domingo, 19 de agosto de 2018

Depressão e suicídio: precisamos falar sobre isto

Depressão acomete milhões de pessoas, e o suicídio tem sido praticado por outros milhares todos os anos;

Ocinei Trindade e Thiago Gomes


É preciso falar sobre a depressão e o suicídio, sim! Os assuntos são polêmicos, mas também são acompanhados de dados alarmantes que mostram que o tema não deve ser ignorado. De acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), depois da violência, o suicídio é o fator que mais mata jovens entre 15 e 29 anos. Estimativas do órgão apontam que, anualmente, mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida, número que representa 1,4% de todas as mortes do mundo. Para especialistas, o esclarecimento é uma das formas de combater o suicídio que, ainda segundo a OMS, em 90% dos casos poderia ter sido evitado. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, uma média de 11 mil pessoas tiram a própria vida por ano. O alerta também vale para familiares e amigos que têm papel importante na recuperação de quem sofre de depressão.

Quem acompanha, atualmente, a vida da professora de Educação Física Débora Soeiro Zargalio custa a creditar que ela já sofreu de depressão e esteve em vias de tirar a própria vida. Débora lembra que, no auge da doença, um dia, sozinha em casa, morando no nono andar de um prédio longe da família, chegou a se aproximar da sacada e olhou para baixo, determinada a acabar com seu sofrimento. No entanto, enxergou que o suicídio não é uma saída. Naquele mesmo dia, a professora descobriu no esporte um propósito para viver. Hoje ela não tem vergonha de falar sobre essa experiência, pois sabe que seu exemplo de superação pode ajudar quem sofre de depressão.

“Naquele dia, fui de um extremo ao outro. Saí daquela varanda e fui para um parque correr e me descobri uma ultramaratonista. Corri três horas e meia, fui aumentando a quantidade das horas de treino e a distância percorrida, até chegar ao meu recorde, que é de 59 horas”, comemora.

A carioca Débora, que mora em Campos desde 2015, coleciona medalhas no esporte e vitórias na vida pessoal. O conselho que ela deixa para quem está deprimido ou pensando em uma medida extrema, como o suicídio, é não ter vergonha de pedir ajuda. “É uma angústia, uma dor interna que vira dor física. A gente perde a vontade de fazer qualquer atividade. Eu já fiquei duas semanas sem sair de casa, sem me alimentar direito e até sem tomar banho. Então, se você está deprimido, não deixe chegar a este ponto. Peça ajuda! Seja de um amigo ou parente, alguém vai te escutar”, recomendou.

O médico psiquiatra Flávio Mussa diz que seres humanos são complexos de multiabordagens física, psicológica e espiritual. “A depressão é um problema fisiológico e nada tem a ver com espiritualidade. Infelizmente, muitos abandonam o tratamento médico e depositam apenas na fé religiosa a possibilidade de cura. Os padres Fábio de Mello e Marcello Rossi, grandes pregadores do evangelho, tiveram problemas sérios com depressão, mas se trataram com ajuda da medicina. As pessoas precisam combater o preconceito em relação a doença”, afirma.

O autoconhecimento é bastante útil para quem enfrenta depressão e pensamentos suicidas. Com 30 anos de experiência, o psicólogo Luiz Cosmelli diz que é crescente o número de crianças e adolescentes com sintomas de depressão e vontade de morrer. “Há uma epidemia mundial. O desencanto, a inquietude e a angústia excessiva são fatores que podem levar ao suicídio. As famílias, a sociedade e profissionais da área de saúde precisam atentar bem para isso. E quando percebo que não é só uma questão emocional em crianças ou em adultos, outros profissionais precisam atuar, como o psiquiatra, por exemplo”, comenta.

Esperança

De acordo com os especialistas, todo tipo de ajuda pode contribuir para enfrentar o problema da depressão e do suicídio. Políticas públicas são necessárias, além de informação, respeito ao doente e a prática do afeto são defendidas por Flávio Mussa. “Amar é indispensável. Isto se aprende em casa. As escolas e as famílias podem ensinar a criança a não zombar de quem é cego, surdo, autista, negro, oriental, qualquer um diferente de nós. É preciso tentar entender a dor do outro, ter empatia. A doença é social. Precisamos nos apoiar. O sofrimento é capaz de unir as pessoas, e isto deve servir de aprendizado”, conclui.

Alcoolismo e dependência química

Quando “Carlos” (nome fictício a pedido do entrevistado) tinha oito anos de idade, sua mãe lhe ofereceu bebida alcoólica. Por mais de 30 anos, ele consumiu bebidas e drogas, mas não se achava dependente. Até que chegou ao fundo do poço, desejou morrer. Decidiu procurar ajuda médica. Por cinco anos se tratou com medicamentos e ajuda dos Alcoólicos Anônimos, entidade filantrópica que oferece apoio aos dependentes de bebidas.

