domingo, 14 de junho de 2020

Vidas negras importam

Reportagem especial analisa a opressão sistemática que um povo sofre apenas em função de sua cor


Simone Pedro. (Foto: Carlos Grevi)/Por Ulli Marques e Priscilla Alves

“Vidas negras importam”. Essa frase parece óbvia. Afinal de contas, toda vida humana deveria ter importância e ser preservada. Mas esse ideal igualitário só existe perante à lei. Na prática cotidiana, distinções são frequentes, sobretudo quando se trata da relação entre brancos e negros. O racismo existe e não é observável apenas em discursos de ódio ou em repressões violentas, como as que preencheram os noticiários do Brasil e do mundo nas últimas semanas. Faz apenas 132 anos que os escravos foram libertos no país, sem qualquer garantia de direitos básicos. Do ponto de vista histórico, isso foi ontem. Esses últimos acontecimentos que motivaram protestos nas redes sociais e também nas ruas não são, portanto, episódios isolados: são a culminação de uma opressão sistemática.

Em um contexto de pandemia, quando as autoridades de saúde orientam que a população permaneça em suas casas, os atos antirracistas que ocorreram após a morte de George Floyd, nos EUA, e do menino João Pedro e do jovem João Vitor, no Rio de Janeiro — os três assassinados pela força policial em maio de 2020 — foram alvo de controvérsias. No entanto, para aqueles que são as víti- mas da desigualdade e da violência decorrente do preconceito racial, tais atos são o resultado de um acúmulo de situações que acontecem há séculos e que chegaram ao limite.

“A cor da pele assusta e afasta, mas, quando se trata de uma abordagem policial, atrai”, pontou a professora doutora e coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABI) da UENF, Maria Clareth Gonçalves Reis. “Os atos e manifestações estabelecidos nas últimas semanas reúnem um conjunto de angústias e revoltas silenciadas historicamente. Com o lema ‘vidas negras importam’, estas vozes querem ser ouvidas e respeitadas. RacismoQuerem, acima de tudo, o direito à vida”.

Embaixador do Conselho Pan-Africano no Brasil, o jornalista Rogério Soares acredita que as mani- Últimos acontecimentos que motivaram protestos nas redes sociais e também nas festações antirracistas são importantes porque mostram a dimensão da condição do negro e dão ruas não são episódios isolados, são a culminação de uma opressão sistemática amplitude às suas demandas desse grupo. “É preciso romper com essas estruturais, chacoalhar a sociedade, a começar pelos políticos que montam essa engrenagem e fazem com que ela funcione”, apontou.

Números

Essas declarações vão ao encontro dos números. Os negros (pretos e pardos) correspondem a 56,10% da população brasileira, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE. E eles são maioria não somente no número de habitantes, mas também no quantitativo de pessoas analfabetas (9,1% são negros e 3,9% são brancos), desempregadas (64,2%), subocupadas (66,1%), encarceradas (61,6%) e assassinadas (75,5%) no Brasil. Em contrapartida, os negros estão em menor número quando se trata de posições de liderança no mercado de trabalho, de acordo com pesquisa de 2018 do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, e em representatividade na política e no magistratura (IBGE). Recentemente, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO) também divulgou resultados de uma pesquisa que mostra que a letalidade da Covid-19 é maior entre os pretos e pardos (55%) do que entre os brancos (38%), uma vez que aqueles se encontram em situações mais precárias de moradia e acesso a serviços de saúde.


Protesto | Campos aderiu às manifestações que ganharam o mundo

Sistema racista

As estatísticas mostram que o racismo não se configura por meio de ações isoladas. Trata-se de um sistema institucionalizado, de acordo com a socióloga e cantora Simone Pedro.

“A necessidade de ir às ruas vem do fato de que a simples declaração de que ‘não é racista’ não é suficiente para mudar esse quadro de desigualdade, segregação e violência. Precisamos nos colocar principalmente perante instituições que corroboram com essa prática. A Polícia Militar, por exemplo, é a expressão do Estado que, por sua vez, expressa a vontade da sociedade, ou pelo menos das classes dominantes. Quando o racismo é manifestado em uma ação violenta, trata-se do remate de uma série de pensamentos que se faz a respeito de um grupo, um povo, uma cultura, uma religiosidade”.
Essa definição do racismo como “opressão sistemática”, inclusive, será inserida no verbete do Merriam-Webster, dicionário de referência dos Estados Unidos, após uma jovem negra entrar em contato com a instituição que publica os dicionários desde 1847 para sugerir uma atualização. Segundo ela, o racismo não é simplesmente um ato discriminatório. O diretor editorial do Merriam-Webster, Peter Sokolowski, confirmou que a definição será modificada e pediu desculpas “pelos danos que causamos por não ter feito antes”.

