domingo, 23 de agosto de 2020

Eleições 2020: especialistas falam sobre desafios eleitorais em tempos de pandemia

 RHYANN SOUZA (ESTAGIÁRIO)

Reprodução

O time composto por Roberto Moraes, Ranulfo Vidigal, José Alves de Azevedo Neto, Roberto Dutra, André Altoé , José Luis Vianna e Rodrigo Florencio, falaram sobre as condições divergentes eleitorais de 2020.

O atípico ano de 2020, ano de eleições municipais em todo Brasil, ainda é uma incógnita para candidatos e eleitores. A pandemia da Covid-19 traz à tona uma dúvida no ar: quais serão os próximos passos daqui em diante? Dúvidas que provavelmente devem martelar a cabeça do eleitor brasileiro em um ano tão atípico.

Para tirar essas dúvidas, o site Ururau conversou com verdadeiras autoridades no assunto. Sociólogos, economistas, jornalistas, doutores e mestres em ciências socias, fizeram parte dessa matéria especial. O time composto por Roberto Moraes, Ranulfo Vidigal, José Alves de Azevedo Neto, Roberto Dutra, André Altoé , José Luis Vianna e Rodrigo Florencio, falaram sobre as condições divergentes eleitorais de 2020.

O Engenheiro e professor titular "sênior" do IFF Campos Centro, Pesquisador atuante nos temas: Circuito Econômico Petróleo-Porto; Geopolítica da Energia; Capitalismo de Plataformas; Espaço-Economia e Financeirização no Capitalismo Contemporâneo, e Membro da Rede Latinoamericana de Investigadores em Espaço-Economia: Geografia Econômica e Economia Política (RELAEE), Roberto Moraes, falou sobre a pluralidade dos votos, frisando que eleição é conversa, diálogo e convencimento.

“Eleição é conversa, diálogo, convencimento e renovação das esperanças com a hipótese de escolha de novos representantes no parlamento e no executivo. Em especial, no plano dos municípios, onde o representante está mais perto do representado. Nesta ótica, é evidente que o isolamento social gerado como forma de evitar a contaminação da Covid, trará enormes repercussões sobre como os eleitores serão contatados (ou não) para a definição das escolhas dos votos. Todos nós sabemos que teremos um esforço dos candidatos para ampliação da abordagem digital para esse convencimento dos eleitores. O isolamento social tende a trazer vantagens para quem já é conhecido como político e como candidato à reeleição. De outro lado, no caso de Campos em especial, há uma enorme rejeição a boa parte dos atuais representantes, por não conseguirem conter a crise econômica que se abate em todas as áreas e setores. Debate que hoje já se vê espalhado pelas redes sociais. Além disso, após a eleições de 2018, quando as fake news, ajudaram muito a determinar o resultado eleitoral nacional, agora em 2020, haverá um controle maior sobre estes desvios. Além disso, as fake news no município, têm repercussão mais rápida e seus autores poderão ser mais facilmente localizados. E neste campo se terá uma outra disputa: midiático-jurídica. Nesse sentido, essas eleições poderão ser muito diferentes de tudo que já se viu antes. Mais que todos os outros mecanismos de redes digitais, o WhatsApp será novamente, a ferramenta mais potente para se chegar ao eleitor, mas a forma de abordagem pode trazer mais problemas que votos”

O gabaritado economista Ranulfo Vidigal, falou sobre os principais desafios do próximo governo municipal. Vidigal afirma que com a escassez dos recursos públicos, o grande desafio do próximo governante de Campos, é garantir os salários em dia, e o funcionamento dos serviços básicos municipais.

“Com recursos escassos, o desafio do governo municipal é garantir salários em dia e o funcionamento dos serviços básicos, como coleta de lixo, luz pública, saúde básica, trânsito, etc. O novo prefeito vai forçosamente que propor uma concertação com todos os atores estratégicos para redesenhar o poder público capaz de planejar a retomada da economia local, no pós-pandemia. Com dinheiro curto e crescente papel das redes sociais, o papel da comunicação tradicional vai ser menor no pleito que se avizinha.”

O também economista José Alves de Azevedo Neto, que contém em seu currículo uma vasta experiência no âmbito econômico, frisou a diferença dessa eleição municipal de 2020, em relação a pleitos anteriores. Para o economista, a internet terá um papel fundamental na construção do voto popular.

“Essa eleição é uma eleição diferenciada. A eleição desse ano será de rede social, uma vez que os candidatos vão até poder visitar os eleitores, mas tem que saber primeiro se os eleitores vão querer receber os candidatos, diante dessa conjuntura de pandemia. A mídia batendo, são mais de 100 mil mortos no Brasil, e a gente percebe que a sociedade está um pouco assustada. Pra gente receber alguém estranho em nossa casa, vai dar trabalho. Em relação a questão deficitária, eu entendo que os partidos vão enfrentar bem essa questão. Eu não vejo essa questão como deficitária, eu acho que será uma eleição de baixo custo, pois as propagandas serão veiculadas via rede social. A verba do partido, obviamente, que alguns candidatos vão receber. Mas eu percebo, essa é minha visão, que no final das contas, o custo não será muito alto, devido essa situação atípica, essa conjuntura vai fazer com que os candidatos repensem as suas respectivas estratégicas de campanhas. O custo será via rede social, e o custo operacional do dia a dia será menor, por conta dessa crise sanitária. O grosso mesmo será em rede social, apesar de terem gastos com outdoors, panfletagem e etc. Muitos pré-candidatos já estão investindo fortemente em lives, por exemplo.”

Para o doutor em Sociologia formado pela Universidade Humboldt de Berlim, e também professor da Uenf (Universidade Estadual do Norte Fluminense), Roberto Dutra, a crise fiscal do estado do Rio foi agravada ainda mais pela pandemia da Covid-19. Dutra ainda complementa a sua fala citando o modo dependente que o estado trata a questão da indústria e do petróleo.

“A crise fiscal e econômica do estado do Rio de Janeiro foi agravada pela pandemia da Covid-19. A suspensão das atividades econômicas tem impacto negativo sobre as receitas, que já estão gravemente comprometidas desde o fim do ciclo de alta do preço do barril do petróleo. Além disso, nenhum estado foi tão impactado pelas consequências econômicas destrutivas da operação lava jato quanto nosso estado, o que afetou especialmente a região norte-fluminense. Olhando retrospectivamente vemos como a dependência econômica da indústria do petróleo e a dependência fiscal das receitas oriundas desta atividade (royalties e participações especiais) são responsáveis pela frágil situação de nosso estado. A economia e por consequência as receitas do estado se assentam sob uma base pouco complexa e diversificada. A crise política está associada de dois modos com esta situação econômica e fiscal: de um lado, a crise econômica e fiscal aumenta as demandas de políticas e de gasto público, e de outro ela compromete as capacidades estatais de atender estas demandas.”

Graduado em Ciências Sociais, mestre em Ciência Política e doutorado em Sociologia Política e professor de Sociologia do IFF-Guarus, André Altoé, analisou o cenário político desse ano. Para Altoé, a pandemia terá reflexos claros no pleito eleitoral. O sociólogo ainda acredita em chances reais no aumento das taxas de abstenções.

“É importante dizer que a pandemia do novo coronavírus tem reflexos claros no pleito eleitoral deste ano. Eleição pressupõe aglomeração, tanto no dia da votação quando os eleitores fazem filas para votar, quanto em momentos anteriores, no contato físico entre o candidato e o eleitor, o “corpo a corpo” nas ruas, os apertos de mão, os abraços e até nos comícios que ultimamente caíram em desuso. Fazer campanha com distanciamento social traz novos desafios para os candidatos nas eleições de 2020. Além disso, temos chances reais de um aumento nas taxas de abstenção em relação à eleição municipal de 2016. Deve-se considerar que pessoas que pertencem ao grupo de risco para Covid-19 e que não são obrigados a votar podem desistir de ir à seção eleitoral. É o caso de eleitores com mais de 70 anos, por exemplo.

Neste sentido, podemos ter a migração da campanha eleitoral para o ambiente digital. A eleição presidencial de 2018 nos mostrou como pode ser eficaz, na era dos Smartphones, captar votos através de ambientes virtuais como o Facebook e o WhatsApp e, no caso do atual pleito municipal, a relevância destes instrumentos deve ser ainda maior. Os candidatos com capacidade de gerir de forma eficiente estas plataformas digitais para se comunicar com o eleitor têm mais chance de obter êxito. É importante ressaltar que as questões ideológicas sempre são importantes na definição do voto. Existe uma probabilidade maior de um eleitor votar em um candidato que esteja mais próximo a ele dentro do espectro ideológico. Em uma eleição com vários candidatos, o eleitor tende a escolher aquele que está mais próximo de suas preferências.

