“Nunca foi tão importante manter hábitos não-farmacológicos porque as cepas hoje circulantes com predomínio têm escape vacinal” (Margareth Dalcolmo)
Parece que é chover no molhado. E é mesmo. Mas não se pode simplesmente pular uma etapa – fazer de conta que a pandemia acabou – e não repercutir os alertas feitos pela comunidade científica, de que o vírus no Brasil continua circulando e trazendo novos desafios a partir das subvariantes.
No caso de Campos, ‘passamos’ pelas festas juninas que embalaram grandes shows; tivemos a programação da Festa do Santíssimo Salvador, padroeiro da cidade; e, no período de 04 a 07 de agosto, o retorno da tradicional Exposição Agropecuária e Industrial do Norte Fluminense (Expoagro), depois de dois anos de interrupção.
O que traz certo alento é que os eventos foram realizados, em grande parte, em locais abertos – o que dificulta a proliferação do vírus. Por outro lado, a preocupação fica por conta da desobrigação do uso da máscara. Isso porque em se tratando de volumosos ajuntamentos, o contágio pode vir a ocorrer mesmo ao ar livre. Fosse diferente e no ápice da pandemia não haveria a exigência do equipamento de proteção inclusive em praias.
Campos
Ainda sob a ótica local, teremos que aguardar os próximos dias para saber se o famoso ‘Vento Nordeste’, que corre solto em nossa planície, ‘funcionou’ como proteção natural e dissipou o coronavírus que, depois de dois anos e meio, insiste em alimentar a pandemia.
Isso não significa dizer que as vacinas, conforme afirmam os cientistas, deixaram de ser as principais aliadas no combate à covid-19. Ocorre, entretanto, que as cepas hoje circulantes com predomínio têm escape vacinal.
A advertência dessas seguidas mutações foi feita dias atrás pela pesquisadora da Fiocruz e uma das principais referências no combate à pandemia, pneumologista Margareth Dalcolmo – tantas vezes retratada e citada nesta página – defensora intransigente das medidas restritivas, as quais, infelizmente, pouco observadas.
Mais que óbvio, tudo (ainda) é novo e o desconhecido precisa ser entendido como inimigo ferrenho das medidas que visam reduzir e exterminar o vírus do Brasil.
Os dois lados da moeda
Nem no pior dos pesadelos se pensava que no avançado e tecnológico século 21 uma doença pudesse provocar, por tanto tempo, tamanha angústia, dor, sofrimento e mortes. Isso, sem mencionar os danos psicológicos.
Trata-se de uma moeda de dois lados e ambas desafortunadas. Falando apenas em termos de Brasil – para não estender ao que seria ainda mais complexo – ocorre que passados 29 meses – na verdade, antes disso – as pessoas estão esgotadas. Exauridas pelo medo, pelas restrições, pela incerteza e tudo o mais que acompanha uma pandemia de tamanha desventura.
Na terra tupiniquim – Por outro aspecto, se lançarmos um olhar atento, veremos que o Brasil não fez o dever de casa. Deixando de lado o atraso na imunização, fato é que uma pandemia global e de tamanho potencial destrutivo não combina com aglomerações em feriados prolongados, com carnaval, ou com festas públicas e privadas.
Mas, foi o que se viu. Em 2020, multidões se amontoaram nos feriadões. Em 2021, o inacreditável: as principais cidades, inclusive o Rio, não abriram mão de realizar o carnaval, logo apelidado de “Carnaval da covid’. O resultado foi o registro, em alguns dias de abril, de mais de 4 mil mortes em 24h. Em 2022, ainda que em menor escala, desfiles de Escolas de Samba, blocos nas ruas e por aí adiante – ora com razoável precaução, ora com nenhuma – alimentaram o contágio.
O inadmissível – Para não estender além do texto já por demais alongado (e várias vezes repetido sob diferentes ângulos), o Brasil viu a pandemia praticamente desaparecer no início deste ano, quando o registro de óbitos girou entre 60/80 e a média móvel ficou abaixo de 90 mortes por várias semanas.
Número de mortes – E aí, de novo, fomos relaxando com as medidas de restrição e nos meses recentes o recrudescimento da doença embarcou em curva crescente, com média móvel acima de 200. De 1º a 05 de agosto morreram 1.160 pessoas.
Critério – Da mesma forma que a covid-19 fez emergir uma exaustão insuportável e, por conseguinte, o desejo premente de retomar à normalidade, há que se buscar uma linha de equilíbrio.
Sem exageros de confinamento, lockdowns que não funcionam (ao menos na configuração brasileira) ou quaisquer outras medidas que atormentavam tanto quanto à covid, cabe perguntar: havia necessidade de desobrigar o uso de máscara em lugares fechados? De promover tantos shows e festas privadas? E de não dar a mínima para as gigantescas aglomerações.
Vamos aguardar que as mutações desapareçam. Que a vacinação avance como ainda não se viu e que a pandemia esteja vencida em outubro, quando chegar a eleição.
“Vários estados brasileiros flexibilizaram, nos últimos meses, as medidas de prevenção contra a covid-19. Como consequência, leva-se hoje no Brasil uma vida semelhante à observada em tempos pré-covid, sem uso de máscaras, com grandes aglomerações normalizadas — cenas que, há um ano, seriam inimagináveis” – Margareth Dalcolmo, em recente declaração.


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