segunda-feira, 22 de março de 2021

Gravidez na adolescência: consequências para toda vida

Em uma semana, obstetra Sumara Valinho fez quatro partos neste público em Campos

POR GIRLANE RODRIGUES
Sumara Valinho, obstetra

Embora não seja mais tabu e haja pouco preconceito sobre a gravidez na adolescência, esse fenômeno que explodiu nos anos 90 e continua em evidência no Brasil revela uma triste realidade com consequências que podem perdurar por toda a vida, tanto da mãe quanto da criança. A ginecologista e obstetra Sumara Valinho contabilizou quatro casos em uma semana de trabalho em Campos e demonstrou preocupação.
“Nos últimos dias prestei assistência ao parto a quatro adolescentes, uma com 17 anos já na terceira cesariana, outras duas com 16 anos, grávidas pela primeira vez, e uma menor que deu à luz aos 13 anos por parto normal. Isso é muito arriscado, mas é real”, lamenta.

Segundo a médica, a gravidez na adolescência é fator de risco para parto prematuro e desproporção pélvica-fetal – quando a pelve da mãe é estreita e não permite uma acomodação ideal do feto e dificulta a passagem da cabeça do bebê na hora do parto. Além disso, sugere Sumara, pode gerar outras complicações obstétricas durante o parto, como o aumento da necessidade de cesariana. “Sem contar que a maioria dessas meninas faz seguimento incompleto da gestação, com início tardio de pré-natal dificultando a identificação precoce de certas doenças e prevenção de outras. Não é incomum a negação quanto ao estado atual e rejeição ao bebê, além da maioria não contar com o apoio de suas famílias”, conta.

E os problemas não param por aí. A gravidez na adolescência normalmente não é programada e provoca mudanças no corpo da menor, afetando a autoestima. “Muitas também têm dificuldades para aceitação do ‘novo momento’, o que pode levar a consequências muitas vezes irreversíveis por toda a vida da menina”.
Se para a adolescente, uma gravidez indesejada é sinônimo de risco, o problema desencadeia uma espécie de efeito cascata, atingindo também o bebê que nasce nessa condição. “É bastante comum os bebês apresentarem baixo peso ao nascer, por terem tido crescimento intrauterino restrito e muitos com necessidade de cuidados especiais em UTIs.
Profissional alerta sobre os perigos

Falta informação?
Vários fatores contribuem para o aumento de casos de gravidez na adolescência: desinformação sobre sexualidade e desconhecimento sobre direitos sexuais e reprodutivos são alguns deles, afirma Sumara.
“Trabalhei por cerca de dez anos no Centro de Referência da Criança e do Adolescente em nossa cidade, percebi que a vida sexual tem iniciado cada vez mais cedo, a sensação de ‘maturidade’ e ‘controle do corpo’ leva a despreocupação com o comportamento sexual e suas consequências”, disse.

Mas a gravidez não é o único problema da sexualidade precoce. Sumara alerta também sobre o aumento das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), o abandono escolar, as alterações psicológicas, emocionais e comportamentais.

Prevenção
O Ministério da Saúde ressalta que a educação sexual integrada e compreensiva faz parte da promoção do bem-estar de adolescentes e jovens ao realçar a importância do comportamento sexual responsável, o respeito pelo outro, assim como a proteção da gravidez inoportuna, a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis/HIV, a defesa contra violência sexual incestuosa, bem como outras violências e abusos.

Mas por onde começar? “Acredito que um dos maiores fatores de prevenção é a educação acompanhada por informação de qualidade e apoio. Precisamos manter um diálogo aberto com nossos adolescentes, proteger nossas meninas. Acredito que quanto mais cedo conversarmos com nossos jovens, explicarmos sobre as consequências de seus atos, instruirmos quanto a sexualidade e aumentarmos suas oportunidades, maior chance de sucesso teremos. Todos precisamos acreditar nisso e prepararmos nossos filhos, alunos, sobrinhos, amigos, netos e pacientes. Estimular a consulta ginecológica assim que os primeiros sinais de puberdade aparecerem, oferecer informação baseada em evidências e atualizações, além de apoio e suporte para o conhecimento e proteção. O dever é de todos nós. Podemos contribuir para um futuro melhor para nossos jovens”, finaliza.

Estatística
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) a gravidez na adolescência é aquela que ocorre entre 10 e 20 anos incompletos. A taxa de gestação na adolescência no Brasil é bastante elevada, com cerca de 400 mil casos por ano. Para Sumara, isso é bastante sério e requer medidas urgentes de prevenção e cuidados.
Fonte Terceira Via

Nenhum comentário: