Sem salário fixo, profissionais que ocupam calçadas e sinais de trânsito em Campos sonham com a carteira assinada
POR CLÍCIA CRUZ
Na mesma proporção em que aumenta a taxa de informalidade no mercado de trabalho do Brasil, cresce o sonho da estabilidade que uma ocupação com carteira assinada dá. Com a recessão econômica agravada pela crise sanitária decorrente da pandemia do novo coronavírus, sinais de trânsito e calçadas se tornaram locais de trabalho para muitos campistas. É o caso de Robson Pimenta, que se viu desempregado de uma hora para outra. Ele trabalhou no mercado formal por oito anos e, depois de passar vários dias distribuindo currículos e tentando diversas vagas de emprego, o auxiliar de serviços gerais decidiu pegar o pouco dinheiro que lhe restava e comprar balas e chicletes para vender nos semáforos da cidade.
O tempo passou e, há mais de quatro anos, Robson permanece sem conseguir a sonhada vaga no mercado formal de trabalho. “No começo eu conseguia sustentar a mim e ao meu filho com a venda de balas, mas hoje apertou muito, porque o preço de tudo subiu, luz, gás, comida, e as vendas não têm sido suficientes para cobrir todas as despesas da casa”, conta Robson, que diz que o presente que ele gostaria de receber de natal este ano seria um emprego.

O trabalho formal também é o sonho dos irmãos Lucas Henrique e Matheus David de Oliveira, os dois são do Espírito Santo e moram em Campos há cerca de quatro anos. Eles formam, junto com o amigo Caíque Mota, uma equipe de vendas de jujubas e pastilhas. Separados na infância, quando a mãe foi embora de casa e o pai morreu, os irmãos se reencontraram após a maioridade e escolheram Campos para tentar uma vida melhor. “Nós moramos na rua por mais de dois anos, passando frio, fome, mas nunca desistimos de trabalhar e hoje a gente mora de aluguel, tudo conquistado com a venda de nossas balas”, conta Lucas.
Os três jovens que vendem doces na área do Centro sonham em um dia ter a carteira assinada. “Ter um salário certinho no final do mês é um sonho, mas hoje eu não consigo nem entrar em nenhuma empresa, porque não tenho nem documento, só a certidão de nascimento”, conta Caíque, que tem 18 anos, é do Rio de Janeiro e não tem parentes em Campos.

Entrando de loja em loja, de escritório em escritório, Celso Ricardo de Freitas vai fazendo sua freguesia em Campos. Técnico em telefonia celular, o pai de família decidiu investir nos doces que fabrica quando viu o trabalho formal diminuir. “Eu gosto de trabalhar por conta própria, por isso procurei sair da informalidade, fiz meu MEI (Registro de Microempreendedor Individual) e invisto na qualidade dos meus doces para manter e ampliar minha clientela. Meus brigadeiros são gourmet, feitos com leite condensado de qualidade, creme de leite e chocolate 100% cacau”, conta.
Crise agravada pela pandemia
Nas ruas, a cada dia é notável o aumento no número de vendedores ambulantes, muitos deles relatando terem perdido o emprego na pandemia, mas segundo os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), pelo 10º mês consecutivo, Campos mantém saldo positivo na geração de empregos formais. Em 10 meses, o saldo geral foi de 4.620 novos empregos, superando o ano de 2020.
Para o sociólogo George Coutinho, o cenário é devastador para quem se encontra à procura de uma vaga, porque os setores industrial e comercial não dispõem de vagas suficientes para absorver o número de desempregados. “A gente vive um processo de retração do mercado de trabalho, das vagas, além da crise econômica, que se instalou no país desde 2016”, comenta George.
E complementa: “O cenário é de muita fragilidade em termos econômicos, e nós estamos falando de famílias, de trabalhadores, que tinham, inclusive, poder de compra e que hoje se veem nessa situação difícil”, diz o sociólogo.
Qualificação

A Subsecretaria de Qualificação e Emprego de Campos, Joyce Lessa, informou que desenvolve programas de capacitação para vagas disponíveis no mercado, além de fazer o link entre os candidatos e as empresas contratantes. “Nós finalizamos o processo de contratação para mais de 100 vagas de uma rede atacadista que está inaugurando, inclusive a gerente dessa unidade é aluna do nosso programa de Círculo de Desenvolvimento Profissional”, conta.
Final feliz

Fabiano Manhães Laurindo foi contratado como auxiliar de loja por uma empresa inaugurada em Campos no último dia 22. Ele permaneceu um ano desempregado e, neste período, ficou três meses no Calçadão de Campos com uma placa de papelão com a mensagem: “Estou desempregado. Me ajude, por favor! Deus abençoe”. Através da placa, ele chamou a atenção de um funcionário da Subsecretaria de Qualificação e Emprego de Campos, que o levou até o órgão e o encaminhou à empresa capixaba, que atua no ramo de material escolar e de escritório. Fabiano é deficiente auditivo e conseguiu a vaga para portadores de necessidades especiais.
Fonte:Terceira Via
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