segunda-feira, 7 de julho de 2014

Muito além da epidemiologia…

Nem ele imaginava que uma promessa feita a si mesmo, há 14 anos, iria mudar a vida de uma população que estava por vir. Claro, isso aliado à sensibilização política de um governante municipal e a boa vontade de uma equipe que reconheceu a importância da prevenção quando o assunto é saúde. E assim Campos tornou-se hoje exemplo para o país quando se fala em imunização de crianças e adolescentes contra meningite, tuberculose, hepatite B, catapora, HPV, entre outras doenças.

A história começa em 2006. Naquela época, o médico pediatra Charbel Miguel Haddad Kury provocou uma revolução em um hospital filantrópico da cidade, por ver várias crianças morrendo por causa de uma série de doenças, justamente por falta de uma medida preventiva abrangente. Ele jurou para si que iria fazer parte de um governo municipal para mudar o quadro, isso, com apresentação de estudos aos gestores, que poderiam transformar morte em saúde. Os gestores não aprovavam seus sonhos, afirmando que “esse quadro não muda no poder público”, ou que “depende de muito dinheiro”, ou ainda, que “pior do que esta não podia ficar”, entre outras barbáries.

Charbel Kury recentemente passou um quarto lugar em concurso para a Prefeitura de Campos, como médico infectologista pediatra, embora já tivesse sido aprovado em outro concurso anterior como médico pediatra. Na gestão da Prefeita Rosinha Garotinho, teve seus projetos reconhecidos e se tornou, também, cargo de confiança, estando hoje como diretor do setor da Vigilância em Saúde. De lá para cá não parou mais, nem de apresentar projetos nem de estudar, aliás, o seu hobby maior, além da música (Sarah Vaughan, Louis Armstron, misturado a João Gilberto, Adriana Calcanhoto, entre outros) e a gastronomia. Filho de mãe intelectual, desde criança cultiva o hábito da leitura. o que hoje decifra em português, inglês ou francês, mas sempre tendo como livros de cabeceira tudo que diz respeito à infecção, como por exemplo, a internacional revista “The Pediatrie Infectious Diseasa Journal”. Por essas e outras, tem levado o nome de Campos quando o assunto é vacinação para a África do Sul, China, Las Vegas e muito mais, onde realiza palestras e mostra os números locais. E apesar disso tudo, ele tem só pouco mais de 10 anos de formado.
A entrevista

Campos 24 Horas - Primeiro, o que é vigilância em saúde?

Charbel Kury – É uma estrutura dentro da secretaria de Saúde, que possui acima dela coordenações e programas, como Centro de Controle de Zoonozes (CCZ), Departamento de Vigilância Sanitária, Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest), Vigilância Epidemiológica, Programa DST/Aids, Programa de Hanseníase, Programa de Tuberculose e Centro de Atendimento, Pesquisa e Estudo. E a função da vigilância em saúde é avaliar os fatores condicionantes e determinantes de saúde individual e coletiva, propondo, quando necessárias, intervenções. Além disso, detectar de forma precoce as doenças.

Campos 24H– E como se dá a atuação, de fato?
Charbel – Como já disse, através das coordenações e programas, objetivando a qualidade de vida da população. Desta forma, quando vimos um fator etiológico atuando e mudando o perfil do município, começamos a trabalhar, entrando aí os casos de meningite, entre outros. E podemos intervir de três formas: vacinando, educando através de palestras e fazendo medicação com antibióticos, quando necessário.

Campos 24H – Tudo muito bem, tudo muito bom. Mas a meningite está aí assustando a população…

Charbel – Olha, meningite é a inflamação das membranas que envolvem o cérebro. E pode ser causada por três agentes, ou seja, bactérias, fungos e vírus. E através de bactérias os casos são letais, sendo três bactérias piores, a meningococo, pneumococo e hemófilo. E para eles tem vacina em Campos que previne e é tomada por crianças com menos de dois anos. E posso garantir que não existe surto de meningite no município e, sim, o que chamamos de associação temporal ou coincidência.

Campos 24H– Baseado em que o senhor faz essa afirmação?

Charbel – Para ter surto tem que ter, em três meses, número suficiente que contemple isolamento de bactérias (meningococo ou hemófilo) com taxa de 10 casos para cada 100 mil habitantes. E aqui com cerca de 400 mil habitantes, deveríamos ter uma média de 80 casos em cada três meses e não temos. Tivemos este ano, até agora, 28 casos e de todos os tipos, o que não caracteriza surto. No ano passado foram 40 casos e cinco óbitos.

Campos 24H– E qual é a agravante para a meningite em Campos?

Charbel – Posso dizer que não é uma e, sim, quatro agravantes. Primeiro o inverso, segundo o deslocamento epidemiológico de meningite, ou seja, adulto pegando mais a doença, já que a criança com menos de dois anos está sendo vacinada. A terceira o aparecimento de novas bactérias que não tem vacinação, como aconteceu na Austrália, Holanda e Estados Unidos. E a última, o grande fluxo de pessoas na cidade vindas de várias partes do país. É por isso que nas palestras a gente recomenda que a casa onde reside muita gente, esta tem que estar sempre bem arejada, as crianças e também adultos hidratadas como muito líquido, alimentação adequada e o cartão de vacinação em dia.

Campos 24H– Mas existe história que o vírus da meningite está por aí, no ar. É verdade?

Charbel – A transmissão indireta é mito, porque a bactéria não fica no ar. Tem gente que chega a dizer que se uma pessoa morreu de meningite, o caixão não pode nem ficar aberto. Um absurdo. A bactéria fica no corpo vivo, principalmente no nariz. O que fazemos para quem está próximo de um doente é o procedimento de quimioprofilaxia, que é a medicação com antibiótico. Os sintomas da meningite são dor de cabeça, febre, vômito, dor na nuca e a nuca que não encosta no peito, além de manchas pelo corpo. No bebê é a recusa pelo peito e aumento da moleira.

Campos 24H – O senhor falou muito no programa de vacinação do município, apresentado até em outros países…

Charbel – Sim, o nosso programa é, antes de mais nada, eficaz, além de ser modelo. De 2008 para trás eram de 50 a 60 casos/ano de mortes de crianças por várias doenças que não tinham vacina e esse número caiu consideravelmente. Para você ter uma idéia, em 2010, um ano após implantação da vacina Prevenar, foi zero o número de casos de meningite por pneumococo. E depois de 2010 as crianças começaram a ser vacinadas e foram surgindo novas bactérias, o que é normal dentro da medicina. Hoje as crianças com menos de dois anos são vacinadas contra as principais doenças, tudo dentro do calendário municipal de vacinação.

Campos 24H – E foi a Prevenir que o senhor foi apresentar na África recentemente?

Charbel – Sim, mostrar a eficácia da vacina na redução de casos de pneumonia em Campos e, ainda, o modelo de vacinação no município contra o HPV, iniciada com as meninas e, agora, também para os meninos. Em abril, na China, fiz palestra mostrando os desafios da vida real com as dificuldades de implantação de vacinas em outros municípios, porque em Campos não tem esse problema, tem políticos sensíveis, uma rede bem treinada, técnicos preparados, além de rede de frios, sala de vacinação para viajantes, entre outros. Em Las Vegas foi falar sobre os desafios para implantar vacinas diversas em programa de vacinação. Além da estratégia para implementar a vacina HPV nos países em desenvolvimento.

Campos 24H– As palestras alcançam os objetivos?

Charbel – Claro que sim. Palestra é prevenção, assim como campanha também é prevenção. E a cada R$ 1 investido em prevenção com vacinas, o município economiza R$ 4 na doença.

Campos 24H– Então, sua vida acadêmica não termina nunca…

Charbel – Não, eu vivo estudando, pesquisando, me informando e repassando tudo isso ao município. Para isso estudo todos os dias, até de madrugada se for preciso.

Fonte: Campos 24 Horas/Show Francisco




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