Novas síndromes surgem e afetam comportamento social

Recluso | O estudante Hugo Lyrio está em casa desde o início da quarentena
Muitos campistas e pessoas no Brasil afora estão desde o início da pandemia aqui no país sem sair de casa, praticando o isolamento social de fato. A intenção de todos é se proteger do novo coronavírus que ainda circula em nossa sociedade. E sim, essa é a alternativa mais indicada no momento. Mas, mesmo os que precisam sair – ainda que protegidos com máscaras e fazendo a higienização correta – podem não conseguir e tendem a se isolar ainda mais. Essa preocupação excessiva, ou melhor, o medo, já está fazendo com que especialistas comecem a analisar síndromes que ganharam mais evidência neste período de quarentena e outras que são descobertas à medida que a Covid-19 avança.

(Fotos: Carlos Grevi)
Síndrome do Fogo
O Jornal Terceira Via buscou o auxílio de especialistas para explicar comportamentos associados as Síndromes do Fogo e da Cabana, temas novos para a sociedade e que estão sendo discutidos e aprofundados. O psicólogo Luiz Antônio Cosmelli descreve a primeira, em que a sigla significa Fear Of Going Out, ou seja, o medo de sair de casa. Nesse momento, a pessoa tem pavor em quebrar o isolamento, por mais que precise realizar uma atividade muito importante, e assim acabar sendo contaminada pelo vírus. “Podemos começar refletindo que a pandemia foi um evento inesperado, com repercussão mundial e a sociedade como um todo não estava preparada psicologicamente para os seus efeitos colaterais”, diz.
Para Cosmelli, o temor excessivo é desencadeado por transtornos já presentes na mente humana. “Ansiedade, pânico, depressão, obsessão, como ‘mania de limpeza’, ou até por uma preocupação excessiva e coletiva quanto ao instinto de sobrevivência pessoal e familiar”, frisa.
A psicóloga Cida Chagas ainda acrescenta que embora a pandemia seja um evento atípico, as síndromes estão em constante evolução e as estatísticas crescem de maneira avassaladora trazendo evidências de como é imprescindível o cuidado da saúde mental para uma melhor qualidade de vida. “Quando a quarentena chegou, eu percebi que a adaptação a esse cenário tem sido difícil para muitas pessoas. As mudanças drásticas e o isolamento social contribuíram para que elas se sentissem perdidas, estressadas, angustiadas, inseguras e com muito medo. A expressão ‘a situação fugiu do meu controle’ nunca foi tão real e cruel”, pontua.
A especialista ainda relata que o medo é uma emoção extremamente necessária à sobrevivência. Diante de uma situação de perigo ou ameaça é gerado um circuito cerebral que produz uma série de efeitos no organismo que nos ajuda a buscar defesa. “Porém, o medo é um dos sintomas da síndrome do pânico, quando surge em níveis bem acima dos normais. Com isso, muitas pessoas em momentos de crise mudam o comportamento. A pandemia foi uma espécie de gatilho para o surgimento de novas demandas. Hoje, com a flexibilização da quarentena existem relatos de pessoas apresentando resistência a retomada da rotina com medo excessivo de sair de casa, buscando assim não ter contato com a sociedade”, revela.

