segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Tem que ser muito paciente: raio X da crise na Saúde

Dez meses depois de Rafael visitar os hospitais, os problemas continuam, a prefeitura se esforça e a paciência beira ao limite
CAMPOS POR PATRICIA BARRETO


(Foto: Rafael Peixoto)

O Hospital Ferreira Machado (HFM) foi o primeiro local visitado pelo prefeito Rafael Diniz em seu primeiro dia de mandato, 2 de janeiro. Na equipe, estava a secretária de Saúde, Fabiana Catalani. No dia seguinte, foi a vez do São José, em Goitacazes; e do Geral de Guarus (HGG). Durante as visitas ficou constatado uma verdadeira desordem generalizada em cada setor. Falta de medicamentos e insumos, estrutura precária, problemas frequentes em equipamentos, sucatas espalhadas pelos corredores, salas desativadas e pacientes aguardando atendimento no corredor. À época, o prefeito declarou que a situação era caótica, no entanto, a prioridade seria o abastecimento das farmácias com os medicamentos imprescindíveis para a população, e de acordo com o orçamento, resolver os demais problemas. Na oportunidade, Fabiana se mostrou consternada com a situação da Saúde no município, ouviu a reclamação dos servidores. Porém, desde então, o porta voz da pasta da Saúde e tantas outras, é o secretário de Controle e Planejamento, Felipe Quintanilha.

O fato é que, em dez meses de governo, a população ainda não enxerga mudanças na situação das unidades de Saúde. E, uma equipe da prefeitura está visitando as unidades hospitalares novamente.

Cansados da inércia da gestão municipal, na última terça- -feira (17), médicos que atuam nos hospitais Ferreira Machado e Geral de Guarus e nos Postos de Urgência (PUs) que compõem a rede municipal de Saúde, entraram em estado de greve. A votação aconteceu durante assembleia geral extraordinária convocada pelo Sindicato dos Médicos de Campos (Simec) e realizada no auditório da Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia (SFMC). Dos 33 profissionais presentes, 23 votaram a favor.

Segundo o Simec, houve fechamento de unidades básicas de Saúde e falta não só insumos, como medicamentos na rede. Além disso, os médicos enfrentam demissões de colegas que trabalhavam sob regime de Recibo de Pagamento a Autônomo (RPA), cortes de 60% nos salários e incerteza a respeito dos próximos pagamentos.

O presidente do Simec, José Roberto Crespo, afirma que uma comissão foi criada para elaborar uma pauta de reivindicações, que será apresentada ao município e, embora uma paralisação possa ser deflagrada a qualquer momento, a categoria decidiu manter o atendimento até que se decida pela greve. Durante a assembleia, a condição da Saúde no município foi apontada como insustentável e foram lembradas as situações do Hospital Beneficência Portuguesa e Plantadores de Cana, que podem suspender o atendimento nas maternidades.

De acordo com uma supervisora administrativa de uma unidade de saúde municipal – que teve a identidade preservada – o principal problema é a falta de medicamentos. Camas enferrujadas, cadeiras quebradas, banheiros impróprios para o uso, segundo ela, são os menores de todos os “leões” que matam a cada plantão.

Em uma questão, Felipe Quintanilha e José Roberto Crespo concordam: o sistema tem que passar por uma reestruturação. “Há profissionais suficientes para atender à demanda de Campos. O médico está fazendo milagre e o governo sabe disso. As competências da Saúde são separadas – média e alta complexidade cabem aos governos estadual e federal.

O estado não está mandando recurso nenhum. O federal manda com uma tabela que médico nenhum quer atender, tabela defasada há 20 anos. Até o mês de julho não tínhamos esse volume de reclamações. Infelizmente, em agosto, recebemos menos R$ 17 milhões de royalties. Foi quando o cinto apertou e fomos obrigados a fazer readequações. A verba federal está em dia. A municipal que está atrasada em 50%.”, afirmou Quintanilha ressaltando que as unidades de Saúde voltaram a ser visitadas por uma equipe municipal para contabilizar todos os profissionais e constatar a necessidade de cada posto (de Saúde), assim, reavaliar as contratações. “Todos precisamos discutir esse assunto: esferas estadual, federal e municípios da região”.

O secretário alegou ainda que, os hospitais públicos não sabem mais viver sem a verba do Sistema Único de Saúde (SUS). “Quando o município estava jorrando dinheiro, em 2003, o Ministério Público (MP) entrou com uma ação contra a prefeitura por que a gestão gastava muito dinheiro com shows na praia e na Saúde não investia o montante devido. Os médicos reclamavam que a verba federal não era suficiente. O MP, por meio de TAC, decretou que o município deveria complementar o valor do repasse federal. Desde então, isso virou obrigação e os hospitais já não se mantêm somente com a verba do SUS”.

