Diversas categorias não podem parar, mesmo com todos os riscos

A pandemia do coronavírus vem causando medo em boa parte da população mundial e em meio às restrições para evitar o avanço, um grupo de pessoas tem arriscado suas vidas ao estar na linha de frente da batalha contra a Covid-19. Profissionais da saúde que lidam frente a frente com o paciente que contraiu a doença ou com suspeita de contaminação pelo vírus, são os mais lembrados. Porém, caminhoneiros, garis, motoristas de ônibus, bancários, carteiros e frentistas de postos de combustíveis, por exemplo, lidam direto com o público e têm se tornado verdadeiros heróis nessa guerra.
O caminhoneiro Hudson Pinto dos Santos, de 39 anos, morreu no dia 11 de abril em Campos, depois de ficar internado por uma semana e ter passado, inclusive, pela Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Foi o único morto na cidade por Covid-19 até o fechamento desta edição, na noite de sexta-feira (17). A trabalho, Hudson viajou para São Paulo e Ceará, estados brasileiros com grande disseminação da doença.
Médicos

Julyane Alves é médica
Desde os últimos anos de faculdade, a médica Julyane Alves vivencia a rotina das emergências e após se formar, há quase seis meses, trabalha em plantões de hospitais da região. Nessa profissão, quem atua na linha de frente nos atendimentos de porta aberta, aprende a gostar da adrenalina e do perigo, segundo ela.
“Nossa mente e nosso corpo se adaptam às emoções, estresses e cansaços de cada dia de trabalho e, com o tempo, tudo nos hospitais se torna familiar e o dia de trabalho é algo prazeroso e motivador. Porém em março de 2020, a chegada dessa pandemia fez mudar tudo que estava estabilizado em minha mente. Eu me vi e vi a minha equipe rodeada de medo, insegurança e apreensão pelo que vamos enfrentar a cada plantão, afinal tudo é novo. Criamos uma nova rotina de trabalho, os nossos hospitais fizeram inúmeras modificações em suas estruturas e nos fluxos de atendimentos, eu nunca imaginei que fosse passar por algo parecido. Hoje, me paramento toda da cabeça aos pés para poder examinar os pacientes, estudo vários artigos e pesquisas sobre uma doença nova que não aprendemos absolutamente nada na faculdade, é um novo cuidado comigo e com todos que me cercam, é um medo constante do que estar por vir e do que ainda iremos enfrentar. Me distanciei da minha família para preservar a saúde dos meus pais que são idosos e volto pra casa após cada plantão com medo de levar contaminação para dentro dela. Já são dias e dias assim, vivenciando essa realidade que assusta e que é tão distante da que eu esperava enfrentar no meu primeiro ano de formada, mas tenho em meu coração a esperança de que tudo irá passar em breve e que teremos dias melhores”, relata a média Julyane Alves.
Enfermeiros

Gisela Silva é enfermeira (Reprodução)
Gisela Silva atua há três anos como enfermeira no Hospital Dr.Beda. Ela relata que devido ao atual cenário, muitas mudanças foram feitas no local tanto para melhor atender aos pacientes, quanto para a segurança de todos que transitam por ali. Com fé e otimismo, ela acredita que essa fase passará logo, mas não hesita em tomar todas os cuidados necessários antes e após chegar a casa.
“É muito bom e gratificante quando fazemos o que realmente amamos. Eu sou muito feliz por fazer parte desse grupo, dessa empresa. É claro que diante das circunstâncias atuais, acho natural eu ficar insegura e com medo, mas eu sempre tento pensar nas coisas boas, com coragem, ânimo e fé. Eu oro muito quando saio da minha casa e quando chego também. Penso na minha filha e na minha família, mas tenho muita fé no meu coração que Deus está me protegendo e também protegendo todos nós aqui. O hospital está nos amparando muito bem com toda a estrutura, com todos os EPIs necessários, orientações e isso nos dá segurança. Então, mesmo diante de tudo isso, somos uma família, uma equipe forte e pronta a ajudar”, declara Gisela Silva.
Quanto ao momento de receber pacientes com suspeita do Covid-19, ela afirma que o medo natural surge, porém, não paralisa a atuação do seu trabalho.
“Os exames são feitos exatamente com aqueles que apresentam sintomas mais graves. Então praticamente todos os exames que coletamos são de pacientes com a possibilidade de estarem com o vírus. A preocupação é natural, mas o amor à profissão e a certeza de que estamos fazendo um trabalho pela saúde pública, nos leva a encarar essas situações como uma missão”, finaliza.
Garis