Tratamento | Psicólogo indica ajuda em caso de extrema angústia
Síndrome da Cabana
Já o termo da segunda síndrome surgiu em 1900 e ainda assim começa a ganhar destaque neste momento. A Síndrome da Cabana na pandemia representa o desespero de algumas pessoas que não querem acabar com o isolamento. É um fenômeno natural. Segundo o psicólogo, é o medo causado pelo longo período de isolamento e consequentemente de se relacionar socialmente e voltar a ‘vida normal’. “Tem esse nome porque foi percebido em caçadores que ficavam muito tempo isolados, em clima instável, sem poder sair de suas cabanas. São pessoas que temem sair de casa, mesmo em uma situação já estável da doença. Os primeiros sinais podem ser físicos e/ou psicológicos, como ansiedade, suor frio, taquicardia, rituais obsessivos, choro e outras manifestações incontroláveis”, revela Cosmelli.
Sem sair de casa
O estudante Hugo Lyrio de Mattos, de 15 anos, está desde início da pandemia e a suspensão das aulas presencias sem sair de casa, cumprindo o isolamento social. Para o adolescente, sair representa um risco, mas ao mesmo tempo significa preservar a vida dele e de seus familiares. “Acho que as pessoas que têm esse comportamento de sair sem necessidade real estão correndo um grande risco e colocando sua família em risco também. Ainda que eu tenha a sensação estar preso há meses, por causa da pandemia, sinto que estou tendo cuidado, já que não tenho a necessidade de sair. Quando meus pais precisam ir a rua, peço para que eles não tirem as máscaras, não entrem em contato com ninguém e usem álcool em gel para fazer a higiene”, conta.
Cumprindo o isolamento
O Jornal Terceira Via ainda conversou com três pessoas que estão em casa seguindo a quarentena desde o início dos casos e das recomendações em Campos. Elas não foram diagnosticadas com algum transtorno psicológico, mas ambas relatam medo de sair e serem infectadas pelo novo coronavírus.
A servidora Fabiana Nunes teve sua primeira filha poucos dias antes desta publicação. Ela garante que, por causa do medo de ter covid, ficou em casa desde o dia 16 de março e continua até os dias atuais. Ela saía apenas para as consultas médicas relacionadas à gestação e para o parto. “Tenho cuidado redobrado desde sempre. Eu tenho medo de sair na rua e medo de qualquer pessoa que chega perto de mim. Inclusive, em uma consulta, minha pressão diminuiu porque eu fiquei nervosa quando duas pessoas chegaram muito perto enquanto eu esperava para ser atendida. Até se eu estiver na rua e uma pessoa vier na minha direção, eu mudo de lado porque fico nervosa”, relatou.
Ela não é a única nesta situação. A dona de casa Kathelin Cabral relata ainda que o medo faz com que ela tenha picos de ansiedade. “Raramente eu saio de casa e estou com muito medo e muito ansiosa com essa situação. Às vezes, quero fazer uma caminhada e não consigo. Fico o tempo todo andando dentro de casa. Quando não tem jeito e eu preciso mesmo sair, fico extremamente apavorada com medo de pegar esse vírus e de passar para outras pessoas. Além da máscara, eu só saio com meu álcool na mão”.
Quem também se sentiu afetada pelo medo de sair nas ruas foi a publicitária Ana (nome fictício). Ela, que preferiu não se identificar, chegou a tratar o assunto com um terapeuta por meio de consultas online. “Nos dois primeiros meses da quarentena foi péssimo. Quando eu precisava sair, eu voltava para casa com dor na garganta, dor de cabeça, coriza… eu achava que era só sair de casa que os sintomas apareciam. Eu logo associei que poderia ser algo psicológico. Conversei com meu terapeuta sobre o assunto e acho que, com o passar do tempo, estou ficando mais tranquila. Mas ainda hoje, sempre que eu preciso sair, em casos realmente necessários, eu desço quatro andares do meu prédio de escada, porque fiquei com medo do elevador, por ser local fechado”, desabafou.
Pedindo ajuda
Em situações atípicas de medo excessivo e extrema angústia ao sair de casa, a recomendação é procurar ajuda. Para o psicológo, Luiz Antônio Cosmelli, deve-se solicitar auxílio especializado, a partir do momento em que os sintomas estão fora de controle e causando sofrimento. “Uma alternativa é tentar trabalhar com o real. Deve-se lembrar que existe uma pandemia que exige cuidados; que é preciso obedecer aos critérios científicos de proteção a si e aos outros; evitar excesso ou negligência com os cuidados prescritos, ocupar seu tempo não só com notícias sobre a pandemia; ter paciência em relação à possibilidade da vacina e aproveitar para fazer tudo aquilo que precisava fazer em casa e não fazia porque acreditava não ter tempo!”, completa.
Cida Chagas ainda aconselha que é preciso entender que o medo do “novo” vai surgir e está tudo bem. “Respeite seu tempo nas retomadas das relações sociais; crie uma rotina parecida com o que fazia antes do isolamento que te causava bem estar; agregue atividade física e boa alimentação ao seu cotidiano e a psicoterapia ajuda muito em todos os processos da vida e deve ser acionada de forma preventiva”, garante.

