sábado, 10 de junho de 2023

Após se infectar com o HIV, o psicólogo Salvador Corrêa se tornou uma voz na luta contra o preconceito

Ele se tornou ativista, escreveu livro e peça teatral que tratam sobre temas relacionados à Aids; defende cumprimento de mais direitos e informações

POR OCINEI TRINDADE

Salvador Corrêa é psicólogo e ativista na luta de combate à Aids (Fotos: Silvana Rust)

Salvador Corrêa é psicólogo, mestre em Saúde Pública e doutorando em Saúde Coletiva. Também é escritor, sanitarista e ativista. Vive há mais de 10 anos com o HIV. Seu drama pessoal se tornou conteúdo de blog, livro e depois de peça teatral. Escreveu “O Segundo Armário – diário de um jovem soropositivo”, e colaborou com a construção do espetáculo “O Segundo Armário”, com dramaturgia de Antônio de Medeiros, atuação de Hugo Caramello, e direção de Jean Mendonça. Seu e-book foi baixado na internet por mais de 17 mil leitores, desde seu lançamento, em 2014. Salvador Corrêa é um dos entrevistados na reportagem “Mortes por Aids em Campos são quase o dobro da média nacional” (clique aqui). Nesta publicação, ele aborda diversos temas que envolvem pessoas com HIV em Campos dos Goytacazes.

Como observa os números atuais sobre contaminação pelo vírus HIV em Campos?

Temos preferido o uso do termo infecção ao invés de contaminação, uma vez que a ideia de contaminação (água contaminada, roupa contaminada) pressupõe algo que se deve evitar. E pessoas com HIV são bem vindas em todos os lugares e não é algo que devemos evitar.

A taxa de detecção de casos de AIDS notificados em Campos é maior do que a taxa da região sudeste e do que a taxa nacional. Assim como a mortalidade por Aids em Campos também tem taxa maior do que a nacional. É preciso fortalecer a política de prevenção nos seu ambitos biomédicos (com disponibilidade de camisinha e gel, PEP e PrEP), estruturais (com legislação que garanta o transporte para acesso ao tratamento, leis contra a discriminação, ações educativas e aconselhamentos) e sociais (com garantias de proteção social em todos os níveis de atenção, com disponibilidade dos benefícios previstos em lei para cada caso).


Há dados de infecção maior entre jovens. Como analisa esta situação?

Muitas vezes escutamos que “o jovem perdeu o medo”. Essa frase é um grande equívoco. Na verdade, a prevenção pela via do medo e do pânico nunca funcionou e gerou muito estigma e preconceito. É preciso levar novamente a prevenção para um amplo debate com os jovens, incluindo as escolas. Educação sexual é sinônimo de vida e prevenção, não só prevenção ao HIV, mas também poder prevenir assédio e violência sexual. O silenciamento desses temas é uma barreira que precisamos ter coragem de vencer. Precisamos voltar a ter sensibilidade para abordagem do tema e proteger adolescentes e jovens, começando pela informação. Culpabilizar o jovem pela infecção nessa faixa etária é isentamos da nossa responsabilidade de cuidar

O uso de preservativos parece ter diminuído e as pessoas falam cada vez menos sobre infecção por HIV. Acredita que há falta de campanhas por parte do poder público para informar a população?


Com certeza há falta de campanha sobre o tema. As campanhas existentes são incipientes para abordar o tema. Houve uma drástica redução das ações nesse sentido. Por exemplo, não sei te dizer quando foi a última vez que as prefeituras de nossa região fizeram cartazes, folders, spot de rádio, outdoors. Às vezes se resume em imagens para Facebook no “Dezembro Vermelho” e só.