Orlando Batista é gari nas ruas de Campos; ele teme o vírus e o desemprego
Quando o gari Orlando Batista foi entrevistado pelo Terceira Via, ele não escondeu dois medos ou preocupações que sentia: do novo coronavírus e de ficar desempregado. Ele e muitos colegas foram colocados em férias coletivas, medida tomada por diversas empresas para reduzir despesas e riscos de contágio da Covid-19. Com o fechamento do comércio, a área central teve redução de pessoas circulando e, consequentemente, de lixo nas ruas.
“Muitos colegas seguem na ativa na coleta semanal de lixo nos bairros. Minha função é varrer e recolher a sujeira das ruas. É um trabalho que muitas pessoas não prestam atenção nem valorizam. Fico triste com a situação da cidade e do que está acontecendo no mundo por causa do vírus. Queria que a normalidade voltasse logo”, disse Orlando.
Motoristas de ônibus

Motorista Tiago Soares
Outra função indispensável neste momento é o transporte público. O motorista de ônibus Tiago Soares, 39 anos, conta que em um trajeto do Novo Jockey ou do Imperial ao Centro embarcavam e desembarcavam 120 passageiros, em média. “Atualmente, são 38 pessoas. Estamos nos arriscando, todos na rua estão. Uso máscara, mas é difícil. Não me sinto herói. Cumpro o meu trabalho. A população poderia reconhecer melhor o motorista”, diz.
Aos 62 anos, Valdecir Gomes diz que há 42 trabalha como motorista de ônibus. Ele faz a linha Uenf-Jockey-Centro. O profissional disse que ainda não usava máscara, pois dependia da direção da empresa. “Estou sempre lavando as mãos e usando álcool. Os rodoviários já foram valorizados, mas isso vem se acabando. É um momento difícil para todos nós, pois a saúde está ameaçada. Quero continuar trabalhando enquanto puder”, afirma.

Valdecir Gomes é motorista há 42 anos em Campos
Bancários

Presidente do Sindicato dos Bancários de Campos
Quem imaginaria que a profissão de bancário poderia um dia ser considerada “de risco”? Acostumados a trabalhar em um ambiente, na maioria dos casos, confortável, esses profissionais se veem, agora, expostos como poucos a um vírus que já matou milhares de pessoas em todo o mundo. Consideradas prestadoras de um serviço essencial, as agências bancárias permanecem abertas durante o período de isolamento social e, seja manuseando dinheiro, seja em contato direto com clientes, os bancários são os responsáveis por manter esse serviço em pleno funcionamento, mesmo que, para isso, precisem enfrentar o medo.
Gerente de uma agência situada no Centro de Campos, Gustavo Rosa tem tomado todas as previdências para evitar ao máximo os riscos. A instituição financeira em que ele trabalha afastou funcionários enquadrados no grupo de risco, disponibilizou equipamentos de proteção individual (EPIs) e oferece álcool em gel também para os clientes. Em reunião com os funcionários, Gustavo também decidiu implementar um revezamento: em uma semana, uma equipe trabalha na agência e outra em casa; na semana seguinte, os papéis se invertem.
“O que podemos fazer para amenizar a exposição, temos feito. Mas, ainda assim, o receio continua. Jamais passou pela nossa cabeça que poderíamos ser considerados profissionais que atuam em uma área de risco e agora nos vemos nessa situação… Antes, nosso medo era só de assalto. Agora, temos medo de um vírus invisível”, lamentou.
O presidente do Sindicato dos Bancários de Campos, Rafanele Alves, declarou que está em negociação constante com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), solicitando que sejam tomadas providências e garantindo estruturas para os bancários trabalharem. Ele afirmou que apenas 30% do efetivo devem continuar indo às agências diariamente, conforme essas negociações, e também destacou o trabalho da Prefeitura de Campos e das forças de segurança na fiscalização das unidades da cidade. Inclusive, duas agências foram fechadas por não estarem adequadas às medidas de higiene e de contingenciamento de pessoal.
“Além disso, o Sindicato ainda está com carros de som orientando a população a respeitar o afastamento de 1,5 metros e, caso seja possível, a evitar ir até a agência e optar por resolver suas pendências pelos aplicativos. Isso vale principalmente para a Caixa Econômica, que nos últimos dias tem tido bastante aglomeração devido ao depósito do auxilio emergencial. As precauções para proteger o funcionalismo e os clientes vêm sendo tomadas, mas a verdade é que com um vírus como este, quem precisa se expor a ele pode, de fato, ser considerado um herói”, concluiu.
Carteiros

