segunda-feira, 17 de março de 2014

Crise atinge o setor canavieiro



Desde 2008, o setor sucroalcooleiro brasileiro passa por uma grave crise provocada por problemas climáticos, tributos elevados e baixos investimentos em novas unidades de produção. Na região, o cenário gera preocupação. Em São Paulo, maior produtor de açúcar e álcool do país, desde janeiro, seis usinas já pediram recuperação judicial. O número é igual a todos os pedidos registrados nos últimos dois anos, somados.

Além dos preços baixos do álcool, a queda no preço do açúcar faz com que dois terços dos grupos do setor operem no vermelho. A safra de cana 2014/2015 do Brasil, prestes a começar, deve recuar 1% ante a temporada atual, para 590 milhões de toneladas, e produzir 33 milhões de toneladas de açúcar. O mesmo deve acontecer aqui na região. De acordo com produtores de cana, a safra, devido aos problemas climáticos, deverá ter uma queda de no mínimo 15%. Isso, se chover até o início da colheita. Se não chover, a perda pode ser mais acentuada.

Em Campos, somente três usinas estão prontas para moer — Usina Canabrava, Usina Paraíso e a Cooperativa Agroindustrial do Estado do Rio de Janeiro (Coagro) — mas, as expectativas não são boas. Os usineiros temem prejuízo devido a crise do setor e também à forte estiagem que atinge a região e que vem prejudicando o desenvolvimento da cana.

— A categoria passa por inúmeras dificuldades, tanto para produzir a cana, quanto para vender o açúcar produzido. Os pequenos produtores do Nordeste receberam do governo federal o subsídio e no Estado do Rio foi negado. A seca também contribui para os prejuízos, pois nunca tivemos registro de uma estiagem tamanha, e isso é uma equação para a queda da safra. Se tivermos 15% de queda da safra, eu já me dou por satisfeito — informou o presidente da Coagro, Frederico Paes.

Pressionada pela política de combustíveis do governo — que segura o preço da gasolina e, portanto, impede o aumento do álcool — a indústria brasileira de açúcar e etanol começou o ano em crise. Desde janeiro, seis usinas já pediram recuperação judicial. O número é igual a todos os pedidos registrados nos últimos dois anos, somados.

Também supera o número total de pedidos registrados individualmente em cada um dos últimos três anos, segundo levantamento da consultoria MBF Agribusiness. Além dos preços baixos do álcool, a queda no preço do açúcar faz com que dois terços dos grupos do setor operem no vermelho. Os usineiros reclamam a falta de estímulos do governo para o setor.
De 64 grupos analisados no fim de 2013 pelo diretor do Itaú BBA Alexandre Figliolino, 39 (61%) operam com deficit e 22 não têm mais condições de recuperação, havendo a necessidade de fusões ou aquisições.

— A crise no setor está disseminada. Os preços estão baixos. É preciso reestruturar as dívidas — disse o advogado Bruno Oliveira, do escritório Dias Carneiro, que atua na recuperação das usinas.

José do Amaral quer subsídio para a cana

De acordo com levantamento, cerca de nove mil produtores fazem parte da Coagro. A grande maioria, pequenos e médios agricultores. Desse número, menos de quatro mil produtores estão na ativa no município e sem perspectivas para renovar suas lavouras.

Segundo informações do presidente do Sindicato Rural de Campos (SRC), José do Amaral, os produtores não estão querendo mais plantar, por causa do preço no mercado e da estiagem na região.

— A situação está muito complicada para nós produtores, que não temos mais recursos para investir na lavoura de cana. Estamos passando por um período de seca muito grande, o chamado veranico, que vem prejudicando a plantação e com certeza teremos queda na produção”, diz o presidente do SRC.

Ele também reclama a falta de incentivos por parte do governo federal. Para José do Amaral, a área econômica do governo Dilma Rousseff virou as costas para o setor.

— Além da situação climática, existe ainda a falta de incentivo do governo federal, que ao invés de nós ajudar, só nos prejudica, retirando o direito de receber o subsídio da cana. Um valor que iria contribuir com o produtor que está em dificuldades para continuar produzindo. A situação é desanimadora e ainda pode agravar mais — lamenta José do Amral.

Canabrava começa a moer no próximo mês

Mesmo com a crise, a Usina Canabrava pretende iniciar a safra de 2014 na primeira semana de maio. A usina pretende moer cerca de 1milhão de toneladas de cana, produzindo 80 mil metros cúbicos de etanol. Segundo a empresa, as chuvas de janeiro e fevereiro foram as piores dos últimos 10 anos. A diretoria está otimista com as chuvas previstas para a segunda quinzena de março.

O diretor Luís Henrique Sanches também critica a falta de uma política para o setor no Estado do Rio. “O Estado do Rio tem o ônus de plantar 500 mil toneladas de cana, o ônus ambiental das queimadas, enquanto o bônus da geração de empregos e impostos ficam no Espírito Santo. Além disso, ainda existe a má vontade do governo federal. Em 2011, tivemos um ano de baixíssimas chuvas, e o subsídio aos pequenos produtores dados aos nordestinos, foi negado aos do nosso Estado”, desabafa o diretor da Canabrava.

Fonte: Folha da Manhã
Fotos: Silésio Corrêa/Jane Ribeiro


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