Tanques e Caveirão do Bope chegam a Campos para tentar libertar a área mais violenta da cidade do tráfico de drogas

Homens do Exército atuam em bairros dominados por traficantes (Fotos: Silvana Rust)
Os índices de criminalidade em Campos, sobretudo na área de Guarus, obrigaram as Forças Armadas a interiorizar a Intervenção Federal à qual a Segurança do Estado do Rio de Janeiro está submetida desde 16 de fevereiro de 2018. No último dia 9, há exatos 174 dias após o início da intervenção, autorizada pelo decreto n.º 9.288, foi realizada em Campos a primeira operação conjunta entre Exército e as polícias. Mais de 800 agentes, com direito a tanque blindado, ocuparam as ruas de cinco comunidades do subdistrito. Na área, até o início de agosto, foram registrados 120 homicídios e 154 tentativas de homicídio. As autoridades acreditam que a violência tende a diminuir em Guarus após a operação — o que não ocorreu na Capital —, mas, para quem mora na zona de conflito dominada pela guerra de facções, a presença dos militares é bem-vinda, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido até uma vida normal e pacífica.
No primeiro dia de ocupação federal em bairros de Guarus, um morador identificado apenas pela inicial “A” disse se sentir mais seguro com a presença de militares nas ruas. Morador do Santa Rosa, ele costuma atravessar diariamente área de conflitos, onde é frequente troca de tiros entre traficantes. “Acho que a intervenção ajuda a intimidar os criminosos que vinham agindo à vontade. Conheço gente que vendeu casa e se mudou para fugir da violência. Porém, espero que não ocorra aqui o que há no Rio. Lá, apesar da intervenção, a violência não diminuiu”, opinou.
Já uma moradora da comunidade do Sapo I, identificada pela letra “L” não esconde o medo que sente por conta da violência. Ela contou que muitos têm vontade ir embora, mas sem ter para onde ir, é preciso correr os riscos de conviver com tiros e ameaças por parte de traficantes. “Sou a favor dos militares aqui porque ajudam a combater o crime e a violência. Espero que permaneçam”, disse.
Guarus é subdistrito de Campos e a área mais populosa do município com dezenas de bairros. Nos últimos anos, a escalada da violência só aumentou. O tráfico de drogas e a disputa entre quadrilhas rivais mantêm muitos moradores reféns do crime organizado. Roubos de veículos, assaltos à mão armada nos comércios e nas ruas, além de homicídios fazem parte de uma triste realidade. Nesta, “a lei do silêncio” e o medo constante se repetem diariamente.
Homens do Exército atuam em bairros dominados por traficantes (Fotos: Silvana Rust)
Os índices de criminalidade em Campos, sobretudo na área de Guarus, obrigaram as Forças Armadas a interiorizar a Intervenção Federal à qual a Segurança do Estado do Rio de Janeiro está submetida desde 16 de fevereiro de 2018. No último dia 9, há exatos 174 dias após o início da intervenção, autorizada pelo decreto n.º 9.288, foi realizada em Campos a primeira operação conjunta entre Exército e as polícias. Mais de 800 agentes, com direito a tanque blindado, ocuparam as ruas de cinco comunidades do subdistrito. Na área, até o início de agosto, foram registrados 120 homicídios e 154 tentativas de homicídio. As autoridades acreditam que a violência tende a diminuir em Guarus após a operação — o que não ocorreu na Capital —, mas, para quem mora na zona de conflito dominada pela guerra de facções, a presença dos militares é bem-vinda, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido até uma vida normal e pacífica.
No primeiro dia de ocupação federal em bairros de Guarus, um morador identificado apenas pela inicial “A” disse se sentir mais seguro com a presença de militares nas ruas. Morador do Santa Rosa, ele costuma atravessar diariamente área de conflitos, onde é frequente troca de tiros entre traficantes. “Acho que a intervenção ajuda a intimidar os criminosos que vinham agindo à vontade. Conheço gente que vendeu casa e se mudou para fugir da violência. Porém, espero que não ocorra aqui o que há no Rio. Lá, apesar da intervenção, a violência não diminuiu”, opinou.
Já uma moradora da comunidade do Sapo I, identificada pela letra “L” não esconde o medo que sente por conta da violência. Ela contou que muitos têm vontade ir embora, mas sem ter para onde ir, é preciso correr os riscos de conviver com tiros e ameaças por parte de traficantes. “Sou a favor dos militares aqui porque ajudam a combater o crime e a violência. Espero que permaneçam”, disse.