Recluso | O estudante Hugo Lyrio está em casa desde o início da quarentena
Muitos campistas e pessoas no Brasil afora estão desde o início da pandemia aqui no país sem sair de casa, praticando o isolamento social de fato. A intenção de todos é se proteger do novo coronavírus que ainda circula em nossa sociedade. E sim, essa é a alternativa mais indicada no momento. Mas, mesmo os que precisam sair – ainda que protegidos com máscaras e fazendo a higienização correta – podem não conseguir e tendem a se isolar ainda mais. Essa preocupação excessiva, ou melhor, o medo, já está fazendo com que especialistas comecem a analisar síndromes que ganharam mais evidência neste período de quarentena e outras que são descobertas à medida que a Covid-19 avança.

(Fotos: Carlos Grevi)
Síndrome do Fogo
O Jornal Terceira Via buscou o auxílio de especialistas para explicar comportamentos associados as Síndromes do Fogo e da Cabana, temas novos para a sociedade e que estão sendo discutidos e aprofundados. O psicólogo Luiz Antônio Cosmelli descreve a primeira, em que a sigla significa Fear Of Going Out, ou seja, o medo de sair de casa. Nesse momento, a pessoa tem pavor em quebrar o isolamento, por mais que precise realizar uma atividade muito importante, e assim acabar sendo contaminada pelo vírus. “Podemos começar refletindo que a pandemia foi um evento inesperado, com repercussão mundial e a sociedade como um todo não estava preparada psicologicamente para os seus efeitos colaterais”, diz.
Para Cosmelli, o temor excessivo é desencadeado por transtornos já presentes na mente humana. “Ansiedade, pânico, depressão, obsessão, como ‘mania de limpeza’, ou até por uma preocupação excessiva e coletiva quanto ao instinto de sobrevivência pessoal e familiar”, frisa.
A psicóloga Cida Chagas ainda acrescenta que embora a pandemia seja um evento atípico, as síndromes estão em constante evolução e as estatísticas crescem de maneira avassaladora trazendo evidências de como é imprescindível o cuidado da saúde mental para uma melhor qualidade de vida. “Quando a quarentena chegou, eu percebi que a adaptação a esse cenário tem sido difícil para muitas pessoas. As mudanças drásticas e o isolamento social contribuíram para que elas se sentissem perdidas, estressadas, angustiadas, inseguras e com muito medo. A expressão ‘a situação fugiu do meu controle’ nunca foi tão real e cruel”, pontua.
A especialista ainda relata que o medo é uma emoção extremamente necessária à sobrevivência. Diante de uma situação de perigo ou ameaça é gerado um circuito cerebral que produz uma série de efeitos no organismo que nos ajuda a buscar defesa. “Porém, o medo é um dos sintomas da síndrome do pânico, quando surge em níveis bem acima dos normais. Com isso, muitas pessoas em momentos de crise mudam o comportamento. A pandemia foi uma espécie de gatilho para o surgimento de novas demandas. Hoje, com a flexibilização da quarentena existem relatos de pessoas apresentando resistência a retomada da rotina com medo excessivo de sair de casa, buscando assim não ter contato com a sociedade”, revela.