Correios mantêm atividades como a função de entrega pelos carteiros
Os carteiros sempre estiveram expostos: trabalhando diariamente nas ruas, eles precisam enfrentar o sol, a chuva e outras dificuldades para que as correspondências cheguem à casa de todos. Acontece que uma exposição como a que eles se colocam neste momento de transmissão comunitária do coronavírus tornou essa profissão ainda mais nobre e arriscada.
No caso dos Correios, não só os carteiros estão expostos: também aqueles que exercem funções internas, manuseado mercadorias, estão em risco constante. E, até o agora, apenas o álcool lhes foi fornecido. Essa informação foi passada por um funcionário que preferiu não identificar por medo de represálias. Segundo ele, máscaras e luvas ainda não foram distribuídas nas quatro agências de Campos e o medo é grande devido aos casos de mortes de carteiros no Rio de Janeiro, no Espírito Santo e em São Paulo.
Aproximadamente 50 carteiros são responsáveis por atender toda a cidade de Campos, mas aqueles que se enquadram em grupos de risco – trabalhadores com mais de 60 anos, com problemas respiratórios, hipertensos e diabéticos — foram afastados de suas funções durante a pandemia. Os carteiros também são orientados a não pedir a assinatura dos destinatários no momento da entrega. O sindicato da categoria já entrou com um pedido de ação civil pública com determinação judicial em caráter liminar para que a entidade forneça os EPIs, uma vez que, sem esses equipamentos, o risco continua.
“O temor existe porque a possibilidade de se contaminar no local de trabalho é grande. Somente na agência da Rocha Leão, por exemplo, há aproximadamente 60 servidores. E nós não estamos preparados para lidar com essa situação. Mas, apesar disso, continuamos”, afirmou o funcionário.
Por e-mail, os Correios garantiram que estão “atentos à proteção de empregados e clientes, com protocolos operacionais e profiláticos baseados nas orientações do Ministério da Saúde”. Ainda segundo a nota, entre as medidas já adotadas pela estatal estariam “o envio de orientação a todos os empregados quanto aos cuidados básicos de higiene; a disponibilização de álcool gel 70%; máscaras para os carteiros e operadores de triagem; e intensificação de procedimentos de higienização e limpeza do ambiente e equipamentos”.
As entregas continuam ocorrendo em todo o país e algumas agências sofreram ajustes temporários no horário de funcionamento, mas sem prejuízo da continuidade e da oferta de serviços e produtos à população.
Apesar das medidas tomadas por governadores e prefeitos para que haja um maior recolhimento das pessoas em casa para evitar a proliferação do coronavírus, muitos profissionais não podem seguir essas determinações, muito menos os conselhos do “fique em casa”. É o caso dos frentistas que estão na linha de frente da batalha.
Frentistas

Romário da Silva é frentista (Foto; Carlos Grevi)
O Romário da Silva tem 46 anos e 20 deles dedicados a um posto de combustível, na Avenida 28 de Março, na altura do Parque Santo Amaro, em Campos. Ele, atualmente é gerente de pista do posto e trabalha oito horas por dia, de segunda a sábado, lidando com diversas pessoas.
“Nós aqui não conseguimos trabalhar de casa, o combustível não para. É essencial estar aqui atendendo todo dia, mesmo alguns clientes estando receosos em sair da residência. Aqui a gente coloca máscara e sempre usa o álcool em gel, para não ser contaminado”, falou.
Por força da profissão, ele tem que ficar na pista do abastecimento de combustível dos veículos o tempo todo, auxiliando outros frentistas, além de manusear dinheiro e máquinas de cartões.
“O maior risco aqui mesmo é o dinheiro, porque botamos a mão, depois esquecemos e passamos no rosto. Mas, mesmo assim nós temos todos os cuidados, lavamos as mãos diariamente. Aqui a gente tem cautela”, disse.
O modo de prevenção do Romário é utilizar o álcool em gel, diferente dos outros trabalhadores do posto, que estão usando máscara, mas para ele, também existe outras maneiras de se proteger como chegar em casa e colocar toda roupa que foi usada no dia para lavar.
“Minha esposa fez uma cirurgia no pulmão, tem dificuldade de respirar e está no grupo de risco. Tenho três filhos também e me preocupo com eles. O cuidado tem que ser redobrado diariamente”, explicou.
Mesmo com o movimento no posto tendo caído em torno de 70%, por conta do isolamento social imposto pelas autoridades de saúde, Romário tem estado atento.
“Atendi no posto, recentemente, um casal que veio do Rio de Janeiro e na família tinha um parente com a Covid-19, mas que já foi curado. São muitos contatos e a pandemia está crescendo no Brasil, então temos que nos prevenir”, finalizou.
Atendentes de farmácia
A farmacêutica Carolina dos Santos é mais uma destas profissionais que precisa sair de casa para trabalhar mesmo durante este período de pandemia de coronavírus. Ela, que diz se cuidar com uso de máscara e luvas, precisa deixar as duas filhas pequenas em casa para ir ao trabalho e lida diretamente com várias pessoas todos os dias.
“Não tem jeito, nós estamos na linha de frente. Sou farmacêutica formada e trabalho na farmácia de uma unidade de saúde, então tenho contato com todos os tipos de pessoas. Este é o meu trabalho e eu preciso. Mas é triste pensar que posso pegar essa doença e levar para as minhas duas filhas pequenas, meu marido ou meus pais idosos por causa de pessoas que não estão se cuidando ou apesar de tudo não estão acreditando na doença. Nós também temos medo, mas não podemos deixar o trabalho. É preciso que haja conscientização de todos”, contou.
Caminhoneiros

Josiel Machado é caminhoneiro há 30 anos (Foto: Reprodução)
Desde 2018, quando mobilizaram uma grave que desestruturou o país, os caminhoneiros já mostraram o seu valor. Ficou claro, à época, que, sem eles, o Brasil para. Agora, diante da crise causada pelo novo coronavírus, mais uma vez esses profissionais mostram-se imprescindíveis: são eles os responsáveis por levar alimentos e insumos aos estados e municípios, garantindo, mesmo em risco, a segurança daqueles que podem ficar em casa. Tanto que, em Campos, a primeira vítima fatal da covid-19 foi, justamente, um caminheiro que exercia seu trabalho. Trabalho esse digno de um herói.
Há 30 anos nas estradas, Josiel Machado, disse estar apavorado como nunca. Ele, mesmo evitando descer do caminhão, mantendo a distância das pessoas e seguindo as recomendações de higiene, perde noites de sono pensando no perigo que o cerca e na situação arriscada em que coloca sua família. Ainda mais após a notícia de que seu colega de profissão faleceu acometido pela doença. Mas, ao mesmo tempo, Josiel encontra forças para continuar quando pensa na importância de sua função.
“Pela primeira vez eu fui parabenizado por um policial que disse que nós, os caminhoneiros, somos aqueles que se arriscam diariamente para manter a comida na mesa de todos. Também tenho recebido muito carinho das pessoas que encontro e quando vejo nos letreiros da BR-101 e da Ponte Rio-Niterói o reconhecimento do meu trabalho, fico feliz apesar do medo”, declarou.