Guarus é subdistrito de Campos e a área mais populosa do município com dezenas de bairros. Nos últimos anos, a escalada da violência só aumentou. O tráfico de drogas e a disputa entre quadrilhas rivais mantêm muitos moradores reféns do crime organizado. Roubos de veículos, assaltos à mão armada nos comércios e nas ruas, além de homicídios fazem parte de uma triste realidade. Nesta, “a lei do silêncio” e o medo constante se repetem diariamente.
Uma das vítimas dessa barbárie, ironicamente, foi um cabo do exército. O jovem Hugo Soares, de apenas 19 anos, que morava em Guarus e era lotado na 2ª Companhia de Infantaria, foi morto com um tiro ao passar pela rua Romualdo Peixoto, no Parque Eldorado. Ele estava de moto e a caminho da casa da noiva quando foi atingido. Hugo chegou a ser socorrido e levado para o Hospital Ferreira Machado, mas não resistiu. A Polícia não sabe a motivação do crime e chegou a afirmar que o crime pode ter sido passional. Ninguém foi preso. A rua Romualdo Peixoto é considerada pela polícia uma zona de conflito por separar dois bairros dominados por criminosos de facções rivais. A família de Hugo não acredita na hipótese de crime passional. “Nós nascemos e fomos criados ali perto de onde aconteceu o crime. Ele era conhecido ali e não acredito que ele tenha sido morto por fazer parte do Exército ou por crime passional, como afirma a polícia. É uma situação muito delicada, a menos que ele tenha sido confundido com alguém, já que era noite e ele estava de moto e capacete”, concluiu um primo de Hugo que preferiu não se identificar.
A intervenção federal com a participação de soldados do Exército e de todas as polícias em vários bairros de Guarus é bem recebida para muitas pessoas que vivem nos locais e que se queixam da insegurança. Além das áreas ocupadas pelos militares, outros bairros também sofrem com a intimidação de traficantes e assaltantes. No último 12 de junho, o pastor Jocimar Rangel foi abordado por dois assaltantes que levaram seu carro no Parque São Matheus durante o dia, bem próximo à igreja onde é sacerdote. A polícia localizou o veículo depenado dias depois em um desmanche que funcionava em outro bairro de Guarus. “Foi traumatizante”, disse.
No mesmo bairro, uma comerciante que prefere não se identificar, disse que a delinquência no São Matheus só cresce. Ela já foi alvo de ladrões várias vezes. “Antes, a maioria das pessoas do bairro se conhecia. Nos últimos anos, muita gente de fora, estranha e suspeita veio morar aqui. Recentemente, um grupo da cidade de São Gonçalo alugou casas. Todo mundo fica desconfiado, infelizmente”, revela.

A intervenção federal com a participação de soldados do Exército e de todas as polícias em vários bairros de Guarus é bem recebida para muitas pessoas que vivem nos locais e que se queixam da insegurança. Além das áreas ocupadas pelos militares, outros bairros também sofrem com a intimidação de traficantes e assaltantes. No último 12 de junho, o pastor Jocimar Rangel foi abordado por dois assaltantes que levaram seu carro no Parque São Matheus durante o dia, bem próximo à igreja onde é sacerdote. A polícia localizou o veículo depenado dias depois em um desmanche que funcionava em outro bairro de Guarus. “Foi traumatizante”, disse.
No mesmo bairro, uma comerciante que prefere não se identificar, disse que a delinquência no São Matheus só cresce. Ela já foi alvo de ladrões várias vezes. “Antes, a maioria das pessoas do bairro se conhecia. Nos últimos anos, muita gente de fora, estranha e suspeita veio morar aqui. Recentemente, um grupo da cidade de São Gonçalo alugou casas. Todo mundo fica desconfiado, infelizmente”, revela.
Moradores do Parque Lebret e do Santa Helena também se queixam do tráfico de drogas e do clima de ameaça e intimidação. “A gente não tem muito o que fazer, pois há ruas isoladas com barricadas montadas pelos bandidos. Quem é de outro bairro, precisa de permissão para entrar, ou, de estar acompanhado de algum morador. As áreas são territórios onde o tráfico manda. Se a polícia ou as autoridades não fizerem nada, não seremos nós, pessoas de bem e trabalhadores, que conseguiremos impedir esse terror”, contou outro morador que não pode se identificar por temer represálias de traficantes.