Educação é a saída


Para os entrevistados desta reportagem, somente a educação mostra-se eficaz para promover a equidade entre brancos e negros. “Mas não se trata de uma educação escolar, a não ser que haja uma mudança efetiva nos planos pedagógicos. A Lei 10.639 obriga as escolas a ensinarem a história da Africa e a cultura Afrobrasileira na Educação Básica, mas, na prática, isso não é cumprido. Há um sentimento coletivo de que isso não é importante”, destacou Simone Pedro.

A coordenadora do NEABI-UENF, Maria Clareth, reitera a importância das ações afirmativas que visam inserir o negro em espaços sociais que há pouco tempo lhes eram relegados, como a política de cotas. “Essas ações têm resultados positivos, mais ainda há muito a ser feito para alcançarmos a tão sonhada equidade”, disse.

Valendo-se da circunstância da pandemia, Simone compara o racismo a um vírus: “É preciso entender o tamanho que ele tem, onde se esconde e onde ele ataca para que a gente possa começar a combatê-lo. Por isso é importante explicar para as pessoas o que é o racismo e mostrar, seja por meio de protestos, seja por meio de uma verdadeira revolução pedagógica, que ele não se mostra em ações isoladas, mas está sedimentado em nossas estruturas sociais”, afirmou.

Racismo em Campos

Campos é uma cidade de notória importância para a história do país e muito do sucesso de sua produção se deu devido à força do trabalho escravo. Simone Pedro pontua que o número de pessoas escravizadas no território que hoje compreende o município era desproporcional ao número de pessoas livres, sobretudo dos brancos, que os tinham como propriedade.
“Considerando o fato de que esses negros não foram plenamente inseridos na sociedade, não é de se estranhar que os pretos e pardos ainda são maioria, encontram-se sobretudo nas periferias da cidade, vivendo em situações precárias e são os que têm menos acessos aos serviços e bens públicos”, destacou. Contudo, segundo ela, esse fato não significa que o preconceito advém da condição socioeconômica dos negros.
“Mesmo pessoas pretas que pertencem a classes sociais mais favorecidas sofrem atos discriminatórios na cidade”, afirmou.


Ação desproporcional | PM dispersou manifestantes com gás lacrimogêneo

Reação da PM repercute

Nos últimos dias, Campos teve dois protestos antirracistas sendo que o primeiro deles ganhou notoriedade, principalmente, pela repressão da Polícia Militar que, em ação truculenta, jogou gás lacrimogêneo em cerca de 15 manifestantes que protestavam seguindo as recomendações de afastamento e com máscaras para prevenção contra o coronavírus. O caso teve ampla repercussão e foi repudiado por instituições.

O advogado Jorge de Assis, presidente da Comissão da Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Campos emitiu uma nota de repúdio, em nome da OAB, em que chamou a ação da polícia de “desproporcional, desnecessária, inconstitucional e inconvencional”.

“O ato foi brutalmente reprimido pela polícia sem a menor razão de ser. Os policiais desafiaram, a Constituição, no artigo 5º, inciso 16, que diz que todos podem se reunir pacificamente sem armas em locais aberto ao público, independente de autorização. O cidadão tem o direito de protestar e expressar sua ideia. Aquilo que aconteceu é inadmissível e nós, da OAB, vamos enviar uma notícia ao Ministério Público para que apure e que os autores sejam punidos”, falou.

O segundo ato, ocorrido na última quarta-feira (10), na Praça São Salvador, reuniu cerca de 100 pessoas e também teve a presença da Polícia Militar. Porém, os policiais não interferiram. “Hoje, os policiais estão aqui para garantir a nossa segurança, o que deveria ter acontecido da primeira vez”, comentou Totinho.

Para o jornalista e embaixador do Conselho Pan-Africano no Brasil, Rogério Siqueira, é preciso que apolícia se retrate pelas ações no primeiro ato.
“A polícia está tomando partido, o que não deveria acontecer. Tivemos outras manifestações em Campos no período da quarentena e, em comparação, percebemos que a polícia deu tratamento desigual. A gente quer tratamento igualitário e que os limites da função da polícia sejam respeitados. É necessário que a PM se retrate por meio do seu comando e admita que errou. É óbvio que a gente reconhece as contribuições que o 8º BPM dá à nossa segurança pública, mas quando erra, tem que reconhecer e pedir desculpas à sociedade e aos negros e negras que estavam ali e sofreram uma violência desproporcional”, comentou.

A reportagem questionou, por email, o comando da Polícia Militar em Campos sobre a ação policial durante o primeiro ato. Por meio de nota, a Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar informou que “os policiais militares estão instruídos a priorizar a conscientização e o diálogo no contato com os cidadãos” e ainda que “os manifestantes não obedeceram a ordem de dispersar e foi necessário o uso de armamento de menor potencial ofensivo para que a determinação fosse cumprida”, informou a nota. A reportagem perguntou novamente o motivo das agressões, já que os manifestantes eram poucos e mantiveram a distância, mas não recebeu resposta.

Aqui, todos têm sangue negros

Por Aloysio Balbi

Que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão, em 1888, isso é fato. Que Campos foi a última cidade a cumprir a lei, isso é fake. A historiadora Silvia Paes afirma que essa informação não tem fundamento.

Segundo ela, essa versão não encaixa com o movimento abolicionista de Campos, que tinha à época entidades denominadas “Liras”, que tinham como objetivo angariar recursos para comprar a alforriados negros. Ao mesmo tempo, antes da abolição, muitos senhores libertaram seus escravos espontaneamente.

A história de que Campos teria sido a última das cidades a manter os negros sob o ferro do suplício se descaminha ao seguirmos os rastros do jornalista negro José do Patrocínio, o Tigre da Abolição, que era campista e um dos principais ativistas da causa.

“O fato é que, em Campos, hoje, mesmo os que têm cabelos loiros e olhos azuis, têm sangue negro correndo em suas veias. A miscigenação aqui foi bem acentuada. Mas é importante salientar que a miscigenação não impede que haja o preconceito racial em nossa sociedade”, disse a historiadora.
Em se tratando de personagens negros, a história de Campos não se limita a José do Patrocínio. Existem outros vultos em áreas diversas: na política, Nilo Peçanha, que era negro, chegou à presidência da República. Nas artes, Mercedes Batista foi a primeira bailarina negra do Teatro Municipal do Rio; incluem-se aí os sambistas Wilson Batista, Roberto Ribeiro e a atriz Zezé Mota. No futebol, dois bicampeões — 1956 e 1956 — Amarildo e Didi. Uma galeria acima de qualquer cor.

MINHA EXPERIÊNCIA COM O PRECONCEITO


Simone Pedro, socióloga e cantora

“Uma das expressões mais claras do racismo cotidiano pode ser observada no comércio. Quando entro em um shopping, sou seguida por seguranças. Essa é uma prática comum. A relação vendedor-comprador também marca muito. Diversas vezes entrei em lojas em que o produto comercializado não era barato e o vendedor me perguntou o que eu ‘fazia da vida’. Eles estranham uma mulher como eu comprar um produto com preço mais alto. Esse estranhamento, que é tamanho a ponto de se manifestar em uma pergunta, é um sinalizador de uma sociedade racista. Também é corriqueiro os seguranças de estabelecimentos de entretenimento me dizerem que a ‘casa já está cheia’. Mas essa situação não é uma exclusividade de Campos. Sempre que entramos em ambientes que não foram feitos para pessoas como nós, passamos por situações de desconfiança e impedimento de ir e vir”.


Rogério Soares, jornalista e embaixador do Conselho Pan-Africano no Brasil

“Eu teria vários episódios para relatar, mas, como sou jornalista, os acontecimentos que envolvem a minha cabeça porque me marcaram. Ao longo da minha carreira, por muitas vezes, em diversas situações, ou não acreditavam que eu era jornalista, ou, se acreditavam, não acreditavam na minha capacidade, simplesmente pelo fato de eu ser negro. Isso acontece nos meios de comunicação de maneira muito severa, ainda que a profissão de jornalista seja tão sagrada à democracia e tão atacada em tempos de intolerância. Vejo isso acontecer comigo e com outros colegas negros que, inclusive, também têm dificuldade para se inserir no mercado de trabalho. Esse é um reflexo de uma sociedade em que a pobreza e as condições de miséria têm um recorte racial”.


Maria Clareth Gonçalves Reis, professora doutora e coordenadora do NEABI-UENF

“Como mulher negra, sinto o racismo e os racistas batendo em minha porta cotidianamente. Certa vez, fiz uma compra e o entregador surpreendeu-me com a seguinte questão: “Bom dia, onde está a patroa?”. Eu o respondi com outra pergunta: “Toda mulher negra teria que ter uma patroa? Eu sou a ‘patroa’. Só por eu ser uma mulher negra eu teria que ocupar a função de doméstica e ter uma patroa branca?”. Reagi naquele momento dizendo que ele estava sendo racista ao julgar uma pessoa pelo fenótipo. Este tipo de atitude já se naturalizou na sociedade. Por que as mulheres negras não podem ocupar outros lugares na sociedade? A minha presença como mulher negra professora, doutora, concursada e servidora de uma universidade pública ainda surpreende”.