A pandemia do coronavírus vem causando medo em boa parte da população mundial e em meio às restrições para evitar o avanço, um grupo de pessoas tem arriscado suas vidas ao estar na linha de frente da batalha contra a Covid-19. Profissionais da saúde que lidam frente a frente com o paciente que contraiu a doença ou com suspeita de contaminação pelo vírus, são os mais lembrados. Porém, caminhoneiros, garis, motoristas de ônibus, bancários, carteiros e frentistas de postos de combustíveis, por exemplo, lidam direto com o público e têm se tornado verdadeiros heróis nessa guerra.
O caminhoneiro Hudson Pinto dos Santos, de 39 anos, morreu no dia 11 de abril em Campos, depois de ficar internado por uma semana e ter passado, inclusive, pela Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Foi o único morto na cidade por Covid-19 até o fechamento desta edição, na noite de sexta-feira (17). A trabalho, Hudson viajou para São Paulo e Ceará, estados brasileiros com grande disseminação da doença.
Médicos

Julyane Alves é médica
Desde os últimos anos de faculdade, a médica Julyane Alves vivencia a rotina das emergências e após se formar, há quase seis meses, trabalha em plantões de hospitais da região. Nessa profissão, quem atua na linha de frente nos atendimentos de porta aberta, aprende a gostar da adrenalina e do perigo, segundo ela.
“Nossa mente e nosso corpo se adaptam às emoções, estresses e cansaços de cada dia de trabalho e, com o tempo, tudo nos hospitais se torna familiar e o dia de trabalho é algo prazeroso e motivador. Porém em março de 2020, a chegada dessa pandemia fez mudar tudo que estava estabilizado em minha mente. Eu me vi e vi a minha equipe rodeada de medo, insegurança e apreensão pelo que vamos enfrentar a cada plantão, afinal tudo é novo. Criamos uma nova rotina de trabalho, os nossos hospitais fizeram inúmeras modificações em suas estruturas e nos fluxos de atendimentos, eu nunca imaginei que fosse passar por algo parecido. Hoje, me paramento toda da cabeça aos pés para poder examinar os pacientes, estudo vários artigos e pesquisas sobre uma doença nova que não aprendemos absolutamente nada na faculdade, é um novo cuidado comigo e com todos que me cercam, é um medo constante do que estar por vir e do que ainda iremos enfrentar. Me distanciei da minha família para preservar a saúde dos meus pais que são idosos e volto pra casa após cada plantão com medo de levar contaminação para dentro dela. Já são dias e dias assim, vivenciando essa realidade que assusta e que é tão distante da que eu esperava enfrentar no meu primeiro ano de formada, mas tenho em meu coração a esperança de que tudo irá passar em breve e que teremos dias melhores”, relata a média Julyane Alves.
Enfermeiros

Gisela Silva é enfermeira (Reprodução)
Gisela Silva atua há três anos como enfermeira no Hospital Dr.Beda. Ela relata que devido ao atual cenário, muitas mudanças foram feitas no local tanto para melhor atender aos pacientes, quanto para a segurança de todos que transitam por ali. Com fé e otimismo, ela acredita que essa fase passará logo, mas não hesita em tomar todas os cuidados necessários antes e após chegar a casa.
“É muito bom e gratificante quando fazemos o que realmente amamos. Eu sou muito feliz por fazer parte desse grupo, dessa empresa. É claro que diante das circunstâncias atuais, acho natural eu ficar insegura e com medo, mas eu sempre tento pensar nas coisas boas, com coragem, ânimo e fé. Eu oro muito quando saio da minha casa e quando chego também. Penso na minha filha e na minha família, mas tenho muita fé no meu coração que Deus está me protegendo e também protegendo todos nós aqui. O hospital está nos amparando muito bem com toda a estrutura, com todos os EPIs necessários, orientações e isso nos dá segurança. Então, mesmo diante de tudo isso, somos uma família, uma equipe forte e pronta a ajudar”, declara Gisela Silva.
Quanto ao momento de receber pacientes com suspeita do Covid-19, ela afirma que o medo natural surge, porém, não paralisa a atuação do seu trabalho.
“Os exames são feitos exatamente com aqueles que apresentam sintomas mais graves. Então praticamente todos os exames que coletamos são de pacientes com a possibilidade de estarem com o vírus. A preocupação é natural, mas o amor à profissão e a certeza de que estamos fazendo um trabalho pela saúde pública, nos leva a encarar essas situações como uma missão”, finaliza.
Garis

