segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Vacinação depende de informação clara

Falta de campanha para explicar descobertas atrapalha

POR CLÍCIA CRUZ
Vacinação infantil contra a covid-19 (Foto: Tania Rego/Agência Brasil)

O debate público a respeito da confiabilidade das vacinas contra a Covid-19, que teve início antes mesmo da aprovação da imunização no país, se torna mais acalorado a cada nova faixa etária autorizada pela Anvisa e Ministério da Saúde a receber as doses. Quando foi a vez dos adolescentes de 12 a 17 anos, as redes sociais demonstravam claramente a divisão entre grupos pró e antivacina. Agora, com a vacinação das crianças de 5 a 11 anos, a discussão volta a se aquecer, alimentada pela falta de um esforço coordenado para a difusão de conhecimento atualizado sobre a doença por parte de autoridades sanitárias e pela divulgação de fake news. Contexto que cria um terreno fértil para o crescimento da desconfiança de pais e responsáveis e que pode ajudar a explicar a baixa adesão da população à vacinação pediátrica.

Em um momento em que Campos apresenta positividade acima de 50% para pacientes testados para Covid-19 e aumento no número de internações — com 81,25% dos leitos de UTI e 57,43% dos clínicos ocupados — e mortes, incluindo de crianças, a falta de informação precisa e continuada sobre os processos da Ciência e as implicações das novas descobertas a respeito do coronavírus abrem espaço para a dúvida.

“Não consegui entender, ainda, porque a Covid-19 agora ataca crianças. Ficamos dois anos ouvindo que a doença não afeta crianças e que, se afetasse, não seria grave e eu até agora não vi nenhuma autoridade em saúde vir explicar porque isso mudou com a Ômicron”, afirma um empresário, que prefere não se identificar.

De acordo com a Prefeitura, no período de um mês o Município registrou mais de 43 mortes em decorrência da Covid-19. Destas 27, ocorreram nas últimas duas semanas, incluindo a de uma menina de dois anos com comorbidades.
Elizabeth Tudesco (Foto: Arquivo)

Conhecimento para combater o medo
A falta de campanhas claras, que incentivem a população a vacinar as crianças, é um problema identificado pelos profissionais da saúde, que se esforçam para informar aos responsáveis da melhor forma que conseguem. A informação, no entanto, nem sempre chega à população. Uma atendente de telemarketing, que prefere não se identificar, diz que não vacinou o filho de 7 anos porque acredita que a vacina seja “experimental”.

“Meu filho não é rato de laboratório. Não vou submeter o meu filho a tomar uma vacina que ainda está em teste, que foi desenvolvida às pressas”, afirma.

Não é o que diz a infectologista Elizabeth Tudesco Tinoco, que afirma que a vacina é segura e que jamais cientistas renomados permitiriam que se colocasse no mercado uma vacina que representaria perigo às crianças.

“Nós já vimos isso na época que surgiu a vacina da gripe, as pessoas falavam que o governo tinha implantado a vacina para matar os idosos, que as pessoas iam tomar e iam morrer e hoje a vacina está aí, todo o mundo toma, até as crianças, sem nenhum problema”, diz a médica, que é avó e diz que os netos vão se vacinar.

Elizabeth era esposa do também médico Jaime Tinoco, que morreu de Covid-19. “Meu marido não teve a chance de se vacinar, a vacina chegou depois, eu acredito que se ele fosse vacinado ainda estaria aqui conosco”, lamenta.

A médica fala com a bagagem de quem coordenou por 17 anos o então Setor de Epidemiologia da Prefeitura de Campos. “É com essa experiência que eu peço às pessoas que vacinem os seus filhos. Só a vacina é capaz de nos tirar desse estado de pandemia. Porque vamos ter que conviver com a Covid, mas se quisermos voltar a ter uma vida normal, será por meio da vacinação em massa”, diz Elizabeth.

A epidemiologista é enfática ao qualificar o medo de quem desconfia das vacinas como “base”.

“As pessoas não conhecem a composição da vacina, mas levam o filho bebê, por exemplo, para vacinar contra a tuberculose, em que um vírus atenuado é injetado. Será que elas levariam se soubessem disso? E qual o resultado da vacina? A proteção da criança. É isso que os pais precisam entender, que a vacina é a única proteção”, finaliza.

Como funcionam as notificações em Campos
A secretaria municipal de Saúde de Campos informou à reportagem que não dispõe, no momento, de ferramentas para detectar, dentre os pacientes mortos nas últimas duas semanas, quais estavam ou não vacinados, porque não é protocolo dos hospitais repassar esta informação. Ainda segundo a pasta, os óbitos são informados pelos cemitérios da cidade. O Caju informa nome e idade dos pacientes, já o Cemitério Campo da Paz notifica apenas o sepultamento de vítima de Covid-19, sem outros detalhes. Não existe, no Município, uma lei ou decreto que exija que os cemitérios forneçam dados detalhados sobre os pacientes.

Baixa adesão também no Rio de Janeiro

O número baixo de crianças vacinadas não é um fenômeno que ocorre só em Campos. No município do Rio de Janeiro, apenas 39% das crianças entre oito e onze anos de idade foram vacinadas contra a Covid-19. Segundo o secretário municipal de Saúde, a adesão é a mais baixa da história da capital fluminense.
Fonte Terceira Via

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