De acordo com o presidente do Simec, o estado de greve, inicialmente é um alerta, momento de gritar à população e autoridades que a categoria está com dificuldades e falta de estrutura para trabalhar. “Temos 30 dias para tentar realinhar este sistema. Estamos sempre em contato com os representantes do governo para tentarmos resolver o problema da saúde do município. A gente espera conseguir que a prefeitura nos dê essa reposta, não só para o sindicato, os médicos; mas principalmente para a população que é quem mais sofre com todos esses problemas. A falta de medicamentos e insumos causa angústia nos profissionais que estão atuando nas unidades de Saúde e estão vendo e convivendo com inúmeros problemas todos os dias, sem poder agir”, declarou. Ainda sem data prevista, os médicos farão uma nova assembleia para decidir o que vai acontecer caso a prefeitura não apresente uma solução, em 30 dias. Existe processos e mais processos no Ministério Público em relação à Saúde de Campos. Vamos estender essas notificações à Defensoria Pública, Ministério Público Federal e ao Ministério Público do Trabalho, todos esses órgãos precisam estar cientes do que acontece com o município”.

Para José Roberto Crespo, a solução é a reorganização do sistema implantado atualmente. “O município tem profissionais adequados para a demanda, temos todos os profissionais para atender essa grande estrutura, o que está faltando é reorganizar o sistema, e isso não é de hoje. O prefeito atual pegou essa desestruturação, mas de qualquer maneira, já estamos no mês de outubro e vidas não esperam. Entendo e sei que há milhões de processos na mesa da secretária de Saúde Fabiana Catalani. No entanto, a rede precisa ser reorganizada, se for necessário fechar algumas unidades é válido , os profissionais adequados devem ser colocados nos seus devidos lugares e com a reestruturação ficará mais fácil o atendimento à população”.


(Foto: Silvana Rust)

Hospital Ferreira Machado

Pacientes nos corredores, demora para realização de cirurgias, banheiros em condições precárias, médicos escassos. Entra ano, sai ano, entra governo, sai governo, não importa. As reclamações são sempre as mesmas no Hospital Ferreira Machado, referência em emergência regional. Um dos poucos problemas na unidade que ainda não foi denunciado à Imprensa foi a interdição dos elevadores por problemas técnicos, que acontecia com freqüência na gestão da ex-prefeita Rosinha Garotinho.

Em agosto, um neurocirurgião do HFM, Arthur Borges, usou uma rede social para desabafar sobre a falta desta especialidade de médicos no hospital que é referência em traumatologia na região. Segundo a postagem, à época, a unidade estava com a equipe reduzida. “Para se formar um neurocirurgião, são seis anos de Faculdade de Medicina e cinco de residência, talvez mais um ou dois de residência. Milhares de horas de estudo e de dedicação, milhares de abstenções para com a família e amigos; horas e horas de cirurgia e de plantão, objetivando vivenciar toda e qualquer situação, mesmo as mais raras. E para se formar um gestor público? Qual é o pré-requisito? Não há pré-requisito. Há a expectativa e a confiança depositada.

Essa semana estamos vivenciando uma dessas situações raras: o maior hospital da região referência para trauma sem neurocirurgiões com apenas um profissional. Há meses sem material físico no hospital e agora sem material humano. Gaze e dipirona se compram na esquina. Neurocirurgião demora onze anos para se formar…”, criticou o médico.

Dois meses depois do desabafo, reclamações não faltam sobre a estrutura do HFM. Na manhã do dia 18, a empresária Sidnélia Gonçalves, procurou a equipe do jornalismo do Terceira Via para mostrar as fotos registradas do banheiro da enfermaria feminina. “Estou há quatro dias acompanhando uma parente que está internada aqui.

Falta tudo. De medicamentos a insumos. Para acompanhante não tem cadeira. Quem quiser traz sua própria cadeira, seja ela qual for. Lençol, travesseiro? Tem que trazer de casa. Não deixei a pessoa que eu estava fazendo companhia utilizar o banheiro do quarto. Aquele espa- ço estava limpo, porém sem condições de uso para uma unidade hospitalar. Bolor, azulejos quebrados, sanitário sem tampa, um verdadeiro absurdo. E, ouvi dizer que o banheiro masculino está pior”, destacou a empresária que ia denunciar as condições do espaço na Ouvidoria da unidade.

Desde o último dia 19, o Hospital Ferreira Machado (HFM) conta com um Comitê Gestor que será responsável por planejar ações e estratégias para formulação, pactuação, avaliação e controle de ações preventivas e corretivas relacionadas aos processos de trabalho na instituição. A criação do comitê foi uma iniciativa do Setor de Recursos Humanos do HFM, com apoio da superintendência da instituição.

O primeiro encontro oficial do comitê aconteceu na tarde do dia 18, no Centro de Estudos do HFM, com as presenças do superintendente do hospital, Pedro Ernesto Simões, e do secretário da Transparência e Controle da Prefeitura de Campos, Felipe Quintanilha, especialista em Gestão Pública.

Quintanilha foi convidado a falar sobre gestão e importância de planejamento de ações. “É preciso que os integrantes do comitê conheçam todos os recursos às suas mãos, para que possam traçar ações que minimizem problemas e otimizem a prestação de serviços pela instituição”, explicou.

O Comitê Gestor do HFM é composto por 18 representantes de setores estratégicos do hospital. Segundo a assistente social Milta Neves, uma das integrantes do comitê, a primeira reunião do grupo já foi agendada para a próxima semana. “Vamos estabelecer cronogramas e discutir prioridades para darmos início ao nosso trabalho”, afirmou.


Hospital São José

O hospital São José, em Goitacazes, considerado Unidade Pré- Hospitalar, registrou só este ano, de janeiro a agosto, nada mais nada menos, que 158.161 atendimentos, vinte mil mensais, segundo superintendência de comunicação da Prefeitura de Campos. Número alto e que preocupa quando, junto dele, chegam também constantes reclamações denunciando a falta de medicamentos, insumos e estrutura da unidade.

Os próprios médicos do hospital relataram durante visita do vereador Cláudio Andrade (PSDC) à unidade, no último mês de agosto, que a situação é caótica. E a falta de medicamentos básicos é a principal reclamação. No mesmo dia, chegaram a afirmar que se naquele momento chegasse alguém infartado, o medicamento para socorrer o paciente, estava em falta.

Maior do que a expectativa para que os medicamentos não faltem nas prateleiras é a espera dos mais de 80 mil moradores da Baixada Campista pela entrega da nova unidade do Hospital São José, que é aguardada há pelo menos 7 anos. O investimento de R$ 6.457.995,89 prevê um hospital moderno com 25 leitos e salas específicas para exames, como mamografia, endoscopia e observação pediátrica. A previsão de entrega era para 2014.

Os pacientes também reclamam da falta de acessibilidade do prédio antigo do hospital.

“A sinalização da rodovia é ruim para chegar até aqui e ainda as calçadas irregulares são um transtorno pra quem chega como eu de cadeira de rodas”, reclama dona Maria de Lourdes de 69 anos.

Além de todos os problemas do São José, outro que também está na lista é a falta de segurança na unidade. Em novembro do ano passado, um homem foi assassinado, na madrugada, dentro do hospital. Segundo informações da polícia, Leandro Carlos Ribeiro Pereira, de 34 anos, era morador de Saturnino Braga e teria sido agredido em um bar e levado a unidade. Ele recebia atendimento de duas enfermeiras no momento em que um homem invadiu a sala e atirou. O autor do crime teria ameaçado funcionários da unidade de Saúde.

Os profissionais encontrados no São José são ginecologistas, pediatras, clínicos, cardiologistas, dermatologistas, endocrinologistas, neurologistas, terapeutas, psiquiatras, urologistas, reumatologistas, gastos e hematologistas.

Em resposta aos problemas apresentados na matéria, a prefeitura informou que, a falta de medicamentos e insumos que a rede está sofrendo e possíveis faltas podem ocorrer de forma pontual. Materiais específicos, por exemplo, estão sendo adquiridos através de pregão, para atendimento a novas demandas. Novos pregões já estão em andamento para aquisição de novos lotes de medicamentos e insumos, como complemento à aquisição, em caráter emergencial, que foi realizada no primeiro semestre deste ano.

O secretário da Transparência e Controle, Felipe Quintanilha, informou que a obra começou em 2010 e que a prefeitura tem uma dívida de mais de R$ 800 mil com a empresa e a obra não foi concluída. Além disso, há ainda a necessidade de equipar o hospital porque o equipamento da estrutura existente não pode ser instalado na nova estrutura. A obra iniciou com 6 milhões e, com os aditivos, ficou em quase R$ 9 milhões.


(Foto: Silvana Rust)

Santa Casa e HGG

A Santa Casa de Misericórdia de Campos, um dos maiores hospitais filantrópicos da Região, vem reduzindo alguns serviços importantes na área do Sistema Único de Saúde (SUS) por falta de verbas. No momento, existe o risco de desativar aos poucos a maternidade que, ironicamente, deu origem à sua criação. Os gestores do hospital afirmam que é preciso fazer uma adequação dos repasses pois o custeio aumentou consideravelmente nos últimos anos. Afirmam compreender as dificuldades do município, mas destacam que existe verba para isso, embora o governo federal também tenha encolhido esse dinheiro.