Operação em Guarus
Os parques Eldorado I e II, Santa Rosa, Santa Clara e Prazeres, todos em Guarus, foram alvos, no dia 9, da primeira operação da Intervenção Federal em Campos, empregando o chamado Comando Conjunto no interior do Estado. Juntos, os bairros concentram uma população de cerca de 15 mil pessoas e também índices elevados de criminalidade. Pelo menos 800 homens das Forças Armadas e das polícias Militar, Civil e Rodoviária Federal participaram da operação batizada de “Cruzada”.

Operação em Guarus
Os parques Eldorado I e II, Santa Rosa, Santa Clara e Prazeres, todos em Guarus, foram alvos, no dia 9, da primeira operação da Intervenção Federal em Campos, empregando o chamado Comando Conjunto no interior do Estado. Juntos, os bairros concentram uma população de cerca de 15 mil pessoas e também índices elevados de criminalidade. Pelo menos 800 homens das Forças Armadas e das polícias Militar, Civil e Rodoviária Federal participaram da operação batizada de “Cruzada”.
No saldo do dia, 30 pessoas foram presas, grande quantidade de maconha e mais de 20 quilos de cocaína (avaliados em R$ 1 milhão) que teriam sido importadas da Colômbia foram apreendidos, além de duas granadas, veículos e duas armas de fogo. Foram realizadas mais de 600 revistas em pessoas e veículos; dez barricadas instaladas pelo tráfico de drogas foram removidas; mais de cem casas que foram invadidas por integrantes do tráfico foram retomadas pelos agentes. Segundo o delegado titular da 146ª Delegacia de Polícia, Luís Maurício Armond, as investigações apontam que os imóveis foram invadidos com uso de violência e ameaça e, em alguns casos, os moradores que não obedeciam às ordens do tráfico foram executados.
De acordo com o porta-voz do Comando Militar do Leste, coronel Carlos Cinelli, o balaNço da megaoperação foi positivo. “Esta operação foi a primeira da intervenção federal no interior do Estado e Campos está recebendo este tratamento mais intensificado agora. Mas foi uma necessidade que identificamos desde o início do processo”, disse.
O comandante do 8º Batalhão de Polícia Militar de Campos, tenente-coronel Fabiano de Souza, destacou que mesmo antes de deflagrada a megaoperação do dia 9, ações de repressão ao crime organizado já vinham sendo reforçadas na cidade. “Percebemos que já houve uma queda nos números de homicídio em Guarus. Nos últimos 12 dias, por exemplo, foi registrado apenas um. Em relação ao problema da guerra de facções, precisamos seguir com a união das forças de segurança. Isso vai nos ajudar a reduzir os níveis de criminalidade a níveis aceitáveis”, pontuou o tenente-coronel.
Intervenção sob a ótica de especialistas
Para Marcos Pedlowski, professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e PhD em planejamento regional, a intervenção federal em comunidades pobres de Campos preocupa, já que os índices de violência na capital aumentaram, apesar da atuação dos militares. “É urgente uma ampla discussão sobre os impactos de médio e longo prazos sobre o emprego de forças militares na segurança pública, e da ausência de esforços de inteligência para minimizar os riscos sobre quem deveria ser protegido. Há o risco real de uma difusão exponencial da violência e não a sua diminuição”, considerou.
O sociólogo Hamilton Garcia considera a operação em Campos como compressão do varejo do crime. “É muito importante do ponto de vista social, pois inibe a iniciativa criminosa no cotidiano – inclusive o recrutamento de jovens e a opressão das populações locais. Porém, há efeitos limitados sobre o crime que opera em nível nacional/internacional sem rival no sistema legal-repressivo vigente; hoje permeável no sistema prisional corrompido e na falta de ética de alguns profissionais do direito”, analisou.
Relatório aponta aumento da violência
A Comissão Popular da Verdade (CPV) divulgou no dia 25 de julho um relatório apontando o aumento da violência nas favelas e periferias depois de decretada a intervenção federal no Rio de Janeiro. O documento compila informações levantadas por aplicativos, como o Fogo Cruzado, e por entidades, como o Observatório da Intervenção.
De fevereiro a junho deste ano, os episódios de tiroteios na região metropolitana chegaram a 4.005, 37% a mais do que os cinco meses anteriores, quando foram registrados pelo aplicativo colaborativo Fogo Cruzado 2.924 eventos, e 60% a mais que no mesmo período de 2017, que teve 2.503 registros. Esses tiroteios deixaram 637 mortos e 526 feridos.
Na Baixada Fluminense, Belford Roxo registrou aumento de 161% nos tiroteios e em Mesquita subiram 168%, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Já o número de mortos por armas de fogo aumentou 55% em Belford Roxo e 67% em Duque de Caxias, na comparação com os cinco meses anteriores à intervenção.