Tratamento | Psicólogo indica ajuda em caso de extrema angústia
Síndrome da Cabana
Já o termo da segunda síndrome surgiu em 1900 e ainda assim começa a ganhar destaque neste momento. A Síndrome da Cabana na pandemia representa o desespero de algumas pessoas que não querem acabar com o isolamento. É um fenômeno natural. Segundo o psicólogo, é o medo causado pelo longo período de isolamento e consequentemente de se relacionar socialmente e voltar a ‘vida normal’. “Tem esse nome porque foi percebido em caçadores que ficavam muito tempo isolados, em clima instável, sem poder sair de suas cabanas. São pessoas que temem sair de casa, mesmo em uma situação já estável da doença. Os primeiros sinais podem ser físicos e/ou psicológicos, como ansiedade, suor frio, taquicardia, rituais obsessivos, choro e outras manifestações incontroláveis”, revela Cosmelli.
Sem sair de casa
O estudante Hugo Lyrio de Mattos, de 15 anos, está desde início da pandemia e a suspensão das aulas presencias sem sair de casa, cumprindo o isolamento social. Para o adolescente, sair representa um risco, mas ao mesmo tempo significa preservar a vida dele e de seus familiares. “Acho que as pessoas que têm esse comportamento de sair sem necessidade real estão correndo um grande risco e colocando sua família em risco também. Ainda que eu tenha a sensação estar preso há meses, por causa da pandemia, sinto que estou tendo cuidado, já que não tenho a necessidade de sair. Quando meus pais precisam ir a rua, peço para que eles não tirem as máscaras, não entrem em contato com ninguém e usem álcool em gel para fazer a higiene”, conta.
Cumprindo o isolamento
O Jornal Terceira Via ainda conversou com três pessoas que estão em casa seguindo a quarentena desde o início dos casos e das recomendações em Campos. Elas não foram diagnosticadas com algum transtorno psicológico, mas ambas relatam medo de sair e serem infectadas pelo novo coronavírus.
A servidora Fabiana Nunes teve sua primeira filha poucos dias antes desta publicação. Ela garante que, por causa do medo de ter covid, ficou em casa desde o dia 16 de março e continua até os dias atuais. Ela saía apenas para as consultas médicas relacionadas à gestação e para o parto. “Tenho cuidado redobrado desde sempre. Eu tenho medo de sair na rua e medo de qualquer pessoa que chega perto de mim. Inclusive, em uma consulta, minha pressão diminuiu porque eu fiquei nervosa quando duas pessoas chegaram muito perto enquanto eu esperava para ser atendida. Até se eu estiver na rua e uma pessoa vier na minha direção, eu mudo de lado porque fico nervosa”, relatou.
Ela não é a única nesta situação. A dona de casa Kathelin Cabral relata ainda que o medo faz com que ela tenha picos de ansiedade. “Raramente eu saio de casa e estou com muito medo e muito ansiosa com essa situação. Às vezes, quero fazer uma caminhada e não consigo. Fico o tempo todo andando dentro de casa. Quando não tem jeito e eu preciso mesmo sair, fico extremamente apavorada com medo de pegar esse vírus e de passar para outras pessoas. Além da máscara, eu só saio com meu álcool na mão”.
Quem também se sentiu afetada pelo medo de sair nas ruas foi a publicitária Ana (nome fictício). Ela, que preferiu não se identificar, chegou a tratar o assunto com um terapeuta por meio de consultas online. “Nos dois primeiros meses da quarentena foi péssimo. Quando eu precisava sair, eu voltava para casa com dor na garganta, dor de cabeça, coriza… eu achava que era só sair de casa que os sintomas apareciam. Eu logo associei que poderia ser algo psicológico. Conversei com meu terapeuta sobre o assunto e acho que, com o passar do tempo, estou ficando mais tranquila. Mas ainda hoje, sempre que eu preciso sair, em casos realmente necessários, eu desço quatro andares do meu prédio de escada, porque fiquei com medo do elevador, por ser local fechado”, desabafou.
Pedindo ajuda
Em situações atípicas de medo excessivo e extrema angústia ao sair de casa, a recomendação é procurar ajuda. Para o psicológo, Luiz Antônio Cosmelli, deve-se solicitar auxílio especializado, a partir do momento em que os sintomas estão fora de controle e causando sofrimento. “Uma alternativa é tentar trabalhar com o real. Deve-se lembrar que existe uma pandemia que exige cuidados; que é preciso obedecer aos critérios científicos de proteção a si e aos outros; evitar excesso ou negligência com os cuidados prescritos, ocupar seu tempo não só com notícias sobre a pandemia; ter paciência em relação à possibilidade da vacina e aproveitar para fazer tudo aquilo que precisava fazer em casa e não fazia porque acreditava não ter tempo!”, completa.
Cida Chagas ainda aconselha que é preciso entender que o medo do “novo” vai surgir e está tudo bem. “Respeite seu tempo nas retomadas das relações sociais; crie uma rotina parecida com o que fazia antes do isolamento que te causava bem estar; agregue atividade física e boa alimentação ao seu cotidiano e a psicoterapia ajuda muito em todos os processos da vida e deve ser acionada de forma preventiva”, garante.
Fonte Terceira Via


Nenhum comentário:
Postar um comentário