Que a terra há de comer, Mas não coma já. Ainda se mova, para o ofício e a posse. E veja alguns sítios antigos, outros inéditos. Sinta frio, calor, cansaço: para um momento; continue. Descubra em seu movimento forças não sabidas, contatos. O prazer de estender-se; o de enrolar-se, ficar inerte. Prazer de balanço, prazer de vôo.
Prazer de ouvir música; sobre o papel deixar que a mão deslize. Irredutível prazer dos olhos; certas cores: como se desfazem, como aderem; certos objetos, diferentes a uma luz nova. Que ainda sinta cheiro de fruta, de terra na chuva, que pegue, que imagine e grave, que lembre. O tempo de conhecer mais algumas pessoas, de aprender como vivem, de ajudá-las. De ver passar este conto: o vento balançando a folha; a sombra da árvore, parada um instante alongando-se com o sol, e desfazendo-se numa sombra maior, de estrada sem trânsito. E de olhar esta folha, se cai. Na queda retê-la. Tão seca, tão morna. Tem na certa um cheiro, particular entre mil. Um desenho, que se produzirá ao infinito, e cada folha é uma diferente. E cada instante é diferente, e cada homem é diferente, e somos todos iguais. No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra o silêncio global, mas não seja logo.
De Carlos Drumond de Andrade
As homenagens da equipe do blog



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