No entanto, eu não apostaria em uma eleição com radicalização ideológica como nós tivemos em 2018. As motivações para a escolha de prefeitos e vereadores são outras. A lógica do pleito municipal favorece a discussão sobre a solução de problemas da sua cidade, o que leva ao predomínio de discussões mais pragmáticas do que ideológicas, pois cada cidade tem seus problemas específicos. Como vivemos uma pandemia, os temas centrais devem girar em torno da saúde pública e da geração de empregos no âmbito local. Por outro lado, não imagino uma campanha marcada pela discussão de pautas identitárias ou sobre valores como observamos na última eleição presidencial o que pode favorecer a eleição de um candidato mais moderado.”

Segundo o Cientista Social, Professor da Pós-Graduação da UFF (Universidade Federal Fluminense) e da UCAM (Universidade Candido Mendes), Mestre e Doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e especialista em Planejamento do Desenvolvimento Regional pela UE (União Europeia), José Luiz Vianna, as precipitações com soluções radicais é algo execrável nesse contexto de pandemia.

“A pandemia só agravou um quadro tanto em Campos, como no Brasil todo, de uma crise econômica, de uma recessão, com desemprego, com sub-emprego. No caso de Campos, e dos municípios produtores de petróleo aqui da região, isso foi agravado pela conjuntura dos preços do trabalho, declínio da produção da bacia de Campos, uma redução muito séria e grave, num volume de royalties de produção repassado para a prefeitura. Então esse é quadro que estão acontecendo as eleições de 2020 que o próximo prefeito irá encontrar. A crise veio, assim como a crise do final do ciclo do açúcar, porque nós éramos uma monocultura. Quando ela desabou, arrastou a economia de Campos inteira, arrastou o município inteiro. Ficamos dependente do petróleo também, então virou uma nova monocultura, dependente das rendas petrolíferas, e o petróleo é um tipo de produto que tem data marcada pra se esgotar, e muito vulnerável ao mercado internacional. O Brasil e os municípios produtores, não tem nenhum controle sobre as condições que influem nas condições do petróleo, que influi na produção também, que é uma guerra entre países e que com isso então, faz com que as rendas de participações dos royalties oscilem muito, entre U$ 100,00 pra alguns depois ser menos de U$20,00 . Isso quebra qualquer um que atrela a sua economia e seu orçamento as rendas do petróleo. A redução do orçamento é tão acentuada e as perspectivas da indústria petrolífera na região são tão pessimistas, que parece não haver solução no horizonte, a não ser o Ajuste Fiscal, cortando despesas importantes, começando com a demissão de servidores. Considero isto uma simplificação da questão, além de um equívoco e uma grande injustiça, carente de um exame mais profundo da complexidade do contexto e da conjuntura em que estamos inseridos. É precipitado partir logo para soluções radicais, como se servissem para qualquer caso."

O jornalista e especialista em Marketing Digital, certificado em Google Ads e diretor da Ímpar Comunicação, agência especializada em marketing digital e político há 16 anos, Rodrigo Florencio, destacou a complexidade desse ano eleitoral. Florencio cita a importância de uma boa estratégia digital nas redes sociais.

"A forma de fazer a campanha será diferente para todos. Muitas ações tradicionais não acontecerão ou serão muito reduzidas devido a pandemia. Por isso, mais do que nunca vai prevalecer a estratégia digital nas redes sociais, especialmente o Facebook, Instagram e Whatsapp. Não adianta o candidato achar que vai fazer campanha só com postagens no Face e disparos de whasthap. Essas plataformas vão bloquea-los se eles não fizerem conforme as regras. E mais: candidatos serão impugnadas por usar as redes equivocadamente, caindo nos impedimentos previstos pelo TSE. Os bons profissionais de comunicação terão muito espaço neste período, especialmente os que dominam as estratégias de otimização, tráfego e impulsionamento nas redes sociais".
Fonte: Rhyann Souza

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