
Não se entendia, ao certo, o que estava acontecendo. As interrogações cresciam. Que vírus é esse que estão dizendo que pode matar muita gente? Mas aqui no Brasil não vai ser grave como em outros países, não é? E deve durar quanto tempo – uns 4 ou 5 meses?
Essas e outras perguntas, que hoje se mostram ingênuas, as pessoas faziam umas as outras ante o novo coronavírus.
A doença, que percorreria o final de fevereiro até meados de março acumulando somente casos, faria sua primeira vítima no dia 17. Mas no dia 31 – em apenas 24hs – 42 vidas foram perdidas para a Covid-19. E um mês depois, em 30 de abril, os registros do dia apontavam 435 óbitos, totalizando quase 6 mil mortes naquele curto período de tempo, e 85 mil casos. E não parou mais…
O que era aflição virou medo, dor e desespero. Tratava-se da tragédia da pandemia: a maior crise sanitária em 100 anos. De 6 mil, o número de vítimas fatais saltou para 60. E depois 600 – os atuais 643 mil mortos em menos de dois anos.
Agora, no início de 2022, pensou-se que o vírus estaria vencido. Mas os óbitos, então na casa de 100, retornaram à faixa de 1.000.
A Ômicron, que se dizia de alta transmissibilidade, mas baixíssima letalidade – com projeções de que a variante poria fim à pandemia –, está matando. Nos últimos dias, o recuo na média móvel de casos traz esperança. Contudo, de concreto mesmo, só a incerteza.
A nau na tempestade
Comparada a uma viagem em mar aberto, o navio zarpou sem conhecer a rota marítima e tampouco em que direção deveria seguir. Não havia mapa ou bussola. O comandante não se entendia com o Imediato e a tripulação sequer conhecia a embarcação.
Não demorou para que o mar agitado se transformasse em tormenta. Perdidos na escuridão do oceano, o leme não encontrava um braço firme que o conduzisse em segurança. O navio experimentou relativa calmaria, seguida de novas tempestades, e atracou em portos desconhecidos.
Novamente na água, buscava uma rota que lhe desse um norte – a direção precisa para o lugar certo.
Depois de dois anos no mar, parecia vislumbrar o porto seguro. Mas ‘tinha novas tribulações no meio caminho’, o que importava navegar por mais algum tempo e tentar chegar a tão desejada terra firme.
Nesse período relativamente pequeno, as marcas são gigantescas. O Brasil errou. O mundo errou. E o que aprendemos – dura e dolorosamente – com essa doença tão devastadora, ainda não foi suficiente para projetarmos que o fim esteja próximo. Esperamos que sim. Mas trata-se de uma esperança baseada muito mais na vontade, no otimismo, do que em fundamentos palpáveis.
No momento, prevalece a frustração. Como historicamente as pandemias duram em média dois anos, no caso da Covid-19 a Ômicron deveria ser a cepa derradeira. Mas, como mostram os gráficos aqui inseridos, a aceleração no número de mortes revela que a doença está retomando sua escalada cruel, cujos óbitos saltaram de cento e pouco entre meados de dezembro e janeiro (com vários dias abaixo de 100) para 900, 1.000, 1.100 atuais.
Números preocupam – Comparando os 18 primeiros dias de janeiro com o mesmo período de fevereiro, vemos que as mortes neste mês são 6,6 vezes mais que no mês anterior. Ora, não parece plausível que a Ômicron seja de tão baixa letalidade assim, considerando que 72% dos brasileiros tomaram a 2ª dose.
Ainda mais preocupante [ver gráfico que mostra os picos de 2020, 2021 e 2022) o número de mortes contabilizado no dia cinco último (1.308) não está tão longe do pico de 2020 (1.664 óbitos em 29 de julho) quando sequer havia vacinação.
Alta de casos – Alguns especialistas (entre os quais vários que disseram que a Ômicron dificilmente mataria) acreditam, agora, que a explosão de casos em janeiro último foi proporcional ao número de óbitos. Ou seja: um número elevado de casos é seguido de número elevado de óbitos.
Pode até ser que a ‘nova avaliação’ seja procedente, mas não se coaduna com a verdade dos números, tendo em vista que em 18 de setembro de 2021 o Brasil registrou 150.106 novos casos e nem por isso o número de óbitos cresceu. Ao contrário, a partir daquele mês, as mortes entraram em curva descendente, o que prevaleceu até o final do ano.
Por outro lado, a queda na média do número de novos casos verificada nos últimos dias é um alento, com expectativa de que a desaceleração se mantenha e a doença vá embora.
Enfim, entre projeções mais ou menos otimistas, vivemos num verdadeiro mar de incertezas. Torçamos para que a pandemia, de fato, esteja com os dias contados. Mas, de certo mesmo, só a instabilidade que segue espreitando.
Terceira Via/Show Francisco
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