segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Falta de sol e pouca chuva devem quebrar a safra em 2023

Combinação climática rara na região pode reduzir a produção da cana-de-açúcar em até 15%

A combinação da falta de chuva e de sol, situação rara na região, é apontada pelo setor sucroalcooleiro como a responsável pela quebra da safra de cana-de-açúcar do ano que vem e essa queda da produtividade deve ficar entre 10% e 15%, conforme já admite o presidente da Associação Fluminense dos Produtores de Cana (Asflucan), Tito Inojosa. A escassez de chuva e também de sol em 2022 causou o que pode ser definido como tempestade perfeita para quebrar a safra, depois de um período de meia década de crescimento.

Com isso, a produção de cana, que esse ano alcançou a marca de 1 milhão e 800 mil toneladas, poderá cair para 1 milhão e 300 mil, quando o que se previa era uma safra de 2 milhões de toneladas. Segundo Tido Inojosa, ainda não é possível precisar em números o prejuízo que será causado pela falta de chuva e também de sol.
“Minha infância toda foi em um parque fabril de usina. São mais de 50 anos neste ambiente e nunca vi uma combinação climática tão danosa. Esse efeito é novo e vamos ter que aprender a lidar com suas consequências, embora estejamos monitorando tudo com as universidades, principalmente com a Rural do Rio de Janeiro”, disse o presidente da Asflucan.
Ele garantiu que o setor tende a crescer, mesmo com essa adversidade, confirmando que a nova usina Paraíso, em Tócos, começará a moer em 2023.
“Apesar disso tudo, nossa meta é de crescimento e teremos essa nova unidade entrando em operação ano que vem, em uma safra um pouco menor, mas já com cana garantida. Esperamos que a de 2024 seja bem mais expressiva”, afirmou Tito.
Tito Inojosa

Insolação
O técnico em meteorologia Carlos Augusto Souto de Alencar explicou didaticamente esse fenômeno meteorológico, que é chamado de “insolação”, ou seja, a quantidade de tempo que o Sol aparece no céu sem estar encoberto por nuvens.
“Ela é medida por um equipamento chamado heliógrafo. Os dados de insolação têm importância muito significativa porque muitas plantas, entre elas a cana-de-açúcar, precisam de uma quantidade de radiação solar para se desenvolver em determinadas fases de seu crescimento. Se essa insolação for menor do que o necessário, acaba afetando a produção, no caso da cana-de-açúcar e de outros plantios. Esse ano tivemos um inverno mais frio e mais úmido, o que gerou mais nebulosidade, em Campos e em seu entorno. Isso diminuiu a insolação e afetou a produção canavieira”, esclareceu.

Causa da chuva e da estiagem
O engenheiro agrônomo José Carlos Mendonça, professor de Meteorologia Agrícola da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), confirmou que choveu menos por conta do chamado efeito La Ninã.
“O ano de 2022, sob o efeito do fenômeno La Ninã, vem apresentando alterações no regime pluviométrico da América do Sul e, em particular, no Brasil, com impactos em diferentes setores da economia, principalmente na agricultura e na pecuária. Estiagem prolongada nas regiões Centro-Sul e chuvas acima da média no Nordeste do Brasil estão sendo observadas neste ano. No Estado do Rio de Janeiro, as chuvas de alta intensidade ocorridas no mês de fevereiro geraram acumulado bastante acima da média e tendo como consequência catástrofes na Região Serrana. Em Campos e São João da Barra, diversas localidades ficaram inundadas. Toda essa forte chuva de fevereiro gerou um forte e negativo impacto na economia estadual”, disse o agrônomo.

Mendonça acrescentou que o setor sucroalcooleiro regional, devido às chuvas ocorridas nos meses de janeiro e fevereiro, foi, de certa forma, beneficiado, já que as lavouras de cana-de-açúcar se encontravam em fase de desenvolvimento vegetativo, em pleno crescimento. Porém, o mês de março se mostrou seco, com chuvas bem abaixo do previsto, que se seguiu até a primeira quinzena de abril. A partir de abril, a estiagem começou, mudando totalmente o cenário e as expectativas do setor, que esperava uma safra igual ou superior a do último ano.
“A cana crescida, com a ausência das chuvas, parou de crescer. A cana recém plantada no início do outono teve sua brotação comprometida e a cana colhida teve sua rebrota perdida. Esse fato irá gerar impactos na safra no ano que vem. Isso, somado à diminuição da intensidade do sol, também necessária, é preocupante”, afirmou o agrônomo.

Por conta dessas ocorrências climáticas raras, no que diz respeito ao sol, a moagem se encerrou um mês antes do previsto. O rendimento físico, em toneladas/hectare, ficou cerca de 300 mil toneladas menor que o da safra anterior. No entanto, nem tudo foi negativo para o setor. A forte estiagem fez com que a concentração de açúcar (o famoso graus brix) gerasse um rendimento industrial bastante satisfatório este ano.
“As chuvas retornaram somente no final de setembro. Nos dias 29 e 30/09 registrou-se o volume de 28 mm, após cinco meses de estiagem, reacendendo a esperança do homem do campo, eternamente dependente dos segredos da natureza”, concluiu o agrônomo.
Terceira Via/Show Francisco

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