domingo, 9 de outubro de 2022

Campos não elege representante para a Câmara Federal após 40 anos

Para especialistas em política, fragmentação dos votos no município favoreceu candidatos de outras regiões

POR CLÍCIA CRUZ
Câmara Federal

Nas eleições de 2 de outubro, o resultado das urnas deixou Campos dos Goytacazes pela primeira vez sem representação na Câmara Federal em muitos anos. O Jornal Terceira Via fez um levantamento das disputas das últimas quatro décadas. Constatou que, desde o período de 1982, isto é, há 40 anos, o município não ficava sem eleger pelo menos um deputado federal. A falta de um parlamentar local no Congresso Nacional para lutar diretamente pelos interesses do município é considerada uma grande perda. Nos últimos anos, por exemplo, Campos precisou de muitos recursos federais para a execução de obras. Ex-deputados federais e analistas políticos avaliam este momento após a eleição.


O prefeito Wladimir Garotinho exerceu o mandato de deputado federal por dois anos antes de decidir concorrer às eleições municipais em Campos. Ele acredita que a polarização pode ter prejudicado a questão da eleição proporcional.
“Toda eleição é sempre muito dinâmica, envolve fatores pessoais, partidários, ideológicos. Acho que a polarização das eleições presidenciais pode ter contribuído para o resultado, com uma discussão mais focada na pauta nacional. Em nosso grupo, tivemos um impacto que foi a decisão do Anthony Garotinho de não disputar as eleições, em respeito aos seus eleitores, em função das perseguições de natureza jurídica que enfrentou. Ainda sim, o seu substituto nas eleições, o vereador Juninho Virgílio, com apenas 15 dias de campanha, conseguiu quase 1,5 mil votos por dia, com mais de 22 mil obtidos no total”, destaca.


Wladimir ressalta a importância de poder contar com o apoio de um deputado federal: “A atuação parlamentar é sempre importante na defesa dos municípios. Em Campos, a deputada federal Clarissa Garotinho viabilizou mais de R$80 milhões em emendas, para ações importantes como a construção do Novo Hemocentro, reforma de UBSs, o novo Camelódromo, para Educação, Agricultura e outras áreas. Os deputados federais Christino Áureo (não reeleito) e Hugo Leal (reeleito) foram outros parceiros da cidade que nos ajudaram muito. Eu fui deputado federal e sempre tive ótima relação em Brasília com muitos dos deputados da bancada fluminense. Isso vai ajudar muito. Em Campos, o deputado federal Hugo Leal foi bem votado, teve apoio de nosso grupo e vai ser uma de nossas vozes no Congresso Nacional”, acredita.

O candidato mais votado no município foi Caio Vianna (PSD), com 36.785 votos. Deste total, 27.706 obtidos no município. Ele acredita que poderá assumir uma vaga no Congresso, já que é suplente em seu partido. Para ele, o número de votos obtidos foi uma vitória política. “Primeiro vale ressaltar que fui o deputado federal mais votado de Campos, com quase o dobro da votação do segundo colocado, apoiado pela máquina municipal. E nos consolidamos como a principal força do PSD em nossa região. E vamos seguir trabalhando com a certeza de que estamos prontos para assumir grandes missões, com foco total no desenvolvimento”, disse.


A única representante atual do município na Câmara, Clarissa Garotinho (União), não concorreu à reeleição porque tentou uma cadeira no Senado. Ela não foi eleita. “Mesmo sem mandato, continuarei defendendo os interesses da cidade de Campos, a exemplo do que fiz nos últimos anos, quando consegui articular na Câmara dos Deputados mais de R$ 100 milhões para o município. Nesse sentido, acredito que meu propósito de continuar servindo a população do interior será facilitado com a reeleição do presidente Jair Bolsonaro, com quem mantenho estreita proximidade política”, disse.

Fragmentação dos votos
Para o cientista político Hamilton Garcia, a fragmentação dos votos foi a causa principal de Campos não ter conseguido eleger nenhum deputado federal. “Isso foi decisivo. Ao que parece, não houve uma boa orquestração regional dos grupos políticos para se fazerem representar no Congresso Nacional”, destacou. Garcia acredita também que os espaços deixados a partir dessas vacâncias serão parcialmente preenchidos por parlamentares de outros municípios:
“Essa representação pode ser estabelecida em algum momento, pois todos os eleitos buscam ampliar o seu raio de ação e aumentar a sua possibilidade de reeleição. Com certeza, outros deputados fluminenses que têm interesse de se enraizar na região Norte Fluminense vão ter interesse nessa representatividade”, diz o cientista político.

