um pedaço de papel. A criança tem a mãe o tempo todo em seu campo de visão e só vê, no momento do fogo, a mãe chegando para trás e depois em chamas. Ela diz que ouviu o barulho da chama elétrica do fogão sendo ligada e que eles não se atracaram, como o suspeito relata, que ela foi para cima dele e o agarrou. Ele tem algumas lesões graves, mas as lesões da vítima são infinitamente mais graves, concentradas no rosto e no tórax, ou seja, dando a entender que alguém jogou o álcool na direção dela, como disse a filha. As marcas no corpo dele estão na região lateral. Segundo a dinâmica, entendemos que na hora em que ele joga o álcool nela, provavelmente ela tenta empurrar o líquido, que escorre nele. As declarações dele são sem embasamento — afirmou Madeleine, destacando que o homem diz ser inocente. Ela informou, ainda, que ele se recusou a fazer a reprodução simulada dos fatos.
Outro caso — Também na quarta-feira, um homem foi preso em Campos por suspeita de tentativa de feminicídio contra uma mulher com quem teria um relacionamento e está grávida de 8 meses de um filho que seria seu. O crime aconteceu no dia 27 de abril, em Guarus.
Sobre esse crime, a titular da Deam informou que o suspeito ainda teria coagido a vítima para que ela fosse à delegacia a fim de desmentir o fato. Ele foi autuado por tentativa de feminicídio qualificado e pela tentativa de homicídio qualificado praticado contra a cunhada, além de responder por coação no curso do processo.
No dia do crime, a grávida, junto com uma prima, foi à casa do suspeito questionar uma “fofoca”, sobre uma foto em que o homem aparece com outra mulher. “Elas foram tirar satisfação com ele. A mãe e a irmã da vítima também foram à casa dele com medo de que algo grave acontecesse. O casal discutiu e a vítima o chamou de mentiroso. Neste momento, ele sacou uma arma e efetuou o primeiro disparo, que falhou. O segundo disparo foi em direção ao pé da vítima, que deixou lesões de estilhaços na perna dela. O terceiro, segundo foi informado pela vítima e pela testemunha, foi feito no momento em que o primo dele chega ao local e o segura. Esse disparo não atingiu ninguém. Quando a então cunhada também se refere a ele, ele se vira e faz outro disparo, que não a atinge”, diz Madeleine.
No momento da prisão, o homem apresentou aos policiais uma arma de airsoft. “No inquérito policial, ele quis fazer crer que não efetuou os disparos e que a arma de airsoft tinha sido usada para ameaçar as vítimas, todavia, conseguimos áudios no celular do suspeito em que ele afirma que ia realmente matar, se o primo dele não tivesse segurado ele por trás”, conta a delegada.
Audiência do caso Letycia será no dia 18
A primeira audiência de instrução e julgamento do assassinato da gestante Letyia Peixoto Fonseca está marcado para o dia 18 de maio, às 13h, no Fórum Maria Tereza Gusmão, em Campos. Letycia foi morta no dia 02 de março, grávida de 7 meses. Principal suspeito de ser o mandante do crime é o professor e empresário Diogo Viola de Nadai, de 39 anos, que mantinha um relacionamento com a vítima. Outros três suspeitos de envolvimento no crime também estão presos.
A pressão da vida dupla mantida há oito anos por Diogo com a esposa e com Letycia foi considerada pela 1ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal de Campos como possível motivação do assassinato da gestante e do seu filho, Hugo, encomendado por R$ 5 mil. O bebê chegou a nascer em um parto de emergência, mas não resistiu.
No dia do crime, Letycia estava no carro da empresa em que trabalhava conversando com sua mãe, que estava do lado de fora, quando as duas foram surpreendidas por dois homens em uma moto. A mãe da vítima também foi baleada.
Mais de 2 mil casos de violência em 2021
Dados do último Dossiê Mulher, divulgado pelo Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ), mostram que em Campos 2.052 mulheres foram vítimas de algum tipo de violência, seja ela física, moral, patrimonial, psicológica ou sexual. Os dados têm como base o ano de 2021.
Desse total, 718 foram vítimas de violência psicológica, sendo 650 por meio de ameaça. Já em relação à violência física, o número de vítimas chegou a 640, tendo a maioria dos casos sido registrada como lesão corporal.
Os dados apontam que, na maioria dos casos, a violência acontece dentro de casa por companheiro ou ex. Nos 2.052 episódios violentos registrados em 2021, em Campos, a lei Maria da Penha foi aplicada em 62,9% dos casos.
O Dossiê mostra ainda que, em todo o estado do RJ, as mulheres adultas (que equivale às faixas de 18 a 29 anos e 30 a 59 anos) foram as principais vítimas ao longo de toda a série histórica, iniciada em 2014. Em 2021, estas somaram quase 90,0% das vítimas de violência psicológica (89,0%), patrimonial (88,3%), física (88,0%) e moral (87,2%).
Fonte:Fmanhã