Orlando Batista é gari nas ruas de Campos; ele teme o vírus e o desemprego
Quando o gari Orlando Batista foi entrevistado pelo Terceira Via, ele não escondeu dois medos ou preocupações que sentia: do novo coronavírus e de ficar desempregado. Ele e muitos colegas foram colocados em férias coletivas, medida tomada por diversas empresas para reduzir despesas e riscos de contágio da Covid-19. Com o fechamento do comércio, a área central teve redução de pessoas circulando e, consequentemente, de lixo nas ruas.
“Muitos colegas seguem na ativa na coleta semanal de lixo nos bairros. Minha função é varrer e recolher a sujeira das ruas. É um trabalho que muitas pessoas não prestam atenção nem valorizam. Fico triste com a situação da cidade e do que está acontecendo no mundo por causa do vírus. Queria que a normalidade voltasse logo”, disse Orlando.
Motoristas de ônibus

Motorista Tiago Soares
Outra função indispensável neste momento é o transporte público. O motorista de ônibus Tiago Soares, 39 anos, conta que em um trajeto do Novo Jockey ou do Imperial ao Centro embarcavam e desembarcavam 120 passageiros, em média. “Atualmente, são 38 pessoas. Estamos nos arriscando, todos na rua estão. Uso máscara, mas é difícil. Não me sinto herói. Cumpro o meu trabalho. A população poderia reconhecer melhor o motorista”, diz.
Aos 62 anos, Valdecir Gomes diz que há 42 trabalha como motorista de ônibus. Ele faz a linha Uenf-Jockey-Centro. O profissional disse que ainda não usava máscara, pois dependia da direção da empresa. “Estou sempre lavando as mãos e usando álcool. Os rodoviários já foram valorizados, mas isso vem se acabando. É um momento difícil para todos nós, pois a saúde está ameaçada. Quero continuar trabalhando enquanto puder”, afirma.

Valdecir Gomes é motorista há 42 anos em Campos
Bancários

Presidente do Sindicato dos Bancários de Campos
Quem imaginaria que a profissão de bancário poderia um dia ser considerada “de risco”? Acostumados a trabalhar em um ambiente, na maioria dos casos, confortável, esses profissionais se veem, agora, expostos como poucos a um vírus que já matou milhares de pessoas em todo o mundo. Consideradas prestadoras de um serviço essencial, as agências bancárias permanecem abertas durante o período de isolamento social e, seja manuseando dinheiro, seja em contato direto com clientes, os bancários são os responsáveis por manter esse serviço em pleno funcionamento, mesmo que, para isso, precisem enfrentar o medo.
Gerente de uma agência situada no Centro de Campos, Gustavo Rosa tem tomado todas as previdências para evitar ao máximo os riscos. A instituição financeira em que ele trabalha afastou funcionários enquadrados no grupo de risco, disponibilizou equipamentos de proteção individual (EPIs) e oferece álcool em gel também para os clientes. Em reunião com os funcionários, Gustavo também decidiu implementar um revezamento: em uma semana, uma equipe trabalha na agência e outra em casa; na semana seguinte, os papéis se invertem.
“O que podemos fazer para amenizar a exposição, temos feito. Mas, ainda assim, o receio continua. Jamais passou pela nossa cabeça que poderíamos ser considerados profissionais que atuam em uma área de risco e agora nos vemos nessa situação… Antes, nosso medo era só de assalto. Agora, temos medo de um vírus invisível”, lamentou.
O presidente do Sindicato dos Bancários de Campos, Rafanele Alves, declarou que está em negociação constante com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban), solicitando que sejam tomadas providências e garantindo estruturas para os bancários trabalharem. Ele afirmou que apenas 30% do efetivo devem continuar indo às agências diariamente, conforme essas negociações, e também destacou o trabalho da Prefeitura de Campos e das forças de segurança na fiscalização das unidades da cidade. Inclusive, duas agências foram fechadas por não estarem adequadas às medidas de higiene e de contingenciamento de pessoal.
“Além disso, o Sindicato ainda está com carros de som orientando a população a respeitar o afastamento de 1,5 metros e, caso seja possível, a evitar ir até a agência e optar por resolver suas pendências pelos aplicativos. Isso vale principalmente para a Caixa Econômica, que nos últimos dias tem tido bastante aglomeração devido ao depósito do auxilio emergencial. As precauções para proteger o funcionalismo e os clientes vêm sendo tomadas, mas a verdade é que com um vírus como este, quem precisa se expor a ele pode, de fato, ser considerado um herói”, concluiu.
Carteiros

