segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Comércio aposta no Dia das Crianças

Apesar do cenário econômico desfavorável, setor crê no crescimento

Alta da inflação no país, que atingiu os dois dígitos nos últimos 12 meses, deixou os brinquedos para o Dia das Crianças ainda mais caros (Fotos: Carlos Grevi)

Por Marcos Curvello e Roberta Barcelos

Uma das datas mais importantes para o comércio nacional, junto do Natal, do Dia das Mães e do Dia dos Namorados, o Dia das Crianças gera expectativa especial entre os lojistas em 2021. O avanço da vacinação e a estimativa de crescimento do movimento prometem um feriado mais rentável que nos anos anteriores, marcados pela crise e pela pandemia. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) projeta o melhor desempenho do varejo desde 2015, com movimentação financeira de até R$ 7,43 bilhões. Em Campos, entidades ligadas ao setor prevêem crescimento de 15% nas vendas. Porém, especialistas alertam para a alta da inflação, que atingiu os dois dígitos nos últimos 12 meses e corrói o poder de compra da população. Com grande parte das famílias conduzindo o orçamento doméstico com mais rigor, o 12 de outubro pode se tornar uma espécie de termômetro para o desempenho econômico das festividades de fim de ano.

A dentista Laura Burla afirma que foi difícil encontrar o presente do Dias das Crianças para o seu filho José, de apenas 1 ano, que vai comemorar a data pela primeira vez. Para conseguir o menor preço, recorreu à boa e velha pesquisa.

“Encontrei uma diferença grande de preços para o mesmo brinquedo em duas diferentes lojas. A mesma motoca custa R$ 449 em uma loja e comprei por R$ 379 em outra. São R$ 70, que me permitiram comprar outro brinquedo”, conta Laura.

O enteado de Laura, Gabriel, de apenas 7 anos, deixou os brinquedos de lado e optou por um animal de estimação este ano. “Vou ganhar um jabuti e estou muito feliz! Pelo menos não vai pesar no bolso do meu pai”, comemora.
Luis Felipe conta que pagou mais caro este ano do que em 2020 para presentear o filho

Já o pequeno Luiz Felipe, de sete anos, escolheu um jogo de videogame. O pai, o advogado Luiz Felipe Capaverde, afirmou que pagou mais caro agora do que na última vez em que presenteou o filho com produto semelhante. Para lidar com a alta dos preços, a família criou uma estratégia.

“Quando o presente escolhido por ele tem um valor mais alto, todo mundo que quer presenteá-lo colabora com um valor. Assim, conseguimos dar um presente bacana para ele. Essa é a saída”, diz Luiz Felipe.
Laura pesquisou bastante para encontrar preços de brinquedos mais baratos

Comércio prevê aumento nas vendas

Em Campos, a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) estima aumento de 15% nas vendas. Presidente da entidade, José Francisco Rodrigues afirma que os comerciantes apostam em condições atrativas para atrair os clientes e aumentar o volume de vendas.

“A data é muito badalada, então acreditamos que vamos vender os 15% a mais previstos para 2021. O lojista vai também buscar promoções e até mesmo diminuir a sua margem de lucro para conseguir vender e atender a todos. Estamos atentos a tudo isso”, garante José Francisco.

O presidente da Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic), Leonardo Castro de Abreu projeta crescimento semelhante, na comparação com o ano passado, quando o cenário epidemiológico era mais grave e a vacinação contra a Covid-19 não havia sido iniciada.

“Os comerciantes estão otimistas para a data e acreditam que haverá um aumento em torno de 15% nas vendas para os Dia das Crianças, quando comparado ao mesmo período do ano passado, quando os brasileiros viviam o pico da pandemia da Covid-19”, opina Leonardo.

Dinheiro mais curto

De acordo com o economista Alexandre Delvaux, o otimismo dos lojistas é importante para aquecer o setor, mas os lucros do Dia das Crianças podem esbarrar na inflação, que, em setembro, passou dos 10% para o período de um ano.


“Nós temos um processo inflacionário que está preocupando as autoridades do país, pois a inflação representa perda de poder aquisitivo. E isso pode impactar tanto no Dia das Crianças quanto no Natal. Com o orçamento apertado, é provável que o consumidor dê prioridade a usar o dinheiro nas compras do supermercado, nas dívidas que estejam pendentes e somente o que sobrar, aquilo que for possível, aplicar em presentes”, avalia Delvaux.

Uma pesquisa feita pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) em todas as capitais aponta que 72% dos brasileiros devem ir às compras no Dia das Crianças. Mas, Delvaux chama a atenção para o desencontro que pode haver entre a intenção e as possibilidades reais dos consumidores.
Alexandre Delvax, economista

“Claro que essas avaliações são feitas a partir de entrevistas junto aos consumidores, mas uma coisa é o que o consumidor diz que vai fazer e outra é o que ele faz de fato”, ressalva, acrescentando que “esse entusiasmo é importante, é necessário para criar esse clima de otimismo, mas é preciso aguardar para ver”.

As entidades do setor, contudo, minimizam os possíveis efeitos da inflação sobre as vendas do Dia das Crianças. José Francisco Rodrigues aposta na tradição da data. “As pessoas vão presentear as crianças. São pais, avós, madrinhas e parentes que fazem um sacrifício muito grande para não deixar o dia passar em branco”, opina.
Leonardo Castro da ACIC

Já Leonardo Castro de Abreu lembra que parte do estoque foi adquirida previamente, em momentos de melhores condições econômicas. “O aumento do IPCA e do IGP-M deverá ter um impacto maior na economia nos próximos meses, coincidindo com o período do Natal. Para o Dia das Crianças, esses reajustes não devem influenciar, até porque estamos nas vésperas, e os empresários já renovaram seu estoque há meses”.
Fonte: Terceira Via

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