José Luis Viana, cientista político


Na análise do professor e cientista político José Luis Vianna, a questão é complexa e vários fatores precisam ser analisados.
“Há alguns fatores que podemos destacar. Primeiro, que o Estado do Rio voltou a ter grupos na capital com bases muito fortes, e, com o tempo, eles conseguiram ser fortes no interior também. Eu também percebo uma certa novidade na eleição em Campos. Houve uma pulverização muito grande de votos e os grupos políticos familiares se tornaram fortes o suficiente para dividir os votos a tal ponto, que nenhum deles conseguiu se eleger. Outro ponto que percebi foi o crescimento do PSol em Campos. Com o PT tendo candidatos com potencial de votos razoável, a soma dos votos dados a partidos de esquerda cresceu, a polarização fez crescer. Se de um lado fortaleceu os candidatos ligados ao Bolsonaro, por outro lado também fez crescer o outro extremo”, observa José Luis.

Históricos deputados federais de Campos
O empresário Alair Ferreira era economista por formação. Nascido em Minas Gerais, construiu suas empresas e sua carreira política em Campos. Dentre seu patrimônio, o mais famoso deles foi a extinta TV Norte Fluminense, na época afiliada à Rede Globo. Assumiu o primeiro mandato na Câmara Federal como suplente na Legislatura 1963-1967. Posteriormente, teve outros quatro mandatos, sendo dois deles eleito diretamente e outros dois como suplente.
O advogado Walter Silva representou Campos em três mandatos como deputado federal. Ele foi eleito em 1970, 1974 e 1978, ainda no período do regime militar. Era considerado bastante atuante na região, com grande repercussão local.


O engenheiro Paulo Feijó foi deputado em cinco legislaturas, sendo eleito diretamente três vezes e duas assumindo como suplente. Nascido em Santa Maria Madalena, Feijó também construiu sua base eleitoral em Campos, onde sempre viveu com a família. Foi um vereador bastante atuante e chegou a presidir a Câmara Municipal nos anos 1990.
O ex-deputado constituinte Major Oswaldo Almeida exerceu apenas um mandato: de 1986 a 1990. Foi eleito com 34 mil votos pelo Partido Liberal. Ele ajudou a escrever a nova Constituição Federal e acompanhou a primeira experiência como parlamentar de Luis Inácio Lula da Silva. “Dei minha contribuição, mas passou. Nunca quis retornar após o mandato concluído em 1990”, disse ao Terceira Via.
Deputados federais da região eleitos nos últimos anos


Deputados federais eleitos por Campos nas últimas décadas
1970, 1974, 1978
Walter Silva

1982
Alair Ferreira

1986
José Maurício
Alair Ferreira
Oswaldo Almeida

1990
Alair Ferreira
José Maurício

1994
Paulo Feijó
Carlos Alberto Campista

1998
Eber Silva

2002
Paulo Feijó
Josias Quintal

2006
Geraldo Pudim
Arnaldo Vianna
Josias Quintal

2010
Anthony Garotinho

2014
Clarissa Garotinho
Paulo Feijó

2018
Wladimir Garotinho
Clarissa Garotinho
Os candidatos a deputado federal mais votados em Campos

Os 10 candidatos a deputado federal mais votados em Campos
Caio Vianna – PSD
10,76%
27.706

Juninho Virgílio – UNIÃO
6,63%
17.077

Luis Carlos Gomes – REPU
3,84%
9.882

Professora Natalia Soares – PSOL
3,62%
9.317

Cabo Alonsimar – PODE
3,28%
8.455

Zé Maria – PT
3,02%
7.767

Hugo Leal – PSD
2,94%
7.561

Leon Gomes – PDT
2,85%
7.336

Daniela do Waguinho – UNIÃO
2,76%
7.118

Marcão Gomes – PL
2,37%
6.090.
Fonte:Terceira Via

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