“Estou limpo há bastante tempo, mas é difícil. Eu era depressivo e não tinha consciência. Beber e me drogar me aliviavam”, conta Carlos. Todos os dias, alguém procura o escritório do AA, na Rua Santos Dumont, 35, no Centro de Campos. “Oferecemos ajuda em mais de 15 locais nos bairros e distritos para quem quer vencer o alcoolismo. A bebida me deixou depressivo e doente. Eu venci o vício”, explica o dirigente da instituição.

De acordo com médico psiquiatra Flávio Mussa, depressão, alcoolismo, dependência química e suicídio costumam estar relacionados a pessoas que sofrem de algum transtorno mental-depressivo. “Há níveis de depressão. Alguns bastante graves. Quando surgem manias, euforia ou tristeza exageradas, eis o sinal de alerta. É preciso cuidado e atenção no diagnóstico, porque cada pessoa reage de um modo. Há medicações específicas que agem no cérebro e diminui pensamento de suicídio, por exemplo, além do desânimo, apatia ou prostração. Chamamos “delírio de ruína” os que acham que morrer é a única saída. E não é”, afirma.

Ligação gratuita

Ligações para o Centro de Valorização da Vida (CVV), que auxilia na prevenção do suicídio, passaram a ser gratuitas em todo o país. Um acordo de cooperação técnica com o Ministério da Saúde permitiu o acesso gratuito ao serviço, prestado pelo telefone 188.

Por meio do número, pessoas que sofrem de ansiedade, depressão ou que correm risco de cometer suicídio conversam com voluntários da instituição e são aconselhados. Antes, o serviço era cobrado e prestado por meio do 141. O centro existe há 55 anos e tem mais de 2 mil voluntários atuando na prevenção ao suicídio. A assistência também é prestada pessoalmente, por e-mail ou chat.

Atendimento na rede pública

O Programa de Saúde Mental mantido pelo município conta com os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e laboratórios de saúde mental, que atendem usuários com depressão e histórico de tentativa de suicídio ou ideação suicida. Os ambulatórios de saúde mental funcionam em duas unidades de atenção básica, que são a UBS Alair Ferreira, no Jardim Carioca, e a do Parque Imperial. Estes serviços contam com equipe multiprofissional, composta por médico, psiquiatra, psicólogo, assistente social, enfermeiro e técnico de enfermagem. As pessoas são acolhidas e acompanhadas de acordo com a indicação.

“Importante ressaltar que esta demanda merece cuidado muito especial e o programa vem produzindo discussões, fóruns e estabelecendo linhas de cuidados especiais voltadas para esta realidade. Em setembro, será realizada a campanha Setembro Amarelo, que chama a atenção deste tema e conscientiza sobre a prevenção. Em breve, será divulgada a data de um fórum que vai discutir o tema. O desdobramento deste fórum será a criação de Grupo de Trabalho (GT) com representantes da atenção básica, Fundação Municipal da Infância e da Juventude (FMIJ), superintendência de Justiça e Assistência Judiciária; secretaria de Desenvolvimento Humano e Social, entre outros, para que, juntos, possamos pensar nos cuidados às pessoas envolvidas neste quadro”, informou a coordenadora dos Caps, Renata Manhães.

Dados do Brasil

A análise mais recente do Ministério da Saúde sobre suicídio foi divulgada em setembro de 2017, com base em dados coletados entre 2011 e 2016. Segundo o órgão, o Brasil registrou aumento da taxa de mortalidade por suicídio por 100 mil habitantes. Em 2011 foram registrados 10.490 suicídios (taxa de 5,3 a cada 100 mil habitantes) e em 2015 subiu para 11.736 (5,7 a cada 100 mil habitantes).

Ainda segundo o Ministério da Saúde, a maioria das mortes decorrentes de lesões autoprovocadas atinge o público masculino. No entanto, a maior parte das tentativas de suicídio ocorre entre as mulheres. De 2011 a 2016, foram 62.804 mortes por suicídio. Das vítimas, 79% eram homens. No mesmo período foram 48.204 tentativas de suicídio registradas e, deste total, 69% dos casos ocorreram com mulheres. O órgão aponta que o público feminino também é mais reincidente na tentativa de suicídio

Assunto é tabu na mídia

A OMS entende que o suicídio é um problema de saúde pública e que, por isso, deve ser noticiado, porém, com base em determinados princípios. O órgão fez uma publicação sobre suicídio destinada exclusivamente aos jornalistas, intitulada “Prevenção do suicídio: um manual para profissionais da mídia”. “O relato de suicídios de uma maneira apropriada, acurada e cuidadosa, por meios de comunicação esclarecidos, pode prevenir perdas trágicas de vidas”, conclui o manual.

Existe uma preocupação da imprensa, relacionado ao “Efeito Werther”, que se refere a um pico de tentativas de suicídios após um caso ser amplamente divulgado. A expressão tem como referência o livro “Os sofrimentos do Jovem Werther”, publicado pelo autor alemão Goethe em 1774, que teria deflagrado uma onda de suicídios na Europa. O livro narra uma história de amor não correspondida na qual o protagonista tira a própria vida.
Terceira Via

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