quarta-feira, 19 de maio de 2021

Desativação do CRDI deixa casos de dengue e chikungunya em Campos sem registros oficiais

Subnotificação das doenças causadas pelo mosquito Aedes Aegypti é cogitada pelo próprio Ministério da Saúde devido à pandemia de Covid

CRDI quando funcionava; equipamento foi fechado durante a gestão Rafael Diniz no início da pandemia (Foto: Arquivo)

Desde o início da pandemia de Covid-19, há mais de um ano, relatos sobre dengue, zika e chinkungunya, doenças provocadas pelo mosquito Aedes Aegypti desapareceram dos noticiários e das campanhas nacionais do governo federal. No entanto, as doenças continuam fazendo vítimas, inclusive em Campos. Em março de 2020, o Centro de Referência de Doenças Imuno-infecciosas (CRDI) deixou de funcionar. Por 19 anos, o equipamento municipal auxiliou no levantamento de dados e prestou atendimento aos doentes, vítimas da dengue e chikungunya. A reportagem do Terceira Via questionou a Secretaria de Saúde sobre a retomada das atividades do CRDI. O governo diz que estuda a possibilidade de reativá-lo, mas ainda não se sabe quando isto poderá ocorrer. Sobre os casos das doenças em Campos, por meio de nota, a Subsecretaria de Atenção Básica, Vigilância e Promoção da Saúde informa “que até o presente momento não há nenhum caso de dengue, zika e chikungunya notificado à Vigilância Epidemiológica Municipal”.


O médico e ex-diretor do CRDI, Luiz José Souza (Foto: Carlos Grevi/Arquivo)

O médico do SUS e do Hospital Plantadores de Cana, Luiz José de Souza, ex-diretor do CRDI, disse que desde o ano passado, os casos de dengue e chikungunya não fazem parte de um relatório da Prefeitura de Campos, desde a desativação do órgão e a criação do Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCCC), na gestão de Rafael Diniz. Segundo o médico, as doenças continuam existindo na cidade, mesmo sem notificação oficial.

“Só na última segunda-feira (17), atendi três pessoas em meu consultório com diagnóstico confirmado de chinkungunya. Há situações em que pessoas podem confundir os sintomas com os da Covid-19. Para tirar a prova, só com exames laboratoriais”, comentou.

Na semana passada, o Centro de Controle de Zoonoses de Campos anunciou o último resultado do 3º Levantamento Rápido de Índice de Infestação por Aedes Aegypti (LIRAa) em Campos. Foi de 3.9, considerado de risco moderado. A pesquisa foi realizada entre os dias 3 e 7 de maio durante 8 mil visitas domiciliares. Para o diretor do CCZ, Carlos Morales, o Lira é um levantamento de estimativa.


Diretor do CCZ, Carlos Morales (Foto: Arquivo)

“A ação do CCZ ajuda como mecanismo preventivo, já que o CRDI está fechado desde o ano passado, e não há notificações oficiais sobre casos de dengue, chinkungunya e zika. Por causa da pandemia, houve rejeição da população em receber agentes de endemia. Isto começa a melhorar. O agente não entra dentro das casas, ele vistoria apenas áreas externas. O lançamento digital do QR Code vai dar muito mais segurança. A população pode saber quem é o agente e sua área de atuação”, explicou.


Agentes de endemia do CCZ (Foto: Ilustração)

Casos na cidade e no país

A reportagem do Terceira Via teve acesso a informações de dois laboratórios clínicos de Campos dos Goytacazes, sobre exames para detecção de dengue, zika e chinkungunya. Apesar de extra-oficiais, segundo levantamento de quase 700 pedidos de exames, nos três primeiros meses de 2021, cerca de 32% deram positivo para chikungunya, e quase 4% para dengue. Estes dados contrariariam a informação da Secretaria de Saúde que alegou até o momento desconhecer casos da doença no município.

De acordo com informações do site do Ministério da Saúde, houve uma grande redução de registros de dengue e chikungunya no país neste período de pandemia de Covid-19. “Desde fevereiro de 2020, o Brasil enfrenta uma pandemia do covid-19 e, desde a confirmação dos primeiros casos, observou-se uma diminuição dos registros de casos prováveis e óbitos de dengue. Esta diminuição pode ser consequência de uma subnotificação ou atraso nas notificações das arboviroses associadas a mobilização das equipes de vigilância e assistência”, afirma.

A situação epidemiológica nos três primeiros de 2021 revelou que foram notificados 103.595 casos prováveis (taxa de incidência 48,9 casos por 100 mil hab.) de dengue no Brasil. Em comparação com o ano de 2020, houve uma redução de 74,3 %. para o mesmo período analisado. Sobre os dados de chikungunya, foram notificados 7.778 casos prováveis (taxa de incidência de 3,7 casos por 100 mil hab.) no país.

A Secretaria de Saúde de Campos orienta que atualmente o atendimento ao paciente com suspeita de dengue, chikungunya e zika vírus é feito nas unidades de emergência e Pré-Hospitalares (UPHs) e comunicado/notificado através do Sistema de Informação de Agravos de Notificação–SINAN.

“As arboviroses são doenças de notificação compulsória, ou seja, todos os estabelecimentos de saúde (hospitais, postos de saúde, laboratórios, etc) devem realizar o preenchimento da ficha de notificação compulsória padronizada pelo Ministério de Saúde sempre que houver casos suspeitos ou confirmados da doença e encaminhar para a Vigilância Municipal de Saúde. Diante do avanço do COVID-19, desde 2020 a vigilância forneceu o endereço de e-mail para que fossem encaminhadas as fichas o mais rapidamente possível e minimizando o deslocamento (sinancampos@gmail.com)”, conclui a nota da Prefeitura de Campos.
Terceira Via/Show Francisco


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