Hospital Geral de Guarus

O Hospital Geral de Guarus (HGG), considerado de emergência branca, que deveria atender a uma das maiores demandas do município – tamanha área de sua cobertura – vem, há anos, agonizando. Para colocar a casa em ordem vai levar algum tempo. Com isso, casos graves que deveriam ser atendidos nele, acabam sendo removidos para o Hospital Ferreira Machado, em um contraponto a sua própria criação. Atenua um pouco a situação da populosa Guarus, a UPA que funciona à margem da BR-101, próximo ao Exército. Segundo a prefeitura, reestruturar o Hospital Geral de Guarus é uma das prioridades na área de Saúde no município.


(Foto: Silvana Rust)

Beneficência Portuguesa

O presidente do Sindicato dos Médicos e o secretário de Controle e Planejamento concordam que para uma cidade com 500 mil habitantes, duas maternidades não são suficientes. Além disso, mesmo com o repasse em atraso, são instituições que não podem fechar as portas.

“No ano passado, a da Santa Casa fechou, agora Beneficência Portuguesa e Plantadores de Cana com problemas e muitas dificuldades. Não dá para ficar sem nenhuma dessas duas maternidades. Nós atendemos não só aos munícipes de Campos, mas também de municípios vizinhos.

A gestão terá que se reorganizar quanto a essa questão. Na verdade, precisa saber o que o município deseja comprar do hospital contratualizado. Cada um desses ter uma linha. No momento esta é a solução para garantir o bem estar da população”, destacou Crespo.

Quintanilha afirmou que a Beneficência e o Plantadores não deixarão de atender às gestantes. “Quando o royalties cai na conta, a gente faz a distribuição e, além dos hospitais contratualizados, as maternidades terão a sua fatia. A verba pode ser menor, caso o orçamento municipal também não seja o esperado. Porém, nenhuma instituição ficará sem receber”. Ainda de acordo com o secretário de Controle e Planejamento, a atual gestão encontrou a secretaria municipal de Saúde com uma condição limitada de atendimento nas unidades de saúde. Problemas estruturais estes, que vem se estendendo por anos, mesmo quando o município recebia maiores valores de participação nos royalties. Atualmente, o município possui menos R$ 1 bilhão de receita, se comparado ao ano passado. “Encontramos a prefeitura sem dinheiro, com dívidas que totalizam R$ 2,4 bilhões e custeio (despesas com necessidades básicas mensais) muito maior do que a receita. Em janeiro, o município tinha R$ 152 milhões de custeio (que já foi consideravelmente reduzido) e uma arrecadação de R$ 95 milhões”, finaliza.


(Foto: Silvana Rust)

Hospital Plantadores de Cana

A direção do Hospital Plantadores de Cana ( HPC) comunicou no último dia 10, ao Ministério Público (Federal e Estadual); ao Conselho Regional de Medicina (CRM); a Secretaria Municipal de Saúde e ao prefeito Rafael Diniz, a atual situação instituição.

Segundo o documento, o atraso no pagamento dos serviços contratualizados pela prefeitura tem gerado vários problemas como atrasos nos pagamentos de fornecedores e prestadores de serviços; atraso nos salários de funcionários e médicos; atraso no pagamento dos tributos, colocando em risco a própria filantropia da instituição; total desabastecimento de materiais e medicamentos, gêneros alimentícios, material de higienização e outros materiais, além de iminente rompimento dos serviços terceirizados de lavagem de roupas e demais serviços essenciais ao funcionamento do hospital.

Consta ainda do documento, a preocupação da direção do HPC com os pacientes internados na unidade, sendo um total de 149 pacientes que necessitam de cuidados e assistência, desse total, 38 são pacientes neonatos (recém-nascidos) que se encontram na UTI.

O Hospital, que realiza em média 345 partos por mês, é referência no interior do estado em gravidez de alto risco, Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) Neonatal e Unidade Intermediária (UI) Neonatal.

A direção esclarece que por causa do atraso no pagamento dos serviços contratualizados, os salários dos funcionários também não estão em dia. Os médicos receberam 50% referente ao mês de agosto. Sobre o repasse federal, esse mês ainda não foi pago. Os recursos deveriam ter sido pagos também no 5º dia útil.

À porta da unidade, muitas dúvidas e incertezas em relação ao fechamento da maternidade. Jéssica Almeida, tem 19 anos e está no 8º mês de gestação.

“Estou fazendo o pré-natal no posto do meu bairro e está tudo certo com meu bebê, segundo a médica que me acompanha. Mas, hoje, ouvi dizer aqui nos corredores que a maternidade pode fechar no dia 1º de novembro. Onde vou ter meu filho? Isso está me deixando angustiada”, afirmou a dona de casa.

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