Foram contabilizados 28 casos de chacina no período da intervenção, com um total de 119 mortos e dez feridos. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), foram 2.358 vítimas de letalidade violenta no estado entre março e junho de 2018, o que representa uma redução de 2% em relação ao período anterior à intervenção e aumento de 5% na comparação com o mesmo período de 2017.
No entanto, o porta-voz do Comando Militar do Leste, coronel Carlos Cinelli, disse que os índices de criminalidade têm caído sistematicamente nos últimos três meses. “Crime contra o patrimônio, por exemplo, como roubo de carga, roubo de pedestres diminuíram. Tivemos uma redução grande no número de latrocínio”, comentou durante sua passagem por Campos.
De acordo com o porta-voz do Comando Militar do Leste, coronel Carlos Cinelli, o balaNço da megaoperação foi positivo. “Esta operação foi a primeira da intervenção federal no interior do Estado e Campos está recebendo este tratamento mais intensificado agora. Mas foi uma necessidade que identificamos desde o início do processo”, disse.
O comandante do 8º Batalhão de Polícia Militar de Campos, tenente-coronel Fabiano de Souza, destacou que mesmo antes de deflagrada a megaoperação do dia 9, ações de repressão ao crime organizado já vinham sendo reforçadas na cidade. “Percebemos que já houve uma queda nos números de homicídio em Guarus. Nos últimos 12 dias, por exemplo, foi registrado apenas um. Em relação ao problema da guerra de facções, precisamos seguir com a união das forças de segurança. Isso vai nos ajudar a reduzir os níveis de criminalidade a níveis aceitáveis”, pontuou o tenente-coronel.
Intervenção sob a ótica de especialistas
Para Marcos Pedlowski, professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e PhD em planejamento regional, a intervenção federal em comunidades pobres de Campos preocupa, já que os índices de violência na capital aumentaram, apesar da atuação dos militares. “É urgente uma ampla discussão sobre os impactos de médio e longo prazos sobre o emprego de forças militares na segurança pública, e da ausência de esforços de inteligência para minimizar os riscos sobre quem deveria ser protegido. Há o risco real de uma difusão exponencial da violência e não a sua diminuição”, considerou.
O sociólogo Hamilton Garcia considera a operação em Campos como compressão do varejo do crime. “É muito importante do ponto de vista social, pois inibe a iniciativa criminosa no cotidiano – inclusive o recrutamento de jovens e a opressão das populações locais. Porém, há efeitos limitados sobre o crime que opera em nível nacional/internacional sem rival no sistema legal-repressivo vigente; hoje permeável no sistema prisional corrompido e na falta de ética de alguns profissionais do direito”, analisou.
Relatório aponta aumento da violência
A Comissão Popular da Verdade (CPV) divulgou no dia 25 de julho um relatório apontando o aumento da violência nas favelas e periferias depois de decretada a intervenção federal no Rio de Janeiro. O documento compila informações levantadas por aplicativos, como o Fogo Cruzado, e por entidades, como o Observatório da Intervenção.
De fevereiro a junho deste ano, os episódios de tiroteios na região metropolitana chegaram a 4.005, 37% a mais do que os cinco meses anteriores, quando foram registrados pelo aplicativo colaborativo Fogo Cruzado 2.924 eventos, e 60% a mais que no mesmo período de 2017, que teve 2.503 registros. Esses tiroteios deixaram 637 mortos e 526 feridos.
Na Baixada Fluminense, Belford Roxo registrou aumento de 161% nos tiroteios e em Mesquita subiram 168%, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Já o número de mortos por armas de fogo aumentou 55% em Belford Roxo e 67% em Duque de Caxias, na comparação com os cinco meses anteriores à intervenção.
Foram contabilizados 28 casos de chacina no período da intervenção, com um total de 119 mortos e dez feridos. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), foram 2.358 vítimas de letalidade violenta no estado entre março e junho de 2018, o que representa uma redução de 2% em relação ao período anterior à intervenção e aumento de 5% na comparação com o mesmo período de 2017.
No entanto, o porta-voz do Comando Militar do Leste, coronel Carlos Cinelli, disse que os índices de criminalidade têm caído sistematicamente nos últimos três meses. “Crime contra o patrimônio, por exemplo, como roubo de carga, roubo de pedestres diminuíram. Tivemos uma redução grande no número de latrocínio”, comentou durante sua passagem por Campos.
Terceira Via

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