sexta-feira, 9 de junho de 2023

Infecção por HIV em Campos preocupa ativista que trabalha no combate e na prevenção ao vírus

Fátima Castro é assistente social e referência nacional há 35 anos por dar apoio aos portadores e doentes de Aids

POR OCINEI TRINDADE


Há quase quatro décadas, a assistente social Fátima Castro se tornou em Campos referência municipal e nacional na luta contra a Aids. Este ano, a Associação Irmãos da Solidariedade, entidade presidida por ela, completa 35 anos de atividades, ao dar apoio aos pacientes com HIV, vírus que pode evoluir para a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Sida ou Aids). Nos últimos anos, o aumento do número de casos de infecção por HIV em Campos e em todo o Brasil, voltou a preocupar autoridades e especialistas, sobretudo entre os mais jovens. Este é o tema da reportagem “Mortes por Aids em Campos são quase o dobro da média nacional” (clique aqui), que conta com a participação de Fátima Castro. Nesta entrevista, ela aborda com mais detalhes sobre as questões de HIV/Aids na atualidade.

Como observa os números atuais sobre contaminação pelo vírus HIV em Campos?


Preocupante, visto que temos como prevenir, controlar e tratar.

Há dados de infecção maior entre jovens. Como analisa esta situação?

O perfil sempre muda. Hoje são jovens, que realmente não vivenciaram o flagelo dos anos 80, 90 que a Aids deixou. Amanhã, este perfil pode mudar, como no decorrer dos tempos acaba mesmo mudando. Na verdade, todos que fazem sexo sem preservativos podem estar correndo risco. Isso desde quando a AIDS surgiu. Todos nós estamos no mesmo barco. Todos nós que temos a vida sexual ativa. Nunca existiu grupo de risco e, sim, comportamento de risco.

Hoje, no Brasil, há um milhão de pessoas contaminadas e 300 mil pessoas que têm o vírus e ainda não sabem. Tudo isso, apesar de ser considerada uma doença crônica, e de termos medicamentos que minimizam a proliferação do vírus, tornando-o indetectável, Dentro deste contexto temos uma agravante grande, que é a fome, a miséria. Este componente prejudica muito a condição das pessoas que precisam tomar o medicamento e não têm como alimentar-se.

O uso de preservativos parece ter diminuído e as pessoas falam cada vez menos sobre infecção por HIV?

O uso do preservativo, a única forma eficaz de não se contaminar com vírus HIV e com as infecções sexualmente transmissíveis, na realidade sempre foi complicado. As pessoas até começam a usar no início de uma relação mas, depois, acham que não precisam e abandonam a prática do preservativo. Acham que já conhecem o parceiro (a) e tudo bem. Depois dos antirretrovirais, a população deixou ainda mais o uso do preservativo. No imaginário coletivo, elas pensam: “se tem como cuidar, por que me prevenir?”. Ouço muito este discurso. Sem falar que, realmente, na hora do calor da relação sexual, nem pensam na prática da camisinha.

Acredita que há falta de campanhas por parte do poder público para informar a população?

Sim. Não há campanhas educativas que possam conscientizar a população, não há uma educação voltada para a questão sexual de fato. E o poder público, por sua vez, nada faz em relação a isso. Ninguém mais fala de Aids, como se não existisse.

A senhora é uma das pioneiras na causa de combate ao preconceito para quem é portador de HIV em Campos. Em quase quatro décadas, como observa o comportamento da sociedade em relação ao vírus e as pessoas que vivem com HIV?

Este ano, agora em julho, são 35 anos de luta, de Casa de Apoio. Hoje, são pouquíssimas no país a fazer este acolhimento. Vi nessa minha trajetória coisas horríveis. De lá para cá muitas coisas mudaram. A Aids deixou de ser um mal desconhecido, os tratamentos avançaram e, de incurável e letal, passou a ser tratada como uma doença crônica, que demanda tratamento ao longo de toda a vida.

No entanto, embora hoje haja um protocolo avançado de tratamento, que permite que pessoas diagnosticadas com o vírus HIV levem uma vida normal no Brasil, o descuido, há falta de campanhas, pouca acessibilidade da população que mora na zona rural, há falta de prevenção. Isto tem levado a um aumento no número de casos, infelizmente.

Atualmente, o que considera indispensável para enfrentar o vírus e a doença no Brasil e no mundo?

Já percorremos um longo caminho. Acredito agora que temos que trabalhar as políticas públicas, fazendo-as mais eficazes na questão, principalmente, na conscientização da população como um todo. Nos países de terceiro mundo, temos que levar em conta a pobreza e a miséria, o que está dificultando o controle da doença.

Acredita na cura da Aids? Como cogita o futuro em relação à doença e ao preconceito social?


A cura: a cada experimento e notícia que surgem, me encho de esperança, e, isso, há décadas. Porém, entristeço-me quando não podemos levar adiante. Teríamos que erradicar a doença. Mas o fato de termos os medicamentos fazendo da síndrome uma doença crônica, já é uma vitória. Quem viu o massacre que foi a pandemia, termos chegado onde chegamos, faz termos esperança de dias ainda melhores. Eu creio. Ah, o preconceito, este é difícil. Te digo que ele continua matando mais que o vírus. É algo abominável. Uma doença da alma. Para o preconceito não temos remédio, vacina, muito menos esperança. É duro falar, mas é a pura verdade.
Fonte:J3News

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