Correios mantêm atividades como a função de entrega pelos carteiros
Os carteiros sempre estiveram expostos: trabalhando diariamente nas ruas, eles precisam enfrentar o sol, a chuva e outras dificuldades para que as correspondências cheguem à casa de todos. Acontece que uma exposição como a que eles se colocam neste momento de transmissão comunitária do coronavírus tornou essa profissão ainda mais nobre e arriscada.
No caso dos Correios, não só os carteiros estão expostos: também aqueles que exercem funções internas, manuseado mercadorias, estão em risco constante. E, até o agora, apenas o álcool lhes foi fornecido. Essa informação foi passada por um funcionário que preferiu não identificar por medo de represálias. Segundo ele, máscaras e luvas ainda não foram distribuídas nas quatro agências de Campos e o medo é grande devido aos casos de mortes de carteiros no Rio de Janeiro, no Espírito Santo e em São Paulo.
Aproximadamente 50 carteiros são responsáveis por atender toda a cidade de Campos, mas aqueles que se enquadram em grupos de risco – trabalhadores com mais de 60 anos, com problemas respiratórios, hipertensos e diabéticos — foram afastados de suas funções durante a pandemia. Os carteiros também são orientados a não pedir a assinatura dos destinatários no momento da entrega. O sindicato da categoria já entrou com um pedido de ação civil pública com determinação judicial em caráter liminar para que a entidade forneça os EPIs, uma vez que, sem esses equipamentos, o risco continua.
“O temor existe porque a possibilidade de se contaminar no local de trabalho é grande. Somente na agência da Rocha Leão, por exemplo, há aproximadamente 60 servidores. E nós não estamos preparados para lidar com essa situação. Mas, apesar disso, continuamos”, afirmou o funcionário.
Por e-mail, os Correios garantiram que estão “atentos à proteção de empregados e clientes, com protocolos operacionais e profiláticos baseados nas orientações do Ministério da Saúde”. Ainda segundo a nota, entre as medidas já adotadas pela estatal estariam “o envio de orientação a todos os empregados quanto aos cuidados básicos de higiene; a disponibilização de álcool gel 70%; máscaras para os carteiros e operadores de triagem; e intensificação de procedimentos de higienização e limpeza do ambiente e equipamentos”.
As entregas continuam ocorrendo em todo o país e algumas agências sofreram ajustes temporários no horário de funcionamento, mas sem prejuízo da continuidade e da oferta de serviços e produtos à população.
Apesar das medidas tomadas por governadores e prefeitos para que haja um maior recolhimento das pessoas em casa para evitar a proliferação do coronavírus, muitos profissionais não podem seguir essas determinações, muito menos os conselhos do “fique em casa”. É o caso dos frentistas que estão na linha de frente da batalha.
Frentistas

Romário da Silva é frentista (Foto; Carlos Grevi)
O Romário da Silva tem 46 anos e 20 deles dedicados a um posto de combustível, na Avenida 28 de Março, na altura do Parque Santo Amaro, em Campos. Ele, atualmente é gerente de pista do posto e trabalha oito horas por dia, de segunda a sábado, lidando com diversas pessoas.
“Nós aqui não conseguimos trabalhar de casa, o combustível não para. É essencial estar aqui atendendo todo dia, mesmo alguns clientes estando receosos em sair da residência. Aqui a gente coloca máscara e sempre usa o álcool em gel, para não ser contaminado”, falou.
Por força da profissão, ele tem que ficar na pista do abastecimento de combustível dos veículos o tempo todo, auxiliando outros frentistas, além de manusear dinheiro e máquinas de cartões.
“O maior risco aqui mesmo é o dinheiro, porque botamos a mão, depois esquecemos e passamos no rosto. Mas, mesmo assim nós temos todos os cuidados, lavamos as mãos diariamente. Aqui a gente tem cautela”, disse.
O modo de prevenção do Romário é utilizar o álcool em gel, diferente dos outros trabalhadores do posto, que estão usando máscara, mas para ele, também existe outras maneiras de se proteger como chegar em casa e colocar toda roupa que foi usada no dia para lavar.
“Minha esposa fez uma cirurgia no pulmão, tem dificuldade de respirar e está no grupo de risco. Tenho três filhos também e me preocupo com eles. O cuidado tem que ser redobrado diariamente”, explicou.
Mesmo com o movimento no posto tendo caído em torno de 70%, por conta do isolamento social imposto pelas autoridades de saúde, Romário tem estado atento.
“Atendi no posto, recentemente, um casal que veio do Rio de Janeiro e na família tinha um parente com a Covid-19, mas que já foi curado. São muitos contatos e a pandemia está crescendo no Brasil, então temos que nos prevenir”, finalizou.
Atendentes de farmácia
A farmacêutica Carolina dos Santos é mais uma destas profissionais que precisa sair de casa para trabalhar mesmo durante este período de pandemia de coronavírus. Ela, que diz se cuidar com uso de máscara e luvas, precisa deixar as duas filhas pequenas em casa para ir ao trabalho e lida diretamente com várias pessoas todos os dias.
“Não tem jeito, nós estamos na linha de frente. Sou farmacêutica formada e trabalho na farmácia de uma unidade de saúde, então tenho contato com todos os tipos de pessoas. Este é o meu trabalho e eu preciso. Mas é triste pensar que posso pegar essa doença e levar para as minhas duas filhas pequenas, meu marido ou meus pais idosos por causa de pessoas que não estão se cuidando ou apesar de tudo não estão acreditando na doença. Nós também temos medo, mas não podemos deixar o trabalho. É preciso que haja conscientização de todos”, contou.
Caminhoneiros

Josiel Machado é caminhoneiro há 30 anos (Foto: Reprodução)
Desde 2018, quando mobilizaram uma grave que desestruturou o país, os caminhoneiros já mostraram o seu valor. Ficou claro, à época, que, sem eles, o Brasil para. Agora, diante da crise causada pelo novo coronavírus, mais uma vez esses profissionais mostram-se imprescindíveis: são eles os responsáveis por levar alimentos e insumos aos estados e municípios, garantindo, mesmo em risco, a segurança daqueles que podem ficar em casa. Tanto que, em Campos, a primeira vítima fatal da covid-19 foi, justamente, um caminheiro que exercia seu trabalho. Trabalho esse digno de um herói.
Há 30 anos nas estradas, Josiel Machado, disse estar apavorado como nunca. Ele, mesmo evitando descer do caminhão, mantendo a distância das pessoas e seguindo as recomendações de higiene, perde noites de sono pensando no perigo que o cerca e na situação arriscada em que coloca sua família. Ainda mais após a notícia de que seu colega de profissão faleceu acometido pela doença. Mas, ao mesmo tempo, Josiel encontra forças para continuar quando pensa na importância de sua função.
“Pela primeira vez eu fui parabenizado por um policial que disse que nós, os caminhoneiros, somos aqueles que se arriscam diariamente para manter a comida na mesa de todos. Também tenho recebido muito carinho das pessoas que encontro e quando vejo nos letreiros da BR-101 e da Ponte Rio-Niterói o reconhecimento do meu trabalho, fico feliz apesar do medo”, declarou.
Fonte: Terceira Via

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