Renato Chagas, psicólogo

“Exercendo a profissão de psicólogo, já sofri racismo por muitas vezes. Uma dessas ocasiões me tocou bastante. No começo da minha carreira, um dos meus primeiros pacientes, após receber alta do tratamento, me abraçou e chorou copiosamente por um bom tempo. Perguntei o motivo das lágrimas e ele me pediu desculpas. Disse que chorava porque, no início, ele não acreditava na minha eficácia profissional pelo simples fato de eu ser negro. Ele justificou esse sentimento dizendo que nunca havia visto um psicólogo como eu. Essa é uma prova de que o racismo estrutural existe e persiste em vários âmbitos sociais. E exercendo a profissão de psicólogo, também ouço histórias de outras pessoas que são vítimas de racismo e percebo os diferentes danos que ele pode causar”.


Vinícius Faria, administrador público

“Nós, aqui no Brasil, temos essa questão racial um pouco camuflada e alguns atos que podem parecer brincadeiras, no fundo estão cheios de preconceito. A gente aceita o negro no futebol, no pagode, e fazendo atividades de cunho popular, mas quando o negro ocupa posições sociais majoritariamente ocupadas por brancos, isso é colocado em xeque.Você não vê muitos negros como médicos ou juízes. Eu já sofri preconceito dentro da escola em uma época em que isso não era muito discutido. Um professor me chamou na frente da turma, olhou pra mim e disse “isso aqui é pra vocês verem como a coisa fica quando fica negra”. Os alunos riram e eu fiquei muito constrangido. Eu tinha mais ou menos 12 anos e não contei nem pra minha mãe. Lógico que até hoje sofremos preconceitos de forma velada, mas esse foi o que mais me marcou.”


Totinho Capoeira, presidente do Conselho Municipal de Igualdade Racial

“Uma vez fui para um evento em uma universidade em Ilhéus, na Bahia, e fiquei hospedado em um resort com minha companheira. Nesse resort, não tinha ninguém preto, nem para servir comida, nem para limpar chão. Os pretos estavam todos na cozinha ‘trancados’, quando eu passava, eles me olhavam pela porta da cozinha para ver quem era, porque ali não tinha circulação de pretos. Quando fomos encerrar a hospedagem, a recepcionista perguntou à minha esposa de qual banda ela era dançarina e eu falei que éramos dois professores. Quando a gente saiu, teve funcionário negro que pediu para tirar foto com a gente, porque não era comum negro hospedado ali. Isso pramim foi muito triste. Eu e minha esposa saímos de lá chorando”.


Jorge de Assis, presidente da Comissão da Igualdade Racial da OAB Campos

“Os descendentes do povo africano cotidianamente sofrem as agruras do racismo, que é muito doloroso do ponto de vista emocional. Não importa a posição que a pessoa ocupa, todos da pirâmide sofrem, independente se estão na base ou no topo. Há alguns anos, eu estava na Praça São Salvador, aguardando o ônibus da OAB. Eu estava na frente, mas quando o ônibus chegou, eu cedi a vez para uma colega e para um advogado já mais idoso, como um ato de cavalheirismo. Eles subiram e quando eu fui subir, o motorista me perguntou se eu era advogado mesmo. Eu estava de terno e gravata, com um broche da OAB na lapela do terno e ainda assim ele me questionou. Aparentemente é uma pergunta boba, mas os outros que estavam na frente, a nenhum foi perguntado se era advogado”.


Stella Tó Freitas, comunicóloga

“Pela nuance da minha pele, o racismo chega muito superficialmente, mas eu o sinto de várias formas. Seja em não ser respeitada como profissional, seja de pessoas que julgam meu cabelo, seja de pessoas que simplesmente ignoram minha presença ou fala em alguns lugares. São situações constantes. As pessoas não-negras precisam estar abertas ao diálogo. Ouvir é fundamental. O Brasil tem pouco mais de 500 anos e 300 deles foram de escravidão da população negra. Há muitos anos estamos falando, gritando e muitas pessoas sequer param para nos ouvir. O estado ataca, agride e reprime pessoas negras, não é de hoje. Em uma cidade conservadora como Campos, que aplaude o discurso do executivo federal, é preciso ter muita cautela e estratégia”.
Fonte Terceira Via

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