Quem tem um pouco mais de idade, pode se lembrar das campanhas exemplares da década de 1990, em que os grupos e populações mais afetadas pela epidemia protagonizaram campanhas alinhadas aos direitos humanos, com ampla mensagem de prevenção, proteção e valorização da vida. Precisamos todos (governo, sociedade civil e empresas) voltarmos a pautar a questão do HIV/AIDS, sexualidade, IST. Precisamos perder a vergonha de prevenir. Lembro dos tempos que Campos ousava com os Congressos de AIDS e ações coordenadas por grandes profissionais, como Clélia Coelho e Fátima Castro.

Como observa o comportamento da sociedade em relação ao vírus e às pessoas que vivem com HIV?

Avançamos muito no aspecto biomédico (medicamentos, PREP, PEP, camisinhas interna e externa), mas não avançamos na mesma medida com relação ao estigma e ao preconceito. É preciso falar mais abertamente sobre o tema com a sociedade. Precisamos de mais eventos na cidade sobre o tema, como seminários, congressos e ações nos distritos e bairros da cidade. Vamos fazer renascer o tempo da prevenção.

Atualmente, o que considera indispensável para enfrentar o vírus e a doença no Brasil e no mundo?

É indispensável termos coragem política para enfrentarmos as barreiras estruturais de prevenção. Por exemplo, nesse momento Campos tem uma portaria do IMTT que tem impedido pessoas com HIV a renovarem o passe que garante o transporte para tratamento para pessoas vulnerabilizadas. Isso é um grande retrocesso político que vai na contramão do Brasil. O estado do Rio de Janeiro garante transporte para pessoas com HIV, assim como as cidades (como o próprio Rio de Janeiro). Nesse momento, em Campos, esse benefício não tem sido garantido. Para uma pessoa que se trata, que às vezes depende de acompanhante, e não tem como se manter financeiramente, fica inviável a garantia do tratamento. Esse é o exemplo de uma barreira estrutural que precisa ser enfrentada com leis que garantam acesso. Um outro aspecto que o mundo precisa enfrentar para combater o HIV são as desigualdades sociais.

Hoje, no mundo, temos medicamentos de ponta para tratamento do HIV. Ainda mais de 9 milhões de pessoas não têm acesso ao tratamento antirretroviral. Vivem como na época em que não havia tratamento. A maior parte desses países são africanos, populações que têm sido assaltada há centenas de anos. Precisamos fazer ecoar a voz dessa população negra e periférica, quilombola, LGBTQIAPN+, trabalhadoras do sexo. A chave da resposta à epidemia, como sinaliza o Programa das Nações Unidas em resposta ao HIV/AIDS (UNAIDS), está nas populações mais afetadas e estigmatizadas.


Acredita na cura da AIDS? Como cogita o futuro em relação à doença e ao preconceito social?

A ONU em seus novos relatórios já traz uma perspectiva de cura. As pesquisas apontam cada vez mais para novos caminhos de investigação. Ainda que a cura chegue, precisamos que ela seja para todas as pessoas. Hoje, no Brasil, nos tratamos com medicamentos que já não se usam mais em países de primeiro mundo (que, por exemplo, usam uma nova geração de Tenofovir). No mundo, muitas pessoas ainda não se tratam. Perguntamos sempre: quando a cura chegará? O movimento de AIDS se pergunta: quando chegar, para quem será essa cura? Até lá, vale lembrar algumas das palavras do saudoso Betinho (Herbert de Souza) em seu texto “O dia da Cura” publicado no Jornal do Brasil, em janeiro de 1992:

“De repente me dei conta de que tudo havia mudado porque havia a idéia e o anúncio da cura. Que a idéia da morte inevitável paralisa. Que a idéia da vida mobiliza… mesmo que a morte seja inevitável, como todos sabemos. Acordar pensando que se vai morrer, no lugar da vida, é a própria morte instalada.De repente me dei conta de que a cura da Aids sempre havia existido como possibilidade, antes mesmo de existir como anúncio do fato acontecido, e que o seu nome era vida. Foi de repente, como tudo acontece.”
Fonte:J3News